CULTURA
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A BR-116 é a maior rodovia do Brasil.
Com mais de 4,5 mil km de extensão, ela percorre o país de norte a sul, cruzando dez estados brasileiros, desde Fortaleza, no Ceará, até chegar a Jaguarão, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai.
Em muitas localidades, a estrada risca o mapa dos municípios como uma lâmina, repartindo o território em duas metades e impactando a vida dos habitantes como marcas de pneus no asfalto.
É o caso de Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, cidade de 360 mil habitantes colada à capital gaúcha.
Um Filme de BR, documentário dirigido pelo canoense Wender Zanon, de 35 anos, mostra histórias de vida contadas por personagens que convivem diariamente com a rodovia.
Os Fagundes constituem uma das famílias mais populares da música gaúcha.
Disso, ninguém duvida. O que pouca gente conhece, hoje em dia, é a história de quem deu início ao protagonismo do clã na cultura regional.
Estamos falando de Darcy Fagundes, primogênito de 11 irmãos, dentre eles, Antonio Augusto e Euclides, que ganharam fama, respectivamente, como Nico e Bagre Fagundes (a segunda geração também despontou na cena artística, principalmente Neto, Ernesto e Paulinho, filhos de Bagre).
Declamador, poeta e ator, Darcy foi o primeiro dos Fagundes a fazer sucesso, com o programa Grande Rodeio Coringa, na Rádio Farroupilha, de 1955 a 1970. Além da Farroupilha, trabalhou na Rádio Gaúcha e na TVE, entre outras emissoras.
Merecidamente, Darcy será homenageado durante os Festejos Farroupilhas, que – em 2025 – terão como tema Ondas Curtas Para Uma História Longa – O Centenário de Darcy Fagundes e os 70 Anos do Grande Rodeio Coringa. Além disso, terá sua história contada no documentário Darcy Fagundes, Meu Famoso Pai Desconhecido, dirigido por Luciane Fagundes (filha de Darcy). O filme está em fase de finalização.
O documentário foi assunto do podcast do Rua da Margem, quando o jornalista Paulo César Teixeira conversou com a diretora e o montador Rogério Brasil Ferrari.
INOVAÇÃO
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O Afro Pub, bar inaugurado em 20 de março de 2025, é o ponto de encontro da comunidade de negros estrangeiros em Porto Alegre (a maioria formada por universitários que participam de programas de intercâmbio acadêmico).
— Não tínhamos um espaço físico onde pudéssemos cultivar as nossas raízes, escutar a nossa música, dançar a nossa dança, comer a nossa comida. Daí surgiu a ideia do Afro Pub — diz Asid Adult Man, pseudônimo do rapper Esdras Altidor.
Asid é exceção entre os fundadores do Afro Pub – é o único que não nasceu na África, e sim em Môle Saint Nicolas, cidade localizada no norte do Haiti.
Da mesma forma, havia também dificuldades de achar um lugar para comemorar as festas que ornamentam o calendário dos filhos da África, como destaca Daniel Ovono Akieme, outro fundador do Afro Pub.
Natural da Guiné Equatorial, ele veio para o Brasil há quatro anos. Após passagem por Feira de Santana (BA), se mudou para Porto Alegre, onde cursa Administração Pública na UERGS.
De fato, o Afro Pub foi criado para preencher mais essa lacuna. Prova disso é que, no sábado, dia 31 de maio, das 3 da tarde até a meia noite, o bar será palco para a celebração do Dia da África (confira informações sobre ingressos).
No barzinho da Rua João Alfredo, haverá exposição de artesanato e desfile de moda africana, além de música e dança (veja uma amostra aqui).
O jantar será servido a partir das 7 horas da noite. O menu inclui couve com amendoim e coco, xiguinha de feijão e peixe frito, além de doce de mandioca.
As comidas serão preparadas por Eulanda Maria Daniel, que nasceu em Inhambane, cidade do sul de Moçambique.
Ela vive em Porto Alegre há três anos e cursa Informática em Educação na UFRGS. Além disso, é jogadora de futebol (no momento, atua como zagueira do Futebol Com Vida, clube/SAF de Viamão).
Ainda que seja um ponto de encontro da comunidade de africanos, o Afro Pub recebe também a visita de outros públicos.
Frequentadores habituais do bairro boêmio passam na calçada e se sentem atraídos pela música que escutam. Aí decidem conhecer o espaço, como relata Salvador Osa Eyi Okomo, estudante do curso de Relações Internacionais da UFRGS.
— Qualquer um pode vir ao Afro Pub. E, se não quiser consumir, pode vir só para conversar sobre coisas da África de que não faz ideia ou sobre as quais, talvez, tenha ideias erradas — diz Salvador, que chegou à capital gaúcha há cinco anos.
A Banana Verde, loja pioneira na venda de produtos ecológicos não-alimentícios de Porto Alegre, está de volta às origens ao abrir uma nova loja na Avenida José Bonifácio, no Bom Fim.
Explica-se: o sobrado situa-se de frente para a Feira dos Agricultores Ecologistas, a mais antiga feira ecológica do País (fundada em 1989, aberta sempre aos sábados pela manhã). Foi justamente entre os feirantes da José Bonifácio, uma década atrás, que Felipe e Renata montaram uma banquinha que viria a ser a primeira trincheira de vendas presenciais da empresa (antes, as peças eram vendidas só pela internet).
Da banca na feirinha ecológica do Bom Fim para os tempos atuais, o negócio se expandiu, mas preservou a coerência da trajetória.
— Antes de abrirmos a loja, éramos consumidores de produtos ecológicos, além de militantes da causa ambiental. Nada foi por moda ou oportunismo — ressalta Felipe.
LUGARES
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Um personagem carismático de uma Porto Alegre efervescente, que se pretendia plural, culta e irreverente – sobretudo, uma cidade aberta à cena contemporânea.
Assim era Tatata Pimentel, apresentador de televisão que se destacava pela inteligência afiada e o humor sarcástico (quem não se lembra do programa Gente da Noite, exibido nas madrugadas da TV COM, a sua última aparição na telinha?).
Culto e debochado, pioneiro na afirmação da diversidade sexual, Roberto Valfredo Bicca Pimentel (seu nome de batismo) se desdobrava em múltiplos talentos, Foi ainda professor – dos bons – de literatura, francês e inglês, além de dono de galeria de arte e diretor do MARGS e do Atelier Livre.
Figura de destaque na história recente da cidade, Tatata foi também um personagem querido e admirado do bairro Santana, em especial na Rua Olavo Bilac, no quarteirão entre a Rua Ignácio Montanha e a Avenida João Pessoa, onde viveu boa parte da vida.
Por décadas, ele morou no apartamento que havia pertencido à sua mãe, dona Zaíra, no segundo andar do edifício Negrinho do Pastoreio, um daqueles prédios antigos que resistem ao tempo e se sobressaem pela simplicidade e a elegância, em meio à paisagem caótica e desbotada da paisagem urbana.
Foi, aliás, ali que faleceu, enquanto dormia o sono dos justos (vítima de um infarto do coração), aos 74 anos de idade, em 2012.
Agora, Tatata está de volta, em grande estilo, em seu próprio território, como homenageado do Café Bar Olavo, prestes a ser inaugurado pelo sobrinho-neto João Henrique Pimentel, na esquina da Olavo Bilac com a Rua Ignácio Montanha.
Não são muitas as empresas que chegam aos 100 anos – ligadas à área da cultura, então, nem se fala.
É, justamente, o caso da Valcareggi, fábrica e oficina de instrumentos de sopros e percussão abrigada, desde 1925, na Rua João Alfredo (antiga Rua da Margem), no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre.
— Quando meu bisavô abriu a porta pela primeira vez, não pensou que a firma ia durar 100 anos. Mas, no outro dia, ele abriu de novo e assim sucessivamente. Hoje pela manhã, eu abri a porta e, provavelmente, amanhã vou abrir outra vez. Essa é uma história que se construiu, dia após dia, com muito trabalho — diz Marcos Valcareggi, de 57 anos, que representa a quarta geração da família à frente da empresa.
Não à toa, durante décadas, a Valcareggi foi uma referência central na cena musical da capital gaúcha.
Por lá passaram grandes instrumentistas da cidade, em diferentes épocas, para adquirir ou consertar seus instrumentos, como o flautista Plauto Cruz e o percussionista Giba Giba, para citar apenas dois nobres exemplos. Há relatos de que Lupicinio Rodrigues, assíduo frequentador do bairro boêmio, também visitava o casarão da João Alfredo, embora o único instrumento que soubesse tocar, de fato, fosse a caixinha de fósforo.
Afora isso, fanfarras e bandas marciais de vários estados brasileiros – e de países do Cone Sul – ainda hoje recorrem aos préstimos da Valcareggi, assim como escolas de samba, blocos carnavalescos e até torcidas organizadas de Grêmio e Internacional.