A guria da Polaroid
Garota percorre ruas e travessas da Cidade Baixa para captar flagrantes instantâneos madrugada adentro
Lucélis Bertoletti circula pelo bairro boêmio de Porto Alegre para registrar momentos especiais de quem se diverte à noite (Fotos: Rua da Margem)
Para quem espia de longe, até parece que a plaquinha amarela e preta flutua – como se tivesse vida própria – sobre a cabeça dos jovens que se espalham de ponta a ponta pela Cidade Baixa, reduto boêmio de Porto Alegre.
Mas ela é guiada pela moça que bate perna de lá para cá com uma câmera fotográfica a tiracolo para captar momentos especiais das pessoas que estão se divertindo nas calçadas.
É a guria da Polaroid, como ficou conhecida Lucélis Bertoletti, de 27 anos, que circula pelas ruas e travessas do bairro, de quinta a domingo. As imagens impressas são quase instantâneas – demoram pouco mais de um minuto para brotar da maquininha e escorregar para as mãos dos fotografados. Cada pose custa R$ 20.
Linha do tempo
Pode não parecer, mas a garota é tímida. Talvez a palavra mais certa seja envergonhada.
Afora isso, quando andava pela noite só para se divertir, detestava que alguém viesse interromper a conversa com os amigos para vender alguma coisa.
— Se não gosto que façam comigo, não vou fazer igual — explica ela.
Então, como fazer a abordagem no rolê? Foi quando teve a ideia de empunhar a placa com os dizeres “Foto Polaroid”. Pronto, não precisava dizer mais nada.
— Deu muito certo. A plaquinha virou parte de mim. As pessoas lembram de mim por causa dela.
Lucélis em ação na Travessa dos Venezianos
De fato, a guria ganhou fama. A ponto de ser reconhecida mesmo quando deixa a plaqueta em casa e sai para fazer compras no shopping ou almoçar num restaurante. “Olha ali a guria da Polaroid!”.
Não é por acaso. Parte dessa súbita fama se explica pelo ambiente boêmio – afinal, à noite, as pessoas estão mais relaxadas e, por isso, mais receptivas. Mas só isso não explica o sucesso.
É preciso falar também da atitude empática e acolhedora da moça, que participa da linha do tempo da existência de seus fotografados.
— Gosto de conhecer pessoas, estabelecer conexões com elas. Algumas me contam que fotografei o começo de um namoro e, agora, a relação terminou. Outras se reencontram depois anos e existem ainda as que estão se despedindo para morar em novos lugares. É como se fizessem uma atualização de vida delas com as minhas fotos.
Há quem faça confidências.
— Às vezes, fico até preocupada. Tem gente que me para na rua para contar histórias íntimas.
Memória do momento
Conforme Renan Padilha, retratado por Lucélis na Travessa dos Venezianos ao lado de amigos, num sábado à noite, “o barato é registrar o momento na hora em que acontece, a memória exata daquele instante”.
Para essa turma, a Polaroid não é novidade. Renan conta que a geladeira de sua casa está lotada de imagens coladas com imã registrando uma série de momentos marcantes da vida. Laura Santos, que mora com ele, acrescenta:
— Na primeira viagem que fizemos juntos, também havia uma garota com uma Polaroid trabalhando por lá. Hoje, quando olho na geladeira a nossa foto num restaurante da Guarda do Embaú (litoral de Santa Catarina), lembro até a música que tocava naquela hora.
Já Tamara Falcão, dona da Agência New Eyes, de Rio Grande, estava passeando pela primeira vez pela Cidade Baixa naquela noite, quando foi captada pela lente de Lucélis.
Flagrantes instantâneos de afeto
— Estou convivendo com meus amigos num lugar em que nunca estive antes. É a oportunidade de registrar esse encontro tão legal — diz ela, em frente a uma movimentada loja de conveniência, na Avenida José do Patrocínio.
Tamara poderia, simplesmente, tirar uma foto de seu celular e postar na rede social, como quase todo mundo faz. Mas a imagem da Polaroid é especial:
— Tem um charme e um significado diferentes — explica ela.
Lucélis está há pouco mais de um ano trabalhando como fotógrafa da noite.
Apesar do apelido, não é exatamente uma Polaroid que ela leva nas mãos, e sim uma Instax Mini 12, similar à marca original.
É que, como acontece com outras marcas que também se confundem com o produto que consagraram (a exemplo da Frigidaire para antigas geladeiras, Gilette para lâminas de barbear, Band-Aid para curativos e Chiclete para gomas de mascar), a Polaroid virou sinônimo de foto instantânea.
Criada pelo americano Edwin Robert Land, do Minnesota, em 1943, a Polaroid foi uma tremenda inovação quando apareceu no mercado.
Bastava apertar o botão e, um minuto depois, a foto estava pronta. Não precisava nem puxar manualmente – ela saia da máquina de modo automático.
Reza a lenda que Land teve o lampejo num dia ensolarado, à beira-mar, quando escutou a filha de três anos de idade reclamar que não conseguia ver as fotografias na hora em que elas tiradas (até então, ele tinha uma empresa que produzia plásticos para fabricação de lentes de óculos de aviadores e máscaras submarinas). O auge da marca foi nas décadas de 1950 e 1960.
Figuras icônicas como o artista visual Andy Warhol e o cantor David Bowie se apaixonaram pelo modelo e ajudaram a amplificar a notoriedade da Polaroid.
Andanças noturnas
Formada no curso de Realização Audiovisual, da Unisinos, Lucélis chegou a trabalhar como assistente de produção em curtas e longas-metragens, antes de fotografar à noite. Também atuou como garçonete em bares da Cidade Baixa.
— Como atendente, me sentia desvalorizada. Não adiantava me esforçar mais, porque isso não aumentava a remuneração, ainda que o faturamento da casa fosse cada vez maior.
Hoje, é dona de duas empresas, às quais se dedica durante o dia – a Lucélis Fotografia, que registra formaturas e aniversários, além de produzir ensaios femininos, e a Solar Filmes, especializada em casamentos.
Quando trabalha à noite, está quase sempre acompanhada do namorado, Leonardo Carvalho, estudante de Engenharia que largou o Uber para também fotografar a boemia.
— Eu me sinto mais segura quando ando com ele.
Com Leo, que aderiu ao trabalho de bater fotos da galera à noite (Foto: Cristiano Rangel)
A primeira vez que Lucélis bateu fotos instantâneas foi no desfile do Bloco da Laje, em janeiro de 2025, no Parque Marinha do Brasil.
Ela testou outras áreas da cidade, como 4º Distrito, Rio Branco e Moinhos de Vento, antes de concentrar seus esforços na Cidade Baixa, onde o público é mais descolado e eclético.
Mas a vida da guria da Polaroid não se limita às andanças noturnas.
Ela circula também em shows musicais e jogos de futebol (de preferência, no Beira-Rio, perto de onde mora). E, embora a Cidade Baixa seja o território predileto, já cruzou fronteiras para mostrar seu trabalho em outras capitais brasileiras.
Em maio do ano passado, por exemplo, fotografou os fãs da System of a Down, banda que realizava show no Autódromo de Interlagos. Naturalmente, aproveitou para conferir a noite paulistana, além de percorrer locais movimentados da cidade como o Vão Livre do Masp e o Beco do Batman, sempre com a máquina de fotografar à mão.
Em Curitiba, por sua vez, esteve no Largo da Ordem, núcleo boêmio da capital do Paraná. E, em outra ocasião, produziu fotos de banhistas emolduradas pelas belas praias de Florianópolis.
Não se sabe por quanto tempo ela continuará empunhando a plaquinha amarela e preta por aí. Com frequência, bate o cansaço de trabalhar de dia e à noite. Além disso, é preciso abrir mão de muitas coisas quando o rolê vira trampo.
— É divertido, mas não saio mais com a família e os amigos para me distrair. Às vezes, também queria estar bebendo uma cervejinha com a galera — destaca.
Mas, fiquem tranquilos: ainda vai demorar um tempinho até que a guria da Polaroid desapareça das ruas e travessas do bairro boêmio de Porto Alegre.
— Eu amo o meu trabalho e amo que as pessoas compartilham as suas histórias com as minhas fotos. Isso é o que mais me encanta na minha profissão — conclui ela.