Tatata Pimentel revive na Olavo
Figura cult e irreverente de Porto Alegre é homenageada em bar prestes a ser aberto na rua em que viveu boa parte da vida
Tatata: personagem carismático da história recente de Porto Alegre (Foto: Acervo Marcello Campos)
Um personagem carismático de uma Porto Alegre efervescente, que se pretendia plural, culta e irreverente – sobretudo, uma cidade aberta à cena contemporânea.
Assim era Tatata Pimentel, apresentador de televisão que se destacava pela inteligência afiada e o humor sarcástico (quem não se lembra do programa Gente da Noite, exibido nas madrugadas da extinta TV COM, a sua última aparição na telinha?).
Culto e debochado, pioneiro na afirmação da diversidade sexual, Roberto Valfredo Bicca Pimentel (seu nome de batismo) se desdobrava em múltiplos talentos. Foi ainda professor – dos bons – de literatura, francês e inglês, além de dono de galeria de arte e diretor do MARGS e do Atelier Livre.
Figura de destaque na história recente da cidade, Tatata foi também um personagem querido e admirado do bairro Santana, em especial na Rua Olavo Bilac, no quarteirão entre a Rua Ignácio Montanha e a Avenida João Pessoa, onde viveu boa parte da vida.
Por décadas, ele morou no apartamento que havia pertencido à sua mãe, dona Zaíra, no segundo andar do edifício Negrinho do Pastoreio, um daqueles prédios antigos que resistem ao tempo e se sobressaem pela simplicidade e a elegância, em meio à caótica e desbotada da paisagem urbana.
Foi, aliás, ali que faleceu, enquanto dormia o sono dos justos (vítima de um infarto do coração), aos 74 anos de idade, em 2012.
Agora, Tatata está de volta, em grande estilo, em seu próprio território, como homenageado do Café Bar Olavo, prestes a ser inaugurado pelo sobrinho-neto João Henrique Pimentel da Conceição, na esquina da Olavo Bilac com a Rua Ignácio Montanha.
Café Bar Olavo ocupará casa centenária numa esquina familiar para Tatata Pimentel (Foto: Rô Lopes)
Bicicleta na garagem
— Só tenho lembranças boas do Tatata, além de muita saudade e algum arrependimento por não ter convivido tanto como gostaria com ele. Poderia ter aprendido um pouco mais sobre a vida. Afinal, tudo o que, hoje em dia, a gente traz na palma da mão {com o celular} meu tio tinha guardado na cabeça — diz João Henrique, que montou o negócio junto com a esposa Daniella Selbach Pons,
Quando criança, João Henrique morava com os pais no bairro Teresópolis, na zona sul da cidade, e tinha o hábito de passar os fins de semana, junto com os primos, no apartamento da Olavo Bilac.
— Deixávamos as bicicletas na garagem do prédio do Tatata para sair pedalando até a Redenção. Nesta época, o tio levava a gente para jantar em restaurantes como Gato Pardo e Birra & Pasta. Outras vezes, cozinhava em casa para nós — relembra.
Hoje, João Henrique e Daniella (com a filha Madalena, de dois anos, e o cão Olavo, adotado uma década atrás) moram justamente no apartamento da Olavo Bilac,
Recordações de Tatata farão parte da decoração do café (Foto: Rô Lopes)
Lá, conservam parte do acervo de Tatata, a parcela que não foi doada à PUCRS, em 2014 (mais de 1.300 títulos e 1.482 volumes de obras raras, principalmente de literatura grega, francesa e latina, estão hoje disponíveis para consulta na Biblioteca Central Irmão José Otão).
— Quando chegamos, quase não dava para caminhar no apartamento de tantos livros espalhados pelo chão. Tivemos que alugar outra garagem no prédio para acomodar o material — conta o sobrinho-neto.
Algumas dessas recordações marcarão presença no Café Bar Olavo, como forma de homenagear e também preservar a memória de Tatata.
Além de livros, estarão expostos CDs, quadros e fotografias, bem como itens de mobiliário, como mesa de centro, estantes, abajures e lustres.
Não faltarão peças que remetem diretamente à trajetória de vida do comunicador, como um balde de gelo do Água na Boca, um dos tantos bares elegantes que ele frequentou ao longo da movimentada vida boêmia.
Sem falar nas lembranças da carreira de brilhante professor. Na parede do café, serão penduradas placas do Julinho (Colégio Júlio de Castilhos), onde Tatata deu aulas, incluindo a da “Sala dos Professôres” (da década de 1960, a julgar pela grafia com uso de acento circunflexo) e a do ginásio de esportes da escola.
Até um poema inacabado de Mario Quintana (que Tatata emoldurou) será integrado à decoração:
Rosa suntuosa e simples
Como podes estar tão vestida
E ao mesmo tempo inteiramente nua
Como era de se esperar, as homenagens se estenderão à carta de drinques, na qual Tatata dará nome ao Dry Martini, não por acaso, a sua bebida predileta.
Toque na tela ou clique nas imagens para ver detalhes do Bar Café Bar Olavo (fotos de Rô Lopes).
Por sinal, a casa centenária, onde João Henrique montou o bar, também faz parte da história da família.
Por mais de três décadas, ela abrigou o minimercado Lodi e Gabiatti, de Cláudio Lodi, do qual Tatata era freguês de carteirinha.
Tanto que as compras que fazia no estabelecimento eram anotadas no caderninho para pagar no fim do mês. “João, vai buscar cigarros lá no mercadinho. Aproveita e traz uma Fanta Uva. Ah, não esquece do guisadinho dos gatos”, pedia, com frequência.
Em dezembro do ano passado, João Henrique – que já é responsável pelo Doca (quiosque voltado para o público que pratica esportes na Orla do Guaíba, próximo à Rótula das Cuias) e por uma cafeteria Parque Harmonia – propôs a Cláudio a compra do ponto do minimercado.
A rigor, não tinha muita expectativa de que o dono do armazém fosse aceitar a oferta, mas ele topou.
João, Daniella, Madalena e Olavo no pátio interno (Foto: Rô Lopes)
— Vimos uma oportunidade de ocupar espaço numa região que fica a meio caminho entre a Cidade Baixa e o Bom Fim, dois bairros tradicionalmente boêmios da cidade — afirma João Henrique.
Assim que o negócio foi fechado, foi dado início à reforma da casa, ao mesmo tempo em que a Consultoria Elo Gastronomia era contratada para formatar o conceito do novo empreendimento.
Desde o começo, a ideia era conservar a identidade do imóvel secular e, ao mesmo tempo, adotar conceitos contemporâneos como o formato de bar aberto, sem balcão que separe os clientes das torneiras de cerveja artesanal.
Cabe ressaltar que, além do espaço interno, o bar ocupará também as calçadas da Olavo e da Ignácio Montanha, que foram restauradas com lajes de pedra rosada, um tipo de calçamento muito usado em décadas passadas.
Afora isso, o pátio interno da casa também será destinado para o atendimento ao público.
Resta dizer que, anexo ao bar café, como um negócio paralelo e conectado, estará aberta a loja da Bossa, marca de moda autoral de Daniella – que é figurinista da TV Guaíba Record.
Como o bairro Santana é bastante residencial, a intenção não é estender as atividades madrugada afora – o Café Bar Olavo vai funcionar até a meia-noite. Sábados e domingos, a abertura será às 11 da manhã e, de quarta a sexta-feira, a partir das 5 da tarde. A inauguração está prevista para o mês de abril.