Jekyll à solta

Após marcar época com o bar dr. jekyll, na cidade baixa, gêmeos transformam café em ponto de encontro no centro histórico e preparam nova incursão na cena noturna

 Os irmãos César (à esq.) e Paulo Audi, em frente ao Cine Café, na Casa de Cultura Mario Quintana: local de reunião de quem circula pela área central da capital gaúcha

Os irmãos César (à esq.) e Paulo Audi, em frente ao Cine Café, na Casa de Cultura Mario Quintana: local de reunião de quem circula pela área central da capital gaúcha

Não é ilusão de ótica. 

Os donos do Cine Café, abrigado na Travessa dos Cataventos – corredor de paralelepípedo que divide as duas alas do prédio da Casa de Cultura Mario Quintana, ligando a Rua da Praia à Sete de Setembro –, são os irmãos gêmeos César e Paulo Audi, de 56 anos.

Lá dentro do quiosque de 3,40 metros quadrados, ao lado da Cinemateca Paulo Amorim, mal cabem os gêmeos e a Lavazza, máquina de café de Torino, na Itália.

– Só o Gambrinus tem outra igual aqui no Centro, avisa César, como se mostrasse um certificado de qualidade.

No cardápio, além de cafés, opções como donuts, pastéis e empanadas castelhanas. O espaço fica aberto das dez da manhã até as nove horas da noite.

Antes de abrir o ponto na Casa de Cultura, os gêmeos ficaram conhecidos pela concepção de alguns dos mais emblemáticos bares noturnos de Porto Alegre das últimas décadas, especialmente o Dr. Jekyll, fundado em 1996 na Travessa do Carmo, junto ao Largo da Epatur.

O médico e o monstro

Na época, as danceterias da cidade investiam em espaços amplos para receber o maior contingente de pessoas que fosse possível e, assim, faturar mais. Em contraposição, Paulo e César alugaram uma casa de apenas 110 metros quadrados para montar um bar aconchegante no piso térreo com uma pista de dança no mezanino.

O nome do bar era inspirado no filme O Médico e o Monstro, clássico de horror dirigido por Victor Fleming em 1940, com Spencer Tracy, Ingrid Bergman e Lana Turner.

Na trama baseada no livro O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, publicado em 1886, um médico de bons modos – para demonstrar a teoria de que o bem e o mal coabitam o coração humano – inventa uma porção capaz de trazer à tona o lado demoníaco de cada pessoa.

Ao experimentar ele próprio a fórmula química, algo dá errado e o cientista perde o controle de sua personalidade oculta (Hyde é um trocadilho com o verbo hide, que significa esconder, ocultar).

O conceito da casa noturna dos Audi flertava com os paradigmas do conto de horror:

– O pessoal entrava de um jeito e saía de outro. A bebida alcoólica é também uma porção que faz brotar o lado oculto das pessoas, diz Paulo.

Mas, no caso do Dr. Jekyll da Cidade Baixa, as transformações eram para o lado do bem. As alterações de personalidade faziam, por exemplo, com que as distinções de raça, credo e status social ficassem do lado de fora.

– Não havia frescura em relação à roupa que a pessoa estava usando ou à classe social a que ela pertencia. Os clientes tiravam as máscaras quando entravam no bar, observa César.

Cientistas malucos à parte, o Dr. Jekyll era como se fosse “a sala estar de uma grande família”, compara Paulo, por causa da descontração e da simplicidade que predominavam no ambiente. A tal ponto que, com tanto Mr. Hyde à solta no salão, nunca houve uma briga lá dentro.

– Mais parecia um clube do que um bar. A turma tinha até caderninho para anotar as despesas e pagar no fim do mês, assinala César.

Como se não bastasse, o Dr. Jekyll talvez tenha sido o primeiro bar porto-alegrense com serviço de tele-entrega de passageiros embriagados.

Os clientes borrachos eram postos dentro de um dos táxis enfileirados na porta para que chegassem com segurança em casa. Os motoristas estavam orientados a esperar a pessoa cambalear até entrar no prédio. Só depois tomavam o rumo de volta para receber o dinheiro da corrida das mãos dos proprietários do Dr. Jekyll. Tudo na base da pura confiança.

O bar dos Audi inovou também ao instituir a Segunda Maluca para abrir a semana com shows de bandas alternativas em ascensão na época, como Cachorro Grande e Bidê ou Balde.

Igualmente, recebia nomes já consagrados do rock gaúcho, a exemplo de Júlio Reny, além de promover mostras de artes plásticas e peças de teatro, como um verdadeiro espaço cultural.

Já aos fins de semana se transformava numa agitada danceteria ao som de trilhas de pop e rock, principalmente dos anos 1970 e 1980.

– A fila na porta se estendia travessa afora e o som ia até 7 horas da manhã, relata César.

Clique nas fotografias abaixo para ver imagens internas do Dr. Jekyll (Fotos de Dreyfus Soler publicadas no site Oba Oba).

Cabo das Tormentas

Quando o Dr. Jekyll completou uma década, os irmãos decidiram encarar uma nova aventura, deixando o bar sob o comando do sócio Maurício Pinto, que tocaria o negócio até fechar as portas do estabelecimento em 2012.

Em 2007, os gêmeos abriram o Cabo Horn numa casarão de dois pavimentos na Rua da República, onde atualmente se localiza a danceteria Divina Comédia. Como sempre, não escolheram o nome por acaso. Cabo Horn é um local de mar agitado, com ondas bravas e ventos ruidosos que desafiam navegadores há cinco séculos, numa das coordenadas mais meridionais da América do Sul.

O ponto era auspicioso, mas um detalhe arquitetônico atrapalhou os planos.

– O estilo da casa noturna se altera conforme o formato da construção, depõe Paulo.

No caso do Cabo Horn, a separação entre bar e pista de dança se fazia por andares (térreo e primeiro piso, respectivamente). Ao contrário do ambiente acolhedor e integrado do Dr. Jekyll, havia pouca interação entre os recintos.

– Não conseguimos conectar os espaços. Com isso, o público se dividiu como se houvesse duas casas funcionando no mesmo lugar, acrescenta.

Pior: à medida que a madrugada avançava, a pista ficava lotada ao passo que o balcão e as mesas do andar térreo se esvaziavam. Para quem olhava da porta, a impressão era a de que a casa estava deserta. Em meio às dificuldades, o Cabo Horn durou dois anos.

– Deu grana, mas àquela altura estávamos um pouco cansados da noite. Além disso, o cenário da Cidade Baixa tinha mudado, anota Paulo, referindo-se à crise econômica e ao aumento da violência que impactaram o bairro boêmio.

Nem todo mundo sabe que, em paralelo à atuação no setor de bares e cafés, a dupla mantém atividades ligadas à cultura e às artes.

César é baterista profissional e se apresenta regularmente nos palcos da capital gaúcha com artistas de quase todos os estilos – do pop ao jazz, passando pelo rock e a MPB. Além disso, é professor de música.

 No tempo em que viviam em Munique: com o Raiz de Pedra, César (de caneca na mão) e Paulo ganharam o mundo (Foto/Acervo Pessoal dos irmãos Audi)

No tempo em que viviam em Munique: com o Raiz de Pedra, César (de caneca na mão) e Paulo ganharam o mundo (Foto/Acervo Pessoal dos irmãos Audi)

A carreira do baterista iniciou no inverno de 1977, quando soube que o tecladista Marcelo Nadruz (colega na escola Santos Dumont) estava formando a banda Raiz de Pedra, que viria a se tornar uma das mais representativas da música instrumental do RS, misturando som progressivo, experimentalismo e jazz contemporâneo.

Quem comprou a bateria Pinguim de segunda mão para que César fizesse parte do grupo foi Seu Arquimedes, pai dos Audi.

– Que sirva para que tenhas um futuro de sucesso, profetizou Seu Arquimedes, confiante nas baquetas do filho.

Aliás, os primeiros ensaios do Raiz de Pedra se deram na garagem da casa da família Audi, na Vila Assunção.

– Enlouquecíamos os vizinhos nos fins de semana, admite César, sem muito remorso.

Por sua vez, Paulo ganhou a vida durante um bom tempo como produtor musical, principalmente do Raiz de Pedra. É bom que se diga que, a princípio, ele também tocava bateria.

– Logo percebemos que uma banda com dois bateristas gêmeos não ia dar certo, reconhece o produtor.

De brincadeira, certa vez, decidiram confundir a plateia do Teatro da OSPA. Entre uma música e outra, Cesar saiu sorrateiramente do palco para dar lugar a Paulo na bateria. De repente, César voltou à cena e postou-se ao lado do irmão – de propósito, vestiam roupas iguais. 

O público ficou perplexo. Mas são dois! Ou é efeito especial?

Em 1988, músicos e produtor embarcaram num navio cargueiro abarrotado de aço e celulose em Rio Grande com destino à Antuérpia, na Bélgica. A viagem foi paga com a prestação de serviços de limpeza da embarcação, no melhor estilo gaiatos no navio, o que não chegou a incomodar a galera.

– Fazíamos churrasco em toneis no meio da ferrugem. Foi a primeira vez que bebi uma Heineken holandesa, recorda Paulo, saudoso.

A estadia fora de casa durou mais tempo do que o esperado. Como Júlio César, imperador que mandou incendiar as naus romanas logo após o desembarque das tropas na Bretanha, para que restasse como única opção a vitória na guerra, a banda se viu obrigada a criar raízes no continente europeu.

– Não tínhamos dinheiro para voltar, explica César.

Menos mal que não ficaram sem trabalho. Logo agendaram um show em Hamburgo, na Alemanha. Pouco tempo depois, realizaram outras 22 apresentações no circuito universitário alemão. O Velho Mundo se curvava diante do talento musical dos guris.

Com isso, entre 1988 e 1992 os gêmeos moraram em Munique. Alguns dos instrumentistas, como o baixista Ciro Trindade e o saxofonista Márcio Turbino, vivem até hoje na Alemanha.

 Audi ao quadrado: os gêmeos duplicados (Paulo de camisa azul) na Travessa dos Cataventos (Foto/Nilton Santolin)

Audi ao quadrado: os gêmeos duplicados (Paulo de camisa azul) na Travessa dos Cataventos (Foto/Nilton Santolin)

Acerto de contas

Quando decidiram retornar a Porto Alegre, os irmãos Audi experimentaram uma profunda e bem vivida “imersão” no circuito de boemia do Bom Fim, com ênfase no Elo Perdido, bar da Rua Garibaldi.

Só faltou registrar na Carteira de Trabalho – Profissão: boêmio. 

– Lá pelas tantas, já que estavámos nessa de noite, veio a ideia de montar um bar. Foi quando abrimos o Dr. Jekyll, registra Paulo.

Passado o período de envolvimento com empreendimentos notívagos, a dupla montou, em junho de 2017, o Cine Café na Travessa dos Cataventos.

Em parte devido à localização privilegiada, mas também em função do mundaréu de gente que os Audi conhecem, o Cine Café se transformou num concorrido ponto de encontro no Centro Histórico. Além de antigos frequentadores do Dr. Jekyll, que aparecem para trocar uma prosa entre goles de cafeína, recebe também a fauna urbana que se move diariamente pela área central da cidade. 

– Se puséssemos uma câmera, daria um curta-metragem incrível, garante Paulo.

Entre os personagens bizarros, que lembram filmes de David Lynch, talvez o mais singular seja o mendigo que pede um café bem forte, pago com papel picado que joga sobre o balcão como se fosse dinheiro vivo.

A turma de engravatados também bate ponto no Cine Café. Alguns chegam a pedir sugestões aos irmãos sobre negócios envolvendo terrenos, casas ou automóveis. Há quem exponha dramas pessoais. Afinal, os gêmeos estão sempre disponíveis para aconselhamentos.

– Quando a gente abre um negócio, não tem noção do que vai dar. Foi assim com o Jekyll e o Cabo Horn e está se repetindo com o café. Os personagens vão grudando como craca de navio {crustáceos que se agarram ao casco da embarcação}, expõe Paulo.

É verdade que, às vezes, o clima esquenta. Não faz muito, o Cachorrão – um conhecido da dupla dos velhos tempos – marcou encontro no café para resolver um desacordo. Chegou de mansinho, com uma pequena faca no bolso, e avisou que iria esperar a chegada do desafeto:

– Como é que tu marca um acerto de contas aqui no café?, inquiriu César.

– Pô, vocês são amigos de confiança. Se der alguma zebra, tenho certeza que irão me salvar, respondeu Cachorrão.

Ainda bem que o rival não apareceu.

Dr. Jekyll Lounge

Não podíamos encerrar essa reportagem ser dar uma notícia em primeira mão.

Talvez o Cine Café não dure muito tempo – os irmãos Audi estão pensando em retornar à ribalta de luzes artificiais!

– Fico arrepiado só de pensar em voltar a trabalhar na noite, confessa Paulo. Em seguida, acrescenta como se pensasse em voz alta: – A gente cansa, diz que não quer mais. Mas aí recupera o fôlego e, quando vê, já está pensando em novos projetos.

A ideia é abrir um bar num espaço pequeno com um cantinho reservado para a pista de dança.

– Na Alemanha, existem muitos lugares com esse perfil, diz César.

 Logo do bar, que deve voltar à cena noturna, agora em novo formato

Logo do bar, que deve voltar à cena noturna, agora em novo formato

Eles até adiantam o bairro em que deverá surgir o Dr. Jekyll Lounge – é o nome que está em pauta.

– Estamos atrás de endereço no Bom Fim. A Cidade Baixa anda meio poluída, informa Paulo.

O Dr. Jekyll Lounge já tem até data para entrar em operação: abril de 2019, se os planos não falharem. 

Se vai dar certo ou não, nunca se sabe. A experiência mostra que o êxito de uma casa noturna tem sempre algo de imponderável. 

– Às vezes, a pessoa investe uma baita grana e ninguém aparece. Aí outra abre uma espelunca e enche de gente. Na noite, por mais marketing e planejamento que se faça, o que determina o sucesso é uma certa magia, diz Paulo, um feiticeiro dos mais tarimbados. 

César confia na intuição do irmão:

– Tudo o que o Paulo inventa atrai as pessoas. E eu sou parceiro. Ele me puxa e vou junto. Quem sabe seja a nossa saideira na noite, antecipa.

Cá entre nós, tomara que não!