SOS CB

Cidade baixa, coração boêmio de porto alegre, é tema de encontro de imersão para mapear e buscar soluções de conflitos

 Foto: Reprodução da página do Hackatown no Facebook

Foto: Reprodução da página do Hackatown no Facebook

Decididamente, a palavra hack não goza de boa fama.

As primeiras imagens que vêm à mente quando se ouve a expressão nos levam a imaginar um invasor que chega de algum lugar desconhecido para quebrar o computador ou tirar dinheiro da conta bancária.

Só que, a bem da verdade, essa má reputação que a palavra ganhou no senso comum está carregada de desinformação. A rigor, hackear significa tão somente intervir e/ou interromper um sistema, atitude que – acredite – pode ter a pior ou a melhor das intenções.

Na segunda categoria se enquadra o Hackatown – literalmente, hackear uma cidade –, evento que cria espaço e oportunidade para que as comunidades locais discutam seus problemas e apontem soluções que, de preferência, possam ser fácil e rapidamente aplicadas, sem depender do aporte de grandes recursos ou da ajuda de governos.

– A comunidade em questão pode ser uma cidade, um bairro, uma universidade ou uma organização, explica Rafael Perez, o Rafinha, de 25 anos, fundador do Hackatown.

Já houve um Hackatown sobre os problemas do bairro Floresta, no Quarto Distrito, outro a respeito das dificuldades do município de Caxias do Sul e um terceiro circunscrito aos desafios do curso de Administração de Empresas, da UFRGS.

Nos dias 14, 15 e 16 de setembro, foi a vez do Hackatown da Cidade Baixa (ou CB, para os íntimos), o coração boêmio de Porto Alegre, localizado entre o Centro Histórico e o maior parque da cidade, a Redenção.

Palco de muitas festas e iniciativas culturais, a CB é também um bairro residencial e comercial, o que gera constantes conflitos e reclamações vindos de todas as partes envolvidas.

O evento foi realizado na Hype Studio Arquitetura, na Rua da República.

 Imagens da Travessa dos Venezianos, recanto histórico da CB, que fazem parte da instalação  A Rua Suspensa , de Fernanda Chemale

Imagens da Travessa dos Venezianos, recanto histórico da CB, que fazem parte da instalação A Rua Suspensa, de Fernanda Chemale

Formado em Administração de Empresas pela UFRGS, Rafael viajou em outubro do ano passado aos Estados Unidos graças à bolsa de intercâmbio profissional para jovens empreendedores latino-americanos do programa YLAI (Young Leaders of the America Initiative), criado pelo ex-presidente Barack Obama.

A ideia do Hackatown ganhou impulso durante longas e produtivas conversas com Eric Sloss, dono da agência de publicidade na qual Rafael cumpriu estágio em Pittsburgh, na Pensilvânia.

– O Eric é um cara apaixonado por intervenções urbanas. Ele fala muito sobre as dificuldades de superar o individualismo e buscar soluções em favor das comunidades.

De volta ao Brasil, Rafael decidiu colocar as ideias em prática com base no conceito do Design Thinking, ferramenta de ação criativa difundida desde os anos 1960 por especialistas como o economista e psicólogo americano Herbert Simon e o inglês Tim Brown, CEO da IDEO, empresa de design e consultoria com sede em Palo Alto, na Califórnia.

A premissa da metodologia é a de que precisamos antes entender o problema para só depois tentar solucioná-lo.

Desse modo, o Hackatown se estende por três dias de atividades. Nos dois primeiros, os participantes (no máximo 40, com prioridade de vagas para os integrantes da comunidade) se dedicam a mapear e identificar os problemas, tarefa que implica, muitas vezes, entrevistar os atores que fazem parte da coletividade.

Ao mesmo tempo, para se inspirar, o grupo assiste a palestras (entre oito e doze a cada encontro) para tomar conhecimento de situações similares ou aproximadas já vivenciadas em outras localidades com as soluções que, naquelas circunstâncias, foram apontadas. As palestras são promovidas presencialmente ou via skype.

Com as dificuldades diagnosticadas, a busca de soluções se concentra no último dia do encontro.

– O objetivo é apontar pequenas mudanças práticas que possam gerar impactos significativos no futuro, diz Rafael.

Na edição sobre o bairro Floresta, efetivada no espaço cultural Vila Flores, em junho deste ano, por exemplo, uma das sugestões apontadas foi a construção de uma horta sustentável, feita de cordas e garrafas pet, em prédios abandonados para povoar as áreas de pouca circulação e, com isso, aumentar a segurança dos locais.

Para chamar atenção sobre a falta de iluminação e segurança, foi sugerida uma caminhada de moradores com lanternas nas mãos, além de um varal com lâmpadas penduradas numa das principais vias do bairro, a Rua São Carlos.

 Rafael Perez, fundador do Hackatown (com as mãos levantadas), durante a edição sobre o bairro Floresta, no Vila Flores (Foto/Divulgação)

Rafael Perez, fundador do Hackatown (com as mãos levantadas), durante a edição sobre o bairro Floresta, no Vila Flores (Foto/Divulgação)

A edição com foco na CB representou uma motivação extra para Rafael.

– Sempre quis fazer o Hackatown na Cidade Baixa. É o lugar em que me criei e vivo até hoje, comenta ele.

Morador do primeiro andar de um prédio de apartamentos numa das esquinas mais agitadas do bairro, Rafael tem visão privilegiada dos conflitos que se estabelecem no bairro boêmio, especialmente com a chegada de frequentadores de outras regiões da cidade em busca de diversão, o que gera atritos com os moradores.

– A saída não é proibir que essa galera venha curtir o bairro. Mas precisamos encontrar uma forma de convivência que seja boa para todos, incluindo frequentadores, comerciantes e moradores, recomenda.

A intenção é transformar o Hackatown numa ONG ou num negócio social a partir de 2019. No momento, o evento é representado pela Point – Facilitação Criativa, empresa fundada por Rafael, que opera na área de treinamento corporativo.

Por enquanto, os organizadores do evento (além de Rafael, sua sócia na Point, Renata Rodeguiero, e a designer Fernanda Verdi). atuam como voluntários.

A edição da Cidade Baixa contou com a colaboração da Minha Porto Alegre, rede apartidária e independente em favor de um ambiente urbano mais inclusivo e sustentável, e da Lugares com Alma, incorporadora que se propõe a associar boa arquitetura, integração com a cidade e senso de comunidade.

Além disso, teve apoio de parceiros como Mercado Brasco, Charlie Brownie e Oaks Burritos, que garantiram a alimentação aos participantes, sem contar a Bonjour Estamparia, responsável pela distribuição de camisetas e ecobags.

O próximo Hackatown deverá ser realizado no Centro Histórico, em novembro.

– A Casa de Cultura Mario Quintana seria o local perfeito, um sonho para nós, projeta Rafael, que ainda não conseguiu bater o martelo sobre a questão.

Seja como for, será mais uma iniciativa em busca de soluções sustentáveis, eficazes e de fácil aplicação, para transformar Porto Alegre num lugar mais saudável e prazeroso de se viver.