Rua da Praia, mon amour

“A rua é um local de passagem, sem dúvida, mas também de encontro e de troca. É um espaço de prazer e uma vitrine imensa e viva, que se contrapõe aos objetos imóveis das vitrines das lojas.” Sandra Pesavento, em O Espetáculo da Rua (Editora da Universidade/UFRGS, 1992).

Entardecer na Rua da Praia, na década de 1960: fresta entre o passado e o presente (Leo Guerreiro e Pedro Flores/Acervo do Museu de Porto Alegre)

Entardecer na Rua da Praia, na década de 1960: fresta entre o passado e o presente (Leo Guerreiro e Pedro Flores/Acervo do Museu de Porto Alegre)

A Rua da Praia não é só a mais antiga de Porto Alegre.

Por muito tempo, ela representou o coração comercial da capital gaúcha, símbolo de uma belle époque vivenciada ao Sul do Brasil com glamour e elegância.

A princípio, estendia-se da ponta da península até a Rua do Ouvidor, atual General Câmara. Dali em diante tinha o bonito nome de Rua da Graça.

A denominação atual, Rua dos Andradas, foi dada pela Câmara Municipal em 1865 em comemoração aos 40 anos da Independência do Brasil – homenagem a José Bonifácio Andrada e Silva, o patriarca da emancipação de Portugal, e seus irmãos Martim Francisco e Antônio Carlos.

Território aristocrático no qual se instalaram comerciantes, autoridades e famílias endinheiradas, não surpreende que tenha sido uma das primeiras vias a receber melhorias urbanas, tais como calçamento, chafariz para abastecimento de água, limpeza, policiamento, coleta de lixo e iluminação de candeeiro a óleo de peixe.

Hoje, ao longo de seu percurso estão localizados pontos de referência da cidade, como Igreja das Dores, Casa de Cultura Mario Quintana, Museu Hipólito da Costa, Centro Cultural CEEE e Galerias Chaves e Malcon, sem falar na Praça da Alfândega e na Esquina Democrática, o que não é novidade:

– Desde a chegada dos açorianos, tudo acontecia em volta da Rua da Praia, observa Rafael Guimaraens, autor de Rua da Praia – Um Passeio no Tempo (Libretos, 2010).

Veja abaixo imagens históricas da Andradas – na sequência: esquina com Vigário José Inácio na década 1890; Largo dos Medeiros (esquina com General Câmara) nos anos 1920; e novamente Largo dos Medeiros, desta vez visto do ângulo da Praça da Alfândega na década de 1930 (Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo/Autoria desconhecida).

SANTUÁRIO DO CONSUMO

A tradição da Andradas como eixo comercial da cidade remete a lojas bem antigas, como o Palacete Oriental, reduto de tecidos importados de Paris, erguido em 1912 entre as ruas João Manoel e Caldas Júnior.

O comércio local ganhou impulso de verdade a partir da década de 1930, quando Porto Alegre ingressou de vez na rota da sociedade de consumo. Foi quando os letreiros coloridos nas fachadas das lojas passaram a refletir o incremento das vendas de eletrodomésticos, tecidos, joias e perfumes, no embalo dos reclames publicitários que soavam em emissoras de rádio como Farroupilha, Gaúcha e Difusora.

Na época, havia uma euforia no RS com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, conjugada ao reaquecimento do mercado interno do País após o baque da crise de 1929. Ademais, a logística de desembarque de produtos importados tinha agregado rapidez e eficiência com a evolução comercial da aviação.

– Tudo isso gerou uma onda de desenvolvimento num momento em que o RS se consolidava como um polo industrial, anota Rafael Guimaraens.

Vitrines da Lyra, ponto de glamour e refinamento (Autoria desconhecida)

Vitrines da Lyra, ponto de glamour e refinamento (Autoria desconhecida)

O período assinala também o florescimento de lojas que, abertas algum tempo antes, consolidaram suas posições na principal rua da capital gaúcha para reinar com imponência nas décadas seguintes.

Um exemplo é a Casa Lyra, fundada em 1924. Conta-se que a fragrância das marcas importadas de perfumes e cosméticos da Lyra invadia a calçada, no quarteirão entre Marechal Floriano e Vigário José Inácio, a ponto de inebriar os transeuntes.

Já a Casa Louro – criada em 1922, na esquina com a Borges de Medeiros – ajudou a modernizar o vestuário feminino, galgando diferentes estilos e recortes da moda que se sucederiam ao longo de meia dúzia de décadas.

Outra loja que despertava sedução era o Krahe (usava-se o pronome masculino, quando não se antepunha loja ou casa), com roupas, chapéus e tecidos que acentuavam a fina elegância das mulheres porto-alegrenses.

O Krahe – situado próximo à Lyra – se destacou ainda por instalar de forma pioneira um “barzinho” em seu interior. A ideia foi trazida de Nova York pelo proprietário João Geraldo Krahe após conhecer a Macy’s ao final dos anos 1940. Na viagem, aliás, ele também decidiu dar ao Krahe feições de uma loja de departamento.

Já que estamos citando magazines famosos, a Casa Sloper é mais um estabelecimento que conquistou lugar privilegiado na memória da cidade.

Instalada desde 1938 no edifício projetado pelo espanhol Fernando Corona, entre a Rua Uruguai e a Borges de Medeiros, oferecia roupas femininas, masculinas e infantis, produtos de beleza, perfumaria e artigos de cama e mesa, além de brinquedos, cristais e objetos de decoração.

Barzinho do Krahe (Foto/Site Porto Alegre Personagens)

Barzinho do Krahe (Foto/Site Porto Alegre Personagens)

Lá dentro, balconistas recebiam a clientela em uniformes e penteados impecáveis. Na seção de maquiagem, as mulheres sentavam-se diante de espelhos para que as atendentes criassem cores personalizadas de pó de arroz alinhadas à cútis de cada uma delas.

Ah, dava gosto fazer parte daquele cenário.

Não à toa, trabalhar na Sloper era o sonho de um punhado de moças que passava em frente à loja, como meio de se integrar àquele santuário do consumo.

Não dá para esquecer a Casa Masson, criada em 1871 pelo relojoeiro gaúcho Reynaldo Geyer e o joalheiro carioca Leopoldo Masson.

Quando ficou sozinho no negócio, Geyer encarou longas viagens de navio até a Europa para preencher as vitrines da loja situada na esquina com a Rua Marechal Floriano com artigos de luxo, como joias, óculos elegantes, cálices de cristal e pratarias.

Empresário inovador, Geyer passou a conceder gratificação natalina aos funcionários a partir de 1941, 21 anos antes da instituição oficial do 13º salário no Brasil. Contraditoriamente, adotava procedimentos conservadores como demitir colaboradoras que decidiam se casar, alegando que a partir daí o sustento delas teria que ser responsabilidade dos futuros esposos!

Além de lojas, a Rua da Praia concentrava cinemas, bares, cafés e confeitarias, que estimulavam a prática do footing – o hábito consistia em transformar as calçadas em passarelas para que a pessoa pudesse apreciar o movimento e ser vista pela olhar curioso dos transeuntes.

Conforme Rafael Guimaraens, o footing nasceu e se tornou uma instituição da Rua da Praia a partir do momento em que a cidade ganhou “ares e estabelecimentos sofisticados”, atingindo o auge entre as décadas de 1930 e 1950.

– A Revista do Globo dedicava, a cada edição, pelo menos duas páginas para estampar fotografias com as madames desfilando, relata o escritor, referindo-se à publicação quinzenal que marcou época em Porto Alegre entre 1929 e 1967.

A revista pertencia à Editora Globo, de propriedade da família Bertaso, dona também da Livraria do Globo, ponto de encontro e convívio de jornalistas, poetas e romancistas – entre eles, Mario Quintana e Erico Verissimo, colaboradores da empresa – a poucos passos da Borges de Medeiros, junto à Galeria Chaves.

A concentração de intelectuais na porta da Globo dava continuidade a uma tradição que teve início em 1870, quando surgiu a Livraria Americana, a primeira da capital gaúcha, na esquina da Rua da Praia com a General Câmara.

A Livraria Americana era um ponto convergente de literatos, magistrados, advogados e estudantes, que não iam lá só para comprar e encomendar livros, mas também para trocar dois dedos de prosa “leve e fugitiva”, como assinala o cronista Achylles Porto Alegre, em Noutros Tempos (Livraria do Globo, 1922).

Livraria Americana, aberta em 1870 na esquina da Rua da Praia com a Ladeira (Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo/Autoria desconhecida)

Livraria Americana, aberta em 1870 na esquina da Rua da Praia com a Ladeira (Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo/Autoria desconhecida)

ESCADA DE MÁRMORE

Por falar em pioneirismo, a Rua da Praia abrigou também a primeira confeitaria da cidade – a Schramm, fundada em 1863 pelos primos Paulo Amando e Frederico Ernesto Schramm.

– É mais antiga que a Colombo, do Rio de Janeiro, orgulha-se Bruno Waldemar, de 72 anos, neto do fundador Paulo Amando e representante da última geração da família a gerir o empreendimento (de fato, a Confeitaria Colombo, símbolo de uma época de esplendor do Rio de Janeiro, surgiu mais de 30 anos depois, em 1894).

A Confeitaria Schramm ocupava um casarão de dois andares com porão na Andradas nº 1614, nas proximidades do local onde hoje está a porta de entrada da loja C&A.

Nos anos 1940 e 1950, as colegiais do Sévigné desciam até a Rua da Praia para saborear as empadinhas de galinha e camarão da Schramm. Atrás delas, vinham rapazes que se apoiavam no corrimão da escada de mármore para propor o flerte.

Um cartaz afixado na parede anunciava a promoção de doces: “Coma cinco e pague dois”. O desafio dos guris era ludibriar o proprietário para apanhar uma quantidade maior de guloseimas.

Não era preciso muito esforço. O senhor esguio de terno e gravata borboleta – Bruno Schramm, pai de Bruno Waldemar – fingia que não via. Mesmo porque a caixa registradora não parava de tilintar e a casa ainda fornecia doces para outras confeitarias da Andradas. Na época de Natal, chegavam a sair 800 mil tortas num só dia.

O segredo da Schramm estava nos ingredientes. Os ovos vinham da “colônia” (interior do RS) e a manteiga era importada da Argentina. As delícias viciaram até o Comendador Guglielmo Barbarasi, cônsul da Itália em Porto Alegre ao final da década de 1930. Ao deixar o cargo, o diplomata fez questão de que fosse enviada com regularidade uma leva de doces feitos na Rua da Praia para sua residência, em Roma.

Para ser justo, os salgadinhos igualmente davam água na boca. No auge, a confeitaria produzia três fornadas diárias de empadinhas – cada uma delas com 250 unidades. Em 40 minutos, acabava tudo, afiança Bruno Waldemar.

Na década de 1960, a confeitaria já não vendia tanto quanto antes. Bruno Schramm percebeu, então, que a música jovem tomava conta do planeta e achou por bem locar um dos cantos da casa para a loja Star Discos

Como se atraída por imã, a rapaziada que ameaçava deixar crescer as melenas começou a se aglomerar em frente ao velho casarão da Schramm. Um dos jovens ali presentes, Claudinho Pereira, que mais adiante iria se tornar um dos DJs mais requisitados da capital gaúcha, recorda como se fosse ontem:

– Sim, havia caixas de som tocando em alto-volume e a turma ficava dançando na calçada. A seguir, ele franze a testa, puxando pela memória: – Ali em frente, escutei pela primeira vez na vida um disco dos Beatles, conta o autor de Na Ponta da Agulha: Embalos na Noite de Porto Alegre (Editora da Cidade, 2012), sem ter certeza se aquele era o “álbum branco”, como ficou conhecido o LP lançado em 1968, ou o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, do ano anterior.

O certo é que, após a Confeitaria Schramm encerrar suas atividades em 1968, o point dos magrinhos se deslocou em direção à Galeria Malcon, onde um desfile de calças bocas de sino emoldurava novas casas de discos e butiques especializadas no público jovem.

Um dos principais atrativos da Malcon eram as calças e jaquetas de jeans americanas – ainda não havia fabricantes nacionais, o que transformava os modelos importados dos EUA em bens preciosos. As da marca Levi’s estavam à venda na Gang e as da Lee, na Saco & Cuecão.

Profana, loja de moda feminina na Galeria Chaves (Foto/Isadora Hernandez)

Profana, loja de moda feminina na Galeria Chaves (Foto/Isadora Hernandez)

Essa riquíssima tradição da Rua da Praia como polo do comércio de Porto Alegre inspira os lojistas atuais.

– Eu vivi um tempo em que este era um lugar de passeio. Quando fazia calor, as mulheres andavam com sombrinhas para se proteger do sol e os homens não abriam mão de usar chapéus. Dá bastante saudade, diz Helena Maria Nogueira, dona da Confeitaria Princesa, na subidinha da Rua da Praia.

A Confeitaria Princesa é famosa desde 1960 especialmente por conta do cachorro-quente e das empadas de camarão, ambos produzidos com ingredientes caseiros e merecedores de vários prêmios na área de gastronomia. Entre os pontos comerciais mais longevos da Rua da Praia, figura ao lado da Óptica Foernges, de portas abertas desde 1895, e a camisaria Aliança, de 1923.

– Eu me sinto orgulhosa de ter uma loja na Rua da Praia, diz Simone Moro, da Profana, marca de roupas e acessórios femininos instalada na Galeria Chaves (possui também ponto de vendas na Rua Lima e Silva, na Cidade Baixa). Em seguida, ela complementa: – É um lugar carregado de histórias e ainda hoje uma referência da cidade.

Brevê de piloto

Antigos frequentadores também se comovem com as recordações da Rua da Praia, caso do jornalista Fernando Albrecht, blogueiro e colunista do Jornal do Comércio.

Antes de se mudar para a capital do Estado em 1961, aos 18 anos, Albrecht ganhava a vida como funcionário do Banco da Província em Montenegro, no Vale do Caí. Como tinha brevê para pilotar aviões de pequeno porte, o jovem bancário aproveitava o tempo extra de luz solar no horário de verão para voar até Porto Alegre ao final do expediente.

O Paulistinha (monomotor fabricado pela Companhia Aeronáutica Paulista) descia junto à Base Aérea de Canoas, onde o rapaz pegava o ônibus da Canoense a tempo de aproveitar os atrativos do início da noite na capital.

– O que se fazia? A primeira coisa era ir para a Rua da Praia, relata ele.

O pit stop de entrada se fazia no bar Oásis, na subida da Andradas a caminho da Praça Dom Feliciano.

– Pelo que me lembro, o Oásis foi o primeiro bar em que se podia telefonar para o cliente, chamando pelo nome. O garçom levava o aparelho até a mesa para a pessoa atender, diz Albrecht. A seguir, assinala com nostalgia: – Era uma época em que a gente tinha orgulho de dizer que morava em Porto Alegre.

Clique nas fotos abaixo para ver imagens atuais da Rua da Praia – na sequência, fotos de Joel Vargas (Banco de Imagens/PMPA) e Ricardo Stricher.

Hoje, passam pela Rua da Praia cerca de 200 mil pessoas todos os dias, movimento que se expande na época natalina. Há quem atribua o declínio da Andradas ao calçadão construído em meados dos anos 1970, que restringiu a circulação de automóveis no Centro Histórico.

– Os mais antigos dizem isso convicção, levando em conta a ideia de conforto que o carro proporciona. Já eu não tenho tanta certeza, observa Rafael Guimaraens.

O escritor encontra motivos para a transformação da Rua da Praia no crescimento da população e na expansão geográfica da cidade, fatores que geraram um processo de descentralização comercial.

– Surgiu um comércio mais diversificado, fora do eixo central de Porto Alegre, anota Rafael.

Em paralelo, a demolição de prédios antigos e o estilo de vida atribulado dos dias atuais contribuíram para apagar o glamour da Rua da Praia.

– Isso fez com que se perdesse o encanto que havia antes. As pessoas estão passeando menos e correndo mais de um lado para o outro. A compra se faz com pressa, complementa ele. 

Apesar de tudo, Simone Moro, da Profana, é otimista. Ela recorda de ainda menina comprar em pontos tradicionais de moda feminina como a Krás ou em butiques mais sofisticadas a exemplo do Butikão. Desde que abriu a loja na Galeria Chaves, não só resgatou essas lembranças afetivas como descobriu novos atrativos na região central da cidade.

– Quem vem ao Centro está sempre se surpreendendo com coisas legais que estão rolando, como shows musicais, saraus, peças de teatro, além de novos restaurantes ou cervejarias. Vale a pena conferir, conclui a dona da Profana.