A arte da moda

modelos e cores que escapam do lugar comum e apoio à cultura e às boas causas inspiram o modo de ser da Profana

 Fachada da loja da Profana na Rua Lima e Silva, na Cidade Baixa: ambiente aconchegante e cores vivas nas vitrines (Fotos/Divulgação)

Fachada da loja da Profana na Rua Lima e Silva, na Cidade Baixa: ambiente aconchegante e cores vivas nas vitrines (Fotos/Divulgação)

A roupa ideal é a que faz a pessoa feliz.

Em síntese, a frase define a Profana, marca de moda feminina criada em Porto Alegre em 1996, atualmente com confecção própria e duas lojas instaladas em pontos centrais da capital gaúcha – na Rua Lima e Silva, na Cidade Baixa, e na Galeria Chaves, no Centro Histórico.

A ideia é que a roupa seja parte indissociável da personalidade de quem a veste. Em outras palavras, a escolha de vestidos, saias, casacos e calçados exprime valores, sentimentos e desejos.

Não por outra razão, o que move a marca é a busca por um modo de vestir que escape do lugar comum.

É quase impossível, por exemplo, encontrar peças pretas ou até mesmo cinzas nas araras, cabides e vitrines. As cores vibrantes, especialmente em tons avermelhados, se constituem num dos elementos que diferenciam com nitidez a marca Profana.

Em primeiro lugar, a opção por cores vivas tem a ver com a intuição e o gosto pessoal da dona da loja:

– Sem querer ou não, eu só consigo vender aquilo que gosto. Ainda que a roupa não seja exatamente a que eu própria usaria, está bem perto disso, diz Simone Moro, proprietária da marca Profana.

 Simone Moro, da Profana: "A roupa expressa o que a pessoa está sentindo" 

Simone Moro, da Profana: "A roupa expressa o que a pessoa está sentindo" 

De certa forma, essa disposição de imprimir o estilo pessoal na etiqueta está na origem da Profana. Antes de abrir o negócio, Simone com frequência tinha dificuldades de encontrar estampas e modelos que se adequassem aos seus padrões estéticos preferidos.

– Olhando para trás, percebo hoje que a Profana veio um pouco para suprir essa demanda particular, admite ela.

De outra parte, a predileção por estampas de cores expressivas é também um posicionamento da marca – simboliza luz, calor e energia diante das dificuldades e percalços inevitáveis da vida.

– Vestir é um estado de espírito. Expressa o que a pessoa está sentindo. Então, usar roupas coloridas é um modo de buscar a felicidade que está dentro da gente, explica Simone.

Certamente, a cor não é um aspecto isolado. No ambiente das lojas, está emoldurada por elementos que a complementam com graça e harmonia.

Um deles é o som que se escuta no alto-falante. As canções ecoam sem atordoar, mas num volume que não as deixa passar em branco.

Outro componente indispensável é a temperatura agradável assegurada pelo ar condicionado sempre ligado. Há também um aroma delicado e aprazível que se espalha no ar.

Tudo isso compõe um quadro sensorial que identifica a marca Profana.

– Faço questão de que a Profana seja um lugar que ajude a recarregar as energias. A ideia é que as pessoas se sintam felizes e à vontade como se estivessem em casa, salienta Simone.

Esse conceito é facilmente percebido por quem coloca os pés dentro das lojas, como atesta a atriz Luciane Panisson, do Coletivo Das Flor.

– Eu me sinto acolhida. Acredito que, ao longo do tempo, tenha se criado uma identidade entre o público e o modo de ser da Profana, diz ela. A seguir, complementa: – Sou fã há bastante tempo e não é só por causa da qualidade dos produtos. Além de me sentir bem na loja, gosto do atendimento da equipe, que deixa a pessoa olhar e decidir com calma se vai provar ou não a peça e, mais adiante, comprá-la.

Não é de admirar que esse ambiente de bem-estar e aconchego esteja em conformidade com o perfil das roupas que estão à venda. Afinal de contas, a marca preconiza que devemos vestir, basicamente, o que nos dá prazer e conforto. 

Atualmente, cerca de 30% dos itens comercializados se originam de produção própria da Profana.

Clique abaixo para ver imagens da oficina de confecção da Profana (Fotos/Divulgação).

Diálogo com a cultura

O estúdio de confecção ocupa parte do segundo andar da casa que abriga a loja da Rua Lima e Silva, na Cidade Baixa. Ali, a peça é desenhada, cortada e modelada com carinho e inspiração por Simone e a designer de moda Roseana Matos.

– O que chama atenção é que as figuras estampadas praticamente não se repetem, diz Laís Bonder, responsável há dois anos pela sublimação (procedimento de impressão das estampas nos tecidos). 

Além disso, Laís destaca a criatividade da metodologia usada para adequar as imagens figurativas:

– Não é só pegar o desenho e aplicar no tecido. Existe um trabalho de recriação que confere originalidade às roupas.

O processo de produção é arrematado por costureiras que, embora não sejam exclusivas, preservam vínculos estreitos com a marca, ajustando-se naturalmente aos parâmetros de qualidade da confecção. 

As roupas garimpadas junto a fornecedores obedecem a critérios semelhantes. Ainda que não se possa afirmar que são peças únicas, é quase como se fossem. Afinal, a aquisição atende à estratégia de volumes reduzidos para cada modelo.

As cores intensas e os modelos quase personalizados não são os únicos atributos que caracterizam a marca. Não à toa, a Profana se define como moda e tendência.

– Além de prazer e conforto, ao vestir as roupas da Profana, a pessoa precisa sentir que está em sintonia com o mundo em que vive, sugere Simone.

Na realidade, a Profana não é só uma marca vinculada à moda. É um espaço de referência, que dialoga com a arte e a cultura da cidade. Frequentemente, promove eventos culturais.

É o caso do concerto que a violinista Iris Fritzen Andrade, da Orquestra Unisinos Anchieta, realizou especialmente para as clientes da loja da Galeria Chaves, em março deste ano. Já em agosto, a loja da CB foi palco de um pocket show de voz e violão da cantora Mariana Correia.

No Sarau da Profana, há pouco mais de um mês, poemas de Mario Quintana ficaram pendurados em varais em ambos os pontos comerciais para que o público escolhesse qual deveria ser lido em voz alta pela atriz Carmen Henke.

Mais recentemente, num sábado à tarde, as clientes da loja da Rua Lima e Silva foram convidadas a participar da Tela Colaborativa – de posse de lápis e pinceis, produziram desenhos e pinturas sob a coordenação da artista visual Fernanda Forell.

 Oficina de desenho e pintura numa das lojas da Profana: espaço de diálogo com a arte e a cultura da cidade 

Oficina de desenho e pintura numa das lojas da Profana: espaço de diálogo com a arte e a cultura da cidade 

Essa aproximação com as artes não é casual.

Não bastasse o conceito de inspiração, que a moda compartilha com o ofício dos artistas, existe a convicção de que a roupa por si própria é também uma forma de arte, especialmente quando se afasta dos padrões da indústria têxtil.

– Pode até parecer um pouquinho pretensioso de minha parte, mas enxergo uma afinidade entre o mundo das artes e as roupas que vendemos, talvez porque a gente coloque emoção naquilo que faz, assinala Simone.

Instigada a detalhar a reflexão, ela acrescenta: 

– A arte é o que nos faz pensar num mundo tão colorido quanto as roupas da Profana e a acreditar que esse mundo é necessário e possível. A poesia, a música, o teatro, as artes plásticas, todas essas criações, de uma forma ou de outra, inspiram o que fazemos e buscamos.

Por essa razão, a Profana também traz constantemente dicas de filmes, livros, peças de teatro etc. em suas redes sociais, como forma de se aproximar e estabelecer conexões com o público.

Essa relação de cumplicidade se fortalece ainda mais com fatores como o perfil de comércio que a marca espelha, como ressalta a atriz Luciane Panisson:

– Gosto da ideia de acessar uma loja pela calçada, sem precisar entrar num shopping center. No caso da Profana, tem uma no coração do bairro em que vivo e outra dentro de uma das galerias mais belas da cidade.

Outro detalhe que salta aos olhos é a escolha de temas relacionados à cultura e a questões de comportamento para estampar as roupas da Profana.

A temática feminista, em especial, ganha destaque com mulheres que simbolizam a busca pela igualdade de gênero ou simplesmente marcam com intensidade a presença feminina no mundo contemporâneo – casos da pintora Frida Kahlo, da atriz Marilyn Monroe e das cantoras Rita Lee, Janis Joplin e Amy Winehouse.

– Desejamos que a loja e a marca representem um mundo de pura inspiração e originalidade, admirado e desejado pelas mulheres, justifica Simone.

Clique nas imagens abaixo para conferir algumas das mulheres retratadas nas estampas da Profana.

Causas do bem

Paralelamente, a Profana se mobiliza em prol de causas do bem, como consumo consciente e moda sustentável. Neste sentido, uma das ações é a Arara Colaborativa, espaço de compartilhamento de roupas usadas montado dentro das lojas.

Nessas ocasiões, as clientes são convidadas a se desfazerem de roupas em boas condições de uso que, por um motivo ou outro, não usam mais. Em contrapartida, podem tomar para si peças depositadas por outras consumidoras na Arara Colaborativa. Ao mesmo tempo, recebem caneta e papel para que possam registrar as histórias de vida relacionadas às peças que estão trocando de mãos. 

– Gosto de pensar que a roupa carrega consigo uma emoção e um significado para cada pessoa, diz Simone.

Outro tema pelo qual a marca deposita apreço é a liberdade de afetos e a diversidade sexual.

No Dia dos Namorados, por exemplo, a Profana se manifesta pelas redes sociais em favor de todas as formas de amor, sejam elas protagonizadas por casais heterossexuais ou homossexuais.

– Não é que se queira fazer a cabeça das pessoas, e sim ajudar de algum modo a despertar algo dentro delas, diz Simone. Pensativa, ela agrega mais uma observação: – A preferência pelas cores vivas talvez tenha um pouco a ver isso, à medida que é também um modo de destacar valores e sentimentos que consideramos importantes para o mundo e, em particular, para as mulheres.

A aposta numa moda mais colorida e de espírito aberto não se restringe a um perfil pré-determinado de consumidora, no que diz respeito a estrato social, convicções ideológicas ou mesmo faixa etária, adverte Simone.

– Algumas clientes, a princípio, mostram certa resistência para se vestir de maneira mais alegre. Então, a gente sugere uma roupa aqui, outra ali, até que elas aos poucos começam a descobrir que, sim, podem ser diferentes do padrão estabelecido.

Um exemplo de fidelidade à moda Profana é o de Léa Calero, de 82 anos:

– Sou freguesa há muitos anos. O estilo das roupas da Profana é de muito bom gosto e se usa em qualquer idade. É muito raro eu comprar em outra loja, diz Léa. A seguir, acrescenta: – Além do conhecimento que têm de moda, a Simone e as meninas que trabalham com ela sabem o que cai bem ou não na pessoa.

Neste diálogo permanente com suas clientes, a Profana também aborda temas esotéricos, como as características de cada signo do zodíaco, o que mostra abertura para uma simbologia na qual predominam a emoção e a sensibilidade. As nativas de cada signo solar se beneficiam de descontos de 10% nas compras feitas no mês de aniversário.

– No início, quando começamos a falar das características dos signos do zodíaco, era só uma brincadeira, diz a leonina que comanda a Profana. – Com o passar do tempo, acrescenta ela, percebemos que as pessoas se identificavam com as postagens. Não é para menos, afinal, os astros estão aí, não dá para negar, conclui Simone, com um sorriso enigmático.