Casa de mulheres

A nuwa é um clube de negócios fundado para ampliar o potencial feminino no mercado de trabalho e no mundo corporativo

 Único coworking 100% feminino do País, a Nuwa desenvolve atividades que estimulam a ampliação do espaço das mulheres no campo profissional (Foto/Cristiano Bauce)

Único coworking 100% feminino do País, a Nuwa desenvolve atividades que estimulam a ampliação do espaço das mulheres no campo profissional (Foto/Cristiano Bauce)

Na mitologia chinesa, Nuwa é a deusa que organizou o caos para dar origem à humanidade.

Inspirada na divindade representada por uma figura com cabeça de mulher e corpo de serpente, a Nuwa – espaço aberto em julho, em Porto Alegre – se constitui no único coworking 100% feminino do Brasil, mas não é só isso. Local de compartilhamento de atividades de trabalho e estudo, é também um clube de negócios fundado para ampliar o potencial das mulheres no mercado de trabalho e no mundo corporativo.

As sócias da Nuwa são duas publicitárias que, além da formação profissional, dividem também o nome. Gabriela Teló e Gabriela Stragliotto se conheceram quando estudavam na ESPM, recém-chegadas do interior do RS (respectivamente, de Santa Rosa e Caxias do Sul).

Na capital do Estado, perceberam que as dificuldades para a afirmação feminina no empreendedorismo não têm a ver com a geografia. Na realidade, estão relacionadas a uma herança cultural.

Segundo Gabriela Teló, as meninas geralmente não costumam receber incentivos para lidar com as finanças na maior parte das famílias. Não é de admirar que, quando chegam à vida adulta, muitas mulheres caiam no buraco negro da dependência de uma figura masculina, seja marido, pai ou irmão.

– Como tudo na vida, quem não aprende desde cedo enfrenta maiores obstáculos. É como iniciar o aprendizado de um idioma aos 40 anos. Fica mais difícil, observa ela. 

Anjo da guarda

Preocupada com as questões de gênero na economia criativa, Gabriela Teló já havia trazido para Porto Alegre o Ladies, Wine & Design, movimento idealizado pela designer e ilustradora Jessica Walsh em Nova York, que se espalhou por 130 cidades no planeta. A rigor, são encontros de mulheres para conversar sobre suas carreiras profissionais, regados a um bom vinho. Em parceria com a designer Paula Langie, Gabriela promoveu seis reuniões (uma por mês) na capital gaúcha, a partir de outubro de 2017.

A experiência ampliou ainda mais a vontade de criar um espaço para potencializar a ação das mulheres nos negócios.

Gabriela procurou durante seis meses um imóvel para alugar, mas só chegou a visitar um – o casarão da Rua Augusto Pestana, 153, no bairro Santana, construído nos anos 1950 como residência da família Springer, proprietária da empresa que lançou, em 1958, o primeiro aparelho de ar-condicionado da América Latina.

– Um anjo da guarda sussurrou no meu ouvido: “A casa é bonita, tem uma história linda, nela você se sente bem. Por que não fica com ela?”, conta Gabriela, que seguiu a intuição.

 A cada mês, a Nuwa escolhe um tema a ser desenvolvido em encontros, palestras e grupos de estudo (Foto/Gelatina Filmes)

A cada mês, a Nuwa escolhe um tema a ser desenvolvido em encontros, palestras e grupos de estudo (Foto/Gelatina Filmes)

Inteiramente reformado, o casarão dispõe de conforto e tecnologia para alojar diferentes demandas profissionais. Além de mulheres já atuantes no mercado, seja como autônomas ou funcionárias de empresas, a Nuwa recebe também estudantes que estão elaborando teses, dissertações ou TCCs.

No total, são sete salas de trabalho, além de copa e cozinha. Uma cadeira de balanço que pende do teto expõe o clima de relaxamento do ambiente.

– É quase um ritual sentar-se ali antes de completar um tour pela casa, diverte-se Gabriela Teló.

A Nuwa oferece três modalidades de associação.

A primeira é o Plano Online, com acesso a uma plataforma virtual que disponibiliza conteúdos e reproduz os eventos presenciais (ainda em fase de gestação, o portal deverá entrar no ar em novembro). É a ideal para quem reside fora de Porto Alegre ou dispõe de poucos recursos para investimento.

Outra opção é o Social Club, que envolve a participação presencial em palestras, grupos de estudo e café com conversação em inglês, além de meditação guiada. É possível adquirir acessos avulsos para cada promoção.

A terceira modalidade é o Work Base, que nada mais é do que o coworking, com a possibilidade de acessar os espaços da casa para atividades profissionais.

A cada mês, um tema específico orienta as atividades de envolvimento com a questão de gênero nas relações profissionais. Em setembro, por exemplo, o eixo de debates foi a confiança. Em outubro, a palavra de ordem foi tecnologia, tema da palestra de Sil Bahia, diretora de projetos da Olabi, organização social com foco em inovação social, tecnologia e diversidade.

Homem não entra

Os homens que cruzam o portão de entrada – sejam fornecedores, visitantes ou jornalistas – são gentilmente convidados a tomar uma trilha lateral do pátio externo que conduz até a sala de reuniões nos fundos do prédio, único aposento em que estão autorizados a permanecer.

Para quem precipitadamente achar que a proibição configura também uma forma de discriminação de gênero, a exemplo das condutas machistas, Gabriela Teló lembra que, para além do muro que faz divisa com a calçada da Augusto Pestana, os homens dispõem de todos os espaços que desejam.

Entre eles, alguns nos quais as mulheres estão proibidas de entrar, como os clubes de negócios para cavalheiros, tradição de milionários britânicos que, a partir do século 19, se disseminou principalmente pela Europa e a América do Norte.

Seja como for, no caso da Nuwa, a interdição está longe de representar uma retaliação. É mais a necessidade de dar um tempo da presença masculina. É como se as mulheres precisassem instituir um ambiente de confiança e intimidade entre elas para se fortalecer e descobrir dentro de si próprias o modelo adequado de fazer negócios.

– Para mulheres que estão aprendendo a lidar com finanças, a presença de um homem faz com que se comportem de maneira pouco natural, diz Gabriela Teló.

 O casarão da década de 1950 foi reformado para oferecer conforto e tecnologia às atividades de trabalho e estudo (Foto/Cristiano Bauce)

O casarão da década de 1950 foi reformado para oferecer conforto e tecnologia às atividades de trabalho e estudo (Foto/Cristiano Bauce)

Afinal, existe um modelo feminino de se fazer negócios? Gabriela Teló alerta que é preciso evitar os estereótipos.

É quase consenso que os homens costumam agir de modo mais frio e racional no mundo corporativo. Em contrapartida, de acordo com o senso comum, as mulheres se guiam mais pela intuição (lembram-se do anjo da guarda que orientou Gabriela no momento de fechar o aluguel da casa da Augusto Pestana?). Eles também guardam a fama de atuar com mais agressividade, ao passo que elas buscam modelos mais solidários e colaborativos (ou menos predatórios) na selva de pedra das negociações.

– Na verdade, os aspectos masculino e feminino estão presentes em todos nós, mas homens e mulheres aprendem a potencializar só um dos lados e, com isso, vivemos em desequilíbrio na face da Terra, diz Gabriela Teló.

Por essas e outras, não faria mal que as mulheres se tornassem um pouco mais ambiciosas e ganhassem confiança para atingir seus objetivos. De outra parte, para os homens, não custaria compreender que a intuição – ou o “bater o santo”, como diz Gabriela – é elemento imprescindível no mundo dos negócios.

As mulheres precisam aprender também a correr mais riscos em suas carreiras profissionais. As pesquisas indicam que, em geral, os homens são mais desapegados no momento em que é preciso buscar oportunidades em áreas que ainda não dominam. Ao contrário, devido a amarras culturais, as mulheres se mostram mais conservadoras e inseguras na hora de avançar sobre territórios desconhecidos.

Segundo as fundadoras da Nuwa, as conquistas alcançadas internamente terão repercussão na sociedade.

– Com a confiança potencializada, a mulher estará capacitada a modificar o ambiente em que vive, levando a nova informação para os homens de sua vida, assegura Gabriela Teló.

As sócias têm planos ambiciosos para o futuro. A intenção é expandir o projeto para outras capitais do País, mas o planejamento deverá ser posto em prática de modo flexível e orgânico, conforme o ritmo e as oportunidades que a realidade disponibilizar.

– Não sabemos dizer com certeza o que seremos daqui a um ano. A cara da empresa será dada pelas mulheres que se associarem e comprarem a ideia junto com a gente, ressaltou Gabriela Stragliotto, em depoimento ao portal Mapeando POA.