Os parangolés de seu Cláudio

De gaiteiro a motorista de ambulância, passando pelo chão de fábrica – conheça a história de seu Cláudio, do Parangolé, bar que completa 13 anos de boa música na CB

Seu Cláudio junto à imagem pendurada na parede do cantor e violonista Darcy Alves, o professor Darcy, que ajudou a popularizar o bar (Foto/Francisco Cadaval)

Seu Cláudio junto à imagem pendurada na parede do cantor e violonista Darcy Alves, o professor Darcy, que ajudou a popularizar o bar (Foto/Francisco Cadaval)

Quem frequenta o Parangolé — bar que completou 13 anos de atividades no dia 9/3 — já se habituou à figura simples e discreta de seu Cláudio, sempre solícito às demandas dos clientes da casa que é referência de música ao vivo de qualidade na Cidade Baixa. Mas pouca gente sabe das peripécias pelas quais ele passou antes de se transformar em dono de botequim.

Natural de Minas do Leão – quando ainda era distrito de Butiá –, na área carbonífera do RS, Cláudio Soares de Freitas se criou numa casa com chão de barro, sem luz ou água encanada. Demorou até o pai conseguir acomodar a família numa residência de alvenaria. O epicentro da economia da região atendia pelo nome de Companhia Riograndense de Mineração, a CRM, empresa vinculada à Secretaria de Minas e Energia do Governo do Estado.

A experiência de parentes e vizinhos que tinham labutado nas entranhas da terra não recomendava futuro parecido. O exemplo mais próximo vinha do pai, Ozi, que se aposentou cedo em função das condições insalubres de trabalho.

– É uma atividade que detona com a saúde, especialmente do pulmão, anota Cláudio.

Para complementar a escassa aposentadoria, Ozi abriu um armazém de secos & molhados, desses que vendiam de cachaça até aliança de noivado, sem falar em roupas, sapatos e até antigos aparelhos de rádio valvulados.

Desde pequeno, Cláudio ajudava atrás do balcão e entregava mercadorias a domicílio. Ali por volta dos oito anos de idade, saia com uma sacola cheia de amendoins, feitos pela mãe, dona Maria Clara, para vender em canequinhas para os trabalhadores da CRM.

– Aos 13 anos, ganhei uma carrocinha e um cavalo para oferecer batata, tomate e melancia na vila dos mineiros. Mas, com 17, busquei novos rumos para não ter que trabalhar com mineração, conta Cláudio.

Acordeonista da banda Os Tropeiros da Amizade

Acordeonista da banda Os Tropeiros da Amizade

Na juventude, encarou a carreira de músico com o acordeão a tiracolo. Com o grupo regionalista Os Tropeiros da Amizade, fazia shows em salões paroquiais pelo interior afora. Além disso, apresentava-se em circos mambembes.

– A primeira parte do espetáculo ficava reservada para malabaristas, trapezistas e palhaços. Depois, vinham os shows musicais, muito comuns naquele tempo. Teixeirinha, inclusive, fez muitas apresentações em circo. Mais tarde, veio a época dos bailes em CTGs, recorda, com ar saudosista.

Os Tropeiros da Amizade chegaram a gravar dois long-plays (discos de vinil, para quem não sabe), mas o destino já estava preparando outras aventuras para o rapaz de Minas do Leão. Em Farroupilha, na serra gaúcha, conheceu uma moça de pele clara, Marta, com quem iria se casar em breve. Ele tinha largado a vida de músico para ser auxiliar de escritório do hospital da cidade. Nas horas de aperto, também fazia o papel de motorista da ambulância.

Disposto a melhorar de vida, Cláudio arranjou um emprego na fábrica de calçados Grendene, onde trabalhou por 16 anos, metade dos quais em terras tropicais, na fábrica de Sobral, no Ceará.

Na Grendene, atuou como supervisor de produção e coordenou processos de melhoria contínua de produtividade, entre outros afazeres. Estava no setor de injeção de PVC nos moldes dos produtos da unidade cearense quando veio a notícia de que seu nome constava numa lista de demissão. A empresa tinha resolvido afastar antigos funcionários para contratar jovens com salários mais baixos.

Seu Cláudio foi obrigado a se reinventar profissionalmente aos 52 anos de idade.

– Tem gente que sucumbe numa situação dessas, diz ele, olhando, pensativo, pelo retrovisor do tempo.

De volta ao Sul do País, distribuiu currículos em Porto Alegre e na zona industrial da serra, sem êxito. Chegou a pensar em abrir uma ferragem ou quem sabe uma lojinha, mas foi convencido pelos filhos, Thiago e Ana Laura (ele violonista e professor de música, ela jornalista), a mudar radicalmente de planos. A ideia era montar um bar na Cidade Baixa, reduto boêmio da capital do RS.

Seu Cláudio na rotina do atendimento aos clientes: cortesia e simplicidade (Foto/Renata Íbis)

Seu Cláudio na rotina do atendimento aos clientes: cortesia e simplicidade (Foto/Renata Íbis)

Dito e feito. Cláudio comprou o ponto do Picapau, bar localizado na Rua Lima e Silva, quase esquina com a Loureiro da Silva, que tinha como principal atrativo os jogos de futebol passados na televisão.

Tão logo abriu as portas, em março de 2006, o Parangolé (nome inspirado na obra do artista plástico Hélio Oiticica) virou reduto de músicos de diferentes gerações. Os primeiros a tomar posse foram jovens da Oficina de Choro, como Mathias Pinto e Samuca do Acordeon, mas em seguida apareceram personagens ilustres da velha guarda, como o cantor e violonista Darcy Alves, o professor Darcy, lendário parceiro de serenata e boemia de Lupicinio Rodrigues.

Aliás, o Parangolé foi o último palco em que Darcy se apresentou. Entre 2008 e 2013 (quando sofreu um AVC), ele dedilhou o violão e soltou a voz grave, sempre às quintas-feiras, diante de uma plateia concentrada e reverente — o professor Darcy viria a falecer em 2015. Em vida, foi homenageado com a publicação da biografia Darcy Alves — Vida nas Cordas do Violão (Libretos, 2010), de Paulo César Teixeira, lançada, obviamente, no Parangolé. “Parte da história do bar se deve ao Darcy, que trouxe muitos clientes para cá”, reconhece Cláudio, com humildade.

A cantora de tango Nina Moreno (Foto/Renata Íbis)

A cantora de tango Nina Moreno (Foto/Renata Íbis)

Outra personalidade marcante a cantar no Parangolé foi a uruguaia Nina Moreno (também falecida em 2015), que imortalizou clássicos da música latino-americana ao longo de décadas na noite de Porto Alegre.

Paulo de Tarso Carneiro, um dos mais assíduos fregueses, destaca como principais atrativos do Parangolé a valorização de estilos autênticos da música popular, “sobremaneira o chorinho e a MPB”, e a qualidade da comida, servida “com presteza e máxima higiene”.

Por falar nisso, o cardápio é composto por pratos diferenciados, como o Sanduíche do Chef, os Escalopes de Filé, o Arrumadinho de Quibebe e Carne de Panela e o Bobó de Camarão. A carta de bebidas, por sua vez, conta com uma seleção especial de cervejas e cachaças artesanais.

— Tudo isso sem falar que o Cláudio é um mestre na cortesia com que recebe os clientes e no respeito que demonstra em relação a todos os músicos. É um bar que dá prazer frequentar, diz Paulo de Tarso Carneiro, funcionário aposentado do Banco do Brasil.

São tradicionais as rodas de choro nas terças-feiras, a música latino-americana nas quartas e a MPB nas quintas. Nas sextas, é a vez de escutar rock & blues. Jazz, samba e canção brasileira alternam-se às segundas e aos sábados. O espaço abriga ainda projetos como Desconcerto, de música erudita, e Palco Parangolé, com performances de dança. A programação é divulgada semanalmente na página do bar no Facebook.

Presença constante na agenda musical, a cantora e compositora Priscila Meira assegura que o Parangolé é um dos locais mais agradáveis da noite porto-alegrense:

— Seu Cláudio é único: atento e generoso. Recebe seus convivas como fossem seus melhores amigos, além de ter a sensibilidade de criar um ambiente aconchegante como poucos, afirma Priscila.

Para criar essa atmosfera acolhedora, as experiências anteriores foram decisivas, como demonstra uma das peças de maior valor afetivo da decoração do Parangolé — o pandeiro da marca Izzo, que remete à grafia invertida do nome do pai (Ozi) de Seu Cláudio, lembrança eterna dos vitoriosos caminhos de vida que o conduziram até aqui.