Tambor do bem

Um dos principais pontos de difusão da cultura popular no centro histórico, o Boteco do Paulista está outra vez de portas abertas

Após quase dois meses de interdição, o bar se prepara para retomar as atividades e impulsionar mais uma vez a cena cultural da área central de Porto Alegre (Fotos/Rua da Margem)

Após quase dois meses de interdição, o bar se prepara para retomar as atividades e impulsionar mais uma vez a cena cultural da área central de Porto Alegre (Fotos/Rua da Margem)

Uma boa nova para a cidade de Porto Alegre: o Boteco do Paulista reabre as suas portas nesta quarta-feira, dia 10/4.

Com um perfil eclético e popular, o bar é um dos pontos de difusão de música e teatro que mais contribuiu para a retomada das atividades culturais no Centro Histórico nos últimos tempos. Em noites animadas, chegava a reunir cerca de mil pessoas, principalmente jovens, espalhadas pelo generoso espaço que se estende da porta do botequim – na esquina da Rua Riachuelo com a General Salustiano – até a Praça Júlio Mesquita (também conhecida como Praça do Aeromóvel).

Interditado pela prefeitura em fevereiro deste ano, o boteco passou por ampla reforma não apenas para atender às exigências do poder público, mas também para oferecer mais segurança e conforto aos frequentadores e artistas que ali se apresentam, de acordo com Gelson Larrea, proprietário do estabelecimento.

O Boteco do Paulista é fundamental para a arte e a boemia de Porto Alegre, afirma Fernando Ramos, organizador da FestiPoa Literária, um dos principais eventos da agenda cultural da capital gaúcha.

— Muito da cultura musical da cidade, sua trilha sonora histórica e sua pujante produção atual, nasceu e nasce nos bares e ruas da cidade. E o Boteco do Paulista é um ponto que acolhe e difunde boa parte dessa trilha sonora, aponta Fernando.

Além disso, o bar representa um “espaço sadio de convívio social numa cidade que oferece cada vez menos espaços para que as pessoas se reúnam para trocar ideias e experiências”, acrescenta Amadeu Medina, percussionista de bandas como Turucutá, Samba de Rolê e Chamegado.

— O Gelson e a esposa Pri deixam as pessoas à vontade. Para nós, artistas, é como se fosse a nossa família, diz Amadeu.

Gelson, dono do boteco, em frente à parede redecorada por artistas do coletivo Casa Musgo

Gelson, dono do boteco, em frente à parede redecorada por artistas do coletivo Casa Musgo

O boteco ficou novinho em folha após a reforma que atingiu piso, teto, encanamento, luminárias, fiação elétrica e tubulação de gás, entre outros itens. Os banheiros foram praticamente colocados abaixo e reconstruídos. O balcão mudou de lugar, além de ganhar pedra de mármore e um jogo personalizado de cerâmica. Foram ainda incorporados ao patrimônio nove freezers – uma coisa é certa: cerveja gelada não vai faltar.

— A única coisa velha que sobrou aqui fui eu, brinca Gelson, de 41 anos.

A cozinha, em particular, recebeu atenção especial com a aquisição de equipamentos e a instalação de uma porta de vidro para que o ambiente fique bem à mostra. A porta envidraçada representa também a tentativa de estabelecer uma relação de transparência – afinal, os fiscais da área de vigilância sanitária da prefeitura encontraram ali alguns alimentos com prazos de validade vencidos e outros de procedência indeterminada, o que motivou a interdição do bar.

— Fiz questão de assumir publicamente o erro que cometi para mostrar para a galera que me conscientizei de que com alimentação não se brinca. Daqui para frente vou ter mais cuidado, promete Gelson.

Ele conta com o apoio e a confiança de artistas e clientes, que, inclusive, contribuíram na reconstrução do botequim, alguns até mesmo arregaçando as mangas para ajudar a quebrar e pintar paredes.

Uma vaquinha online juntou R$ 1.410 para colaborar no custeio da obra. Para completar, uma festa na quadra da Imperadores do Samba, em 10 de março, com apresentação de artistas e bandas que faziam parte da agenda de shows do bar antes da interdição, reuniu 1,5 mil pessoas, arrecadando aproximadamente R$ 14 mil. É pouco, levando em conta que a obra custou perto de R$ 100 mil.

— Não é só a ajuda financeira ou a mão de obra braçal que conta. Junto com isso, tem as mensagens de conforto, afeto e respeito, diz Gelson, emocionado.

Dá para dizer que o novo Boteco do Paulista é uma obra coletiva. Um exemplo é a parede interna decorada por artistas da Casa Musgo, a exemplo de Lipe Albuquerque, que desenhou um mural com cenas que reproduzem o clima de boteco, com as mesas ocupadas por boêmios ao lado de músicos com seus instrumentos.

— A ideia é refletir a diversidade que está presente nesses encontros na noite, além de fazer referência aos diferentes gêneros musicais que desfilam no boteco, como samba, jazz e música de fanfarra, explica Vinícius Ávila, ativista de coletivos culturais e músico das bandas Cosmobloco e Bate e Sopra, que fez a curadoria da nova decoração do botequim.

Nela, se destaca também o trabalho do fotógrafo Rodrigo Marroni com a imagem analógica de um poste da Rua dos Andradas, trazendo para dentro do bar a atmosfera do Centro Histórico, lugar com tantas histórias e personagens.

Largo dos Enforcados

Cena de  AfroMe , do Grupo Pretagô, peça musical encenada no Boteco do Paulista (Foto André Olmos com o ator Bruno Cardoso em destaque)

Cena de AfroMe, do Grupo Pretagô, peça musical encenada no Boteco do Paulista (Foto André Olmos com o ator Bruno Cardoso em destaque)

Fundado no começo dos anos 1970, o Boteco do Paulista já havia passado pelas mãos de três ou quatro proprietários antes de Gelson assumir o bastão. A atual denominação, porém, tinha sido escolhida não faz muito tempo, mais precisamente na década passada. Gelson assistiu à reunião que definiu o nome do boteco.

— Eu era cliente e até dei meus palpites. Alguns dos presentes sugeriram Bar do Catarina dada a procedência de um dos donos. Outro falou em Bar do Inter, esse tipo de coisa. Ficou Bar do Paulista, não me pergunte por que, relata ele.

Em julho de 2012, Gelson adquiriu o ponto. Tudo ia bem até o começo das obras de reformulação da orla do Guaíba, em 2015, quando o público que batia ponto desapareceu do mapa. Ele rezava para que não chovesse domingo, porque aí, sim, não ia vir ninguém.

— Pior que teve uma sequência de nove domingos seguidos com chuva. Eu na maior pindaíba.

Num belo dia, jovens estudantes do Departamento de Arte Dramática da UFRGS de cabelo rastafári bateram à porta pedindo para ocupar o bar como palco de estreia do espetáculo AfroMe, que misturava teatro e música. Praticamente falido, Gelson aceitou na hora. Como a peça incorporava ritmos de rituais de origem africana, durante os ensaios correu o boato na vizinhança que o bar tinha se transformado em casa de macumba.

A escolha do Boteco do Paulista como palco de AfroMe não foi coincidência. O trabalho do Grupo Pretagô reverencia a alegria e a amargura dos territórios negros de Porto Alegre.

O bar de Gelson não fica longe de cenários que remetem à memória e ao protagonismo social e cultural da população negra da capital do RS, como o antigo Largo dos Enforcados, atual Praça do Tambor, um recanto situado no interior da Praça Brigadeiro Antônio Sampaio, no qual até 1857 os escravos rebeldes eram executados e depois tinham as cabeças decepadas expostas ao público.

Fora isso, o boteco posta-se de frente para a Praça Júlio Mesquita, onde funcionou a Casa de Correção, cadeia construída com mão de obra escrava e famosa pelas condições sub-humanas de seus alojamentos. Entre 1855 e 1962, quando foi dinamitada, chegou a abrigar ao mesmo tempo mais de 1 mil presos – a maioria negros, sendo que muitos deles, sem oportunidade de emprego após a abolição da escravatura, eram condenados só por vadiagem.  

Como se não bastasse, a trupe teatral buscava um lugar diferente para apresentar uma linguagem cênica inovadora.

– No bar, os sentimentos se potencializam. As pessoas bebem, riem, choram, tentam escapar das convenções sociais. É um local adequado para a festa cênica que desejávamos apresentar, diz Thiago Pirajira, diretor de AfroMe.

Na estreia, em dezembro de 2015, vieram 50 pessoas. Na segunda apresentação, mais 500 espectadores, de diferentes cantos da cidade. Além do sucesso de público, AfroMe conquistou o Prêmio Braskem do Porto Alegre Em Cena de 2016. Gelson só faltou soltar foguetes:

– Caiu do céu. E eu que estava esgualepado, recorda.

Desde então, o Boteco do Paulista passou a ocupar um lugar privilegiado na agenda boêmia e cultural de Porto Alegre, espaço que está prestes a ser retomado, desta vez, com uma nova configuração que assegura mais comodidade e segurança aos artistas e ao público em geral. A cidade agradece.

A ocupação do espaço urbano com atividades culturais é fator que contribui para aumentar a segurança da região central da cidade, conforme frequentadores do bar

A ocupação do espaço urbano com atividades culturais é fator que contribui para aumentar a segurança da região central da cidade, conforme frequentadores do bar

Abaixo, veja depoimentos sobre o Boteco do Paulista recolhidos em agosto do ano passado, durante a produção da reportagem Cultura no Centro, do Rua da Margem:

“Saio pouco, sou bem caseira. Quando cheguei aqui, fiquei impressionada. Até falei para as gurias que estão comigo: o bar como entidade não perde o caráter de um boteco clássico, que congrega tribos bem diferentes.”

Joanna Burigo, fundadora do blog Casa da Mãe Joanna e colunista da revista Carta Capital

“Aqui no Centro o Boteco do Paulista é a principal referência de espetáculos de música. O barulho não me incomoda, embora respeite quem se sinta incomodado. Mas é preciso atentar para o fato de que o movimento na rua dá mais segurança a todos. Acredito até que deveríamos ter mais opções de eventos que se estendessem até mais tarde na região central.”

Lediane Woiciechoski, pedagoga, que mora na Rua Washington Luís, nas proximidades do Boteco do Paulista

“Outro dia, vim visitar um amigo aqui perto e fui assaltada. Não tinha ninguém na rua que eu pudesse pedir socorro, não tinha para onde correr. Com os bares fechados, a região fica mais deserta e perigosa.”

Camila Tauchem, publicitária

Paulo César Teixeira