A praça é nossa

Jovens revitalizam com arte e cultura área de lazer abandonada por poder público na periferia de Porto Alegre

 Priscila Macedo é uma das coordenadoras da Biblioteca Comunitária Girassol, no Sarandi (Fotos/Divulgação)

Priscila Macedo é uma das coordenadoras da Biblioteca Comunitária Girassol, no Sarandi (Fotos/Divulgação)

Uma casinha abandonada numa praça deserta.

A imagem de descaso deu origem a um projeto inovador – o Coletivo Conceito Arte, que abriga a Biblioteca Comunitária Girassol, na Praça Oliveira Rolim, no Sarandi, bairro do extremo norte de Porto Alegre.

Como tantas áreas periféricas das cidades brasileiras, o Sarandi sofre com equipamentos públicos sucateados – desde escolas e postos de saúde até locais de lazer, como a pracinha –, falta de segurança e alagamentos frequentes em caso de enxurradas.

Por um bom tempo, a casa tinha servido de depósito de ferramentas e acessórios dos aparelhos de ginástica que, em teoria, deveriam ficar disponíveis para a população, caso estivessem em boas condições. Em 2014, foi transformada em espaço cultural por meio de uma ação espontânea de jovens voluntários da comunidade.

– Vimos que estava desocupada e resolvemos agir para resgatar a identidade dos moradores, diz Priscila Macedo, 26 anos.

 Inauguração da biblioteca em junho de 2017: atividades culturais recuperam orgulho de morar na periferia

Inauguração da biblioteca em junho de 2017: atividades culturais recuperam orgulho de morar na periferia

O movimento dos jovens partiu de uma constatação simples, mas dolorida: eles não estavam sentindo nenhum orgulho de morar no lugar em que nasceram e se criaram.

– As pessoas geralmente se sentem orgulhosas de viver no Centro ou na zona sul de Porto Alegre. Na periferia, nem sempre isso acontece, o que é compreensível. Afinal, as atividades culturais acontecem em outras regiões da cidade, observa Priscila.

A primeira providência foi consertar o bebedouro d'água. Parece insignificante, mas o ato de beber água limpa e potável num logradouro público produz um efeito encorajador e civilizatório.

Depois de limpar o gramado, as trilhas e os canteiros, a galera revitalizou o interior da casinha, além de pintar e enfeitar as paredes com grafite. A seguir, deu início à principal tarefa a que tinha se proposto: humanizar a praça com ações de arte e cultura.

– Sabemos que a arte faz a gurizada pensar e querer construir um mundo diferente daquele que a sociedade impõe, salienta Priscila. Bianka Maduel, de 21 anos, acrescenta: – A nossa casinha é uma oficina de arte. Ali, cada um de nós contribui com o que sabe fazer e estamos sempre aprendendo uns com os outros.

Colegas do curso de Biblioteconomia da UFRGS, Priscila e Bianka cuidam da Biblioteca Girassol, que faz parte da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias e foi inaugurada em junho de 2017. Antes disso, já funcionava de modo improvisado numa “geloteca” – na verdade, uma geladeira antiga que ficou abarrotada de livros.

 No início, os livros eram guardados na "geloteca"

No início, os livros eram guardados na "geloteca"

 Agora, a biblioteca tem um cantinho com estante na casa

Agora, a biblioteca tem um cantinho com estante na casa

Atualmente, a Girassol ocupa um estante num cantinho da casa com cerca de 500 obras doadas já catalogadas e outras 300 à espera de catalogação.

Para incentivar o hábito da leitura, promove uma série de contação de histórias em parceria com escolas das redondezas, como a Professora Aurora Peixoto de Azevedo, da rede estadual, e a Presidente João Belchior Marques Goulart, do município.

Algumas vezes, os estudantes vão até a biblioteca comunitária ou participam da atividade ao ar livre, na pracinha. Em outras ocasiões, os contadores de histórias é que se dirigem até as salas de aula.

 As crianças participam de atividades de leitura ao ar livre

As crianças participam de atividades de leitura ao ar livre

A iniciativa tem a ajuda de parceiros como o Tesouros de Papel, grupo formado por alunos de Biblioteconomia da UFRGS, que trabalham de forma voluntária para divulgar a literatura em espaços públicos como casas de cultura e bibliotecas.

Pelo menos uma vez por mês, a Girassol convida os moradores do Sarandi para saraus na sede do Conceito Arte, sempre com temas ligados à vida da comunidade. Em novembro passado, por exemplo, o Sarau das Gurias debateu a temática feminista. 

Há também os cafés literários – para participar, basta o morador ter vontade de compartilhar uma boa conversa acerca de um livro que leu ou está lendo, com direito a café e comidinhas matinais.

Em 2016, a praça do Sarandi recebeu a Feira Fora da Feira, projeto da Feira do Livro de Porto Alegre, que envia Kombis até áreas da periferia da capital gaúcha para promover atividades lúdicas junto ao público infantil. Em compensação, o pessoal do Conceito Arte se deslocou até o Centro da cidade para realizar um sarau com poetas da periferia na Praça da Alfândega, sede do tradicional evento literário da capital gaúcha.

Yasmin Wink, 21 anos, também estudante do curso de Biblioteconomia da UFRGS, que atua como voluntária da Rede de Bibliotecas Comunitárias, criada pela ONG Cirandar, destaca que essa via de mão dupla vale igualmente para a relação com a universidade:

– De um lado, trazemos atividades culturais para a periferia e, com isso, aplicamos na comunidade o que aprendemos na faculdade. De outra parte, levamos as questões comunitárias para dentro da academia, que ainda se ressente de uma visão mais social do papel a ser exercido pelo profissional de biblioteconomia.

Para 2018, a Biblioteca Girassol projeta participar de editais e programas de fomento à cultura para que possa alcançar um patamar mínimo de autonomia financeira. Não custa lembrar que todo mundo ali é voluntário, portanto, não pode estar presente o tempo inteiro devido a compromissos profissionais ou de estudo. A ideia é ter recursos para pagar um funcionário que cumpra horário fixo de atendimento ao público.

Com apoio financeiro, será possível ainda trazer nomes representativos da cultura das periferias brasileiras para saraus na pracinha do Sarandi, como o escritor paulista Allan Rosa, o poeta mineiro Sérgio Vaz e a atriz e cantora Jennifer Nascimento, de SP, além do romancista e professor carioca Jeferson Tenório, radicado desde a infância em Porto Alegre.

Clique nas imagens abaixo para ver de que modo a comunidade reconquistou o espaço que havia perdido.

Além das atividades da Biblioteca Girassol, o Conceito Arte agita o Sarandi com aulas de capoeira ministradas por Layonel Lamp, o Robô, como ele é chamado.

Já as oficinas de grafite estão a cargo de Filipe Gomes, o Lipe, que também produz estampas de camisetas, com temas relacionados ao resgate da identidade de quem mora na periferia dos centros urbanos. Ele até criou a sigla Harp para ressaltar as palavras que orientam o seu trabalho – humildade, amor, respeito e paz.

Gabriel da Rosa, o Biel, por sua vez, é responsável pelas oficinas de plantio de PANCs (plantas alimentícias não convencionais). O rapaz está, inclusive, montando uma horta comunitária na Praça Oliveira Rolim com a ajuda de seus aprendizes.

Sem falar nos desafios de rappers na praça, que já contaram com a presença de representantes destacados da cultura hip hop, como a Negra Jaque, criada no Morro da Cruz, zona leste da cidade.

Visitantes ilustres, que chegam de paragens distantes, também fincam âncora na casinha. É o caso de Eduardo Marinho, capixaba que abandonou o conforto proporcionado pela família burguesa para viver dos poemas e desenhos que vende nas calçadas, em constantes viagens pelo Brasil. Personagem bastante conhecido do público ligado na internet, Eduardo se hospedou na casa em sua última passagem por Porto Alegre, no começo de dezembro. Ele aproveitou a estadia para realizar uma exposição e dar uma palestra para a rapaziada. 

Natashe Inhaquite, estudante de Ciências Sociais que integra o Conceito Arte, enfatiza que todas essas atividades promovem a construção da democracia no local: “O que a gente quer é dar voz e vez às pessoas da periferia”, explica ela.

Depois que tudo isso passou a ser realidade, sabe o que aconteceu? A praça deixou de ser um local abandonado e perigoso.

– Quando eu era adolescente, a mãe não me deixava brincar aqui. Hoje, fico contente de ver que as crianças ocupam o espaço até as dez horas da noite. A praça está viva e se tornou habitável outra vez, constata Bianka.

Assim, outra cidade e outro país se movem com inteligência e graça, sem que quase ninguém se dê conta, o que dá ao menos um fiozinho de esperança no futuro.

 Sede do Coletivo Conceito Arte, na Praça Oliveira Rolim, zona norte de Porto Alegre

Sede do Coletivo Conceito Arte, na Praça Oliveira Rolim, zona norte de Porto Alegre

 

 

Paulo César Teixeira