Um bar brasileiro

Porto Carioca: um pedacinho do Rio de Janeiro num dos pontos mais agitados da Cidade Baixa

 Joicy Gama, a dona do bar: atendimento eficiente com um sorriso no rosto  (Fotos Amanda Leal)

Joicy Gama, a dona do bar: atendimento eficiente com um sorriso no rosto  (Fotos Amanda Leal)

Um bar que acolhe todos, sem distinção, com a simpatia da alma carioca no coração da Cidade Baixa.

Não poderia existir melhor definição para o Porto Carioca, que completará sete anos de atividades em 2018 num dos pontos de maior agitação do bairro mais boêmio de Porto Alegre – Rua da República, nº 188, perto da esquina com a Rua Lima e Silva.

O acolhimento do público, independente de gênero, cor, religião ou nível socioeconômico, é uma marca que identifica a Cidade Baixa, uma região da capital gaúcha que, tradicionalmente, simboliza a busca de uma convivência mais humana, tolerante e inclusiva. Mas, em alguns locais, como o Porto Carioca, essas características se acentuam e saltam aos olhos.

– É um bar em que você nunca se sente sozinho. Mesmo que chegue desacompanhado, faz novas amizades, justamente pela acolhida sem preconceitos que proporciona, assegura o professor universitário Huander Felipe Andreolla.

Embora esteja localizado numa área de grande afluência do público LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), o Porto Carioca não constrói barricadas, como sublinha a servidora pública Thamys Luz, que frequenta o bar ao lado do marido, Pablo Marques, representante comercial do ramo da aeronáutica.

– Antes de tudo, é um espaço de pessoas que se respeitam, diz Thamys. Em seguida, ela complementa: – E não é justamente isso, respeito entre as pessoas, o que está faltando no mundo?

 Arcos da Lapa: um dos destaque da decoração inspirada em personagens e espaços famosos do Rio de Janeiro

Arcos da Lapa: um dos destaque da decoração inspirada em personagens e espaços famosos do Rio de Janeiro

Alguém poderá indagar: por que Porto Carioca? Em parte, a explicação está exposta na frase que acompanha a logomarca na fachada do bar – “Um pedacinho do Rio de Janeiro em Porto Alegre”.

Traduzindo: o boteco reúne, de um lado, a predileção da galera porto-alegrense por locais que ofereçam ambiente agradável, cerveja gelada, bons petiscos e música de qualidade e, de outra parte, o sorriso aberto e a facilidade de conquistar amigos do povo carioca.

A decoração, por exemplo, exibe alguns aperitivos da exuberante paisagem do Rio de Janeiro. Não por coincidência, as pessoas adoram posar para selfies diante dos Arcos da Lapa desenhados na parede, na parte dos fundos do bar.

Figuras típicas como as do malandro e da namoradeira na janela também se fazem presentes, sem falar nas imagens do Cristo Redentor e do Pão de Açúcar, além da silhueta dos barracos de uma favela, que ajudam igualmente a compor o cenário junto com rostos de artistas como Cartola e Tim Maia.

Por falar em grandes nomes da música popular, a identidade do Porto Carioca se completa com a trilha musical dedicada a canções brasileiras, principalmente samba, MPB, bossa nova, funk e axé. Aliás, as playlists escutadas no bar estão disponíveis no Spotify (perfil portocarioca), com Jorge Benjor, Paulinho da Viola, Adoniran Barbosa, Gilberto Gil, Mart’nália e Clara Nunes, entre outros.

Abaixo, veja uma sequência de imagens do ambiente interno do Porto Carioca.

 

Rainha do funk

Essa mistura criativa e cativante de uma porção carioca com outra gaúcha tem rosto, nome e sobrenome: Joicy Gama, a proprietária do Porto Carioca, natural de Belfort Roxo, na Baixada Fluminense (RJ), que há dez anos vive no Sul do País.

Não é de hoje que Joicy aprecia ambientes alegres e festivos. Na adolescência, ela chegou a cantar numa banda de funk junto com as irmãs Jaqueline e Jô, as três vigiadas de perto pelos olhos da mãe, Tânia Maria, que trabalhou a maior parte da vida como empregada doméstica, enquanto o pai, seu Getúlio, exercia o ofício de estofador de sofás.

– Com o passar do tempo, perdi a paciência com o universo do funk. É um ambiente machista, complicado para mulheres, observa ela.

A vida de Joicy mudou de forma inesperada e radical em 18 de fevereiro de 2006, quando os Rolling Stones se apresentaram nas areias de Copacabana. Para falar a verdade, ela nem conhecia as canções de Mick Jagger & Cia. A caminho da zona sul do Rio, comentou com as irmãs, num tom de brincadeira:

– Nem sei quem são esses tais Rolling Stones. Eu estou indo só para casar e ir embora daqui.

Boca santa dessa menina... No show, conheceu o gaúcho Paulo Martins, com quem se casaria um ano depois.

De repente, a vida deu uma guinada. Pela primeira vez, ela viajou de avião e desbravou novos territórios. Até ali, exceto o Rio de Janeiro, só conhecia São Paulo e Vitória (ES), onde tinha se apresentado com a banda de funk.

– Quando a gente se cria numa cidade pequena, acha que só existe aquilo ali, mas não é bem assim. Eu não tinha noção do que é o Brasil e das oportunidades que o País oferece, comenta.

Em Porto Alegre, para onde se transferiu em 2006, arrumou de início emprego como caixa das Lojas Americanas. Depois, trabalhou numa loja de artigos para cabeleireiros e também como promotora de vendas da Ricca, marca de pentes, escovas e outros itens do ramo. Mas a garota não estava feliz.

Num momento de indecisão, chegou a pedir abrigo na casa dos pais em Belfort Roxo para repensar a vida. Só que a estadia de um mês na cidade natal fez com que percebesse que, àquela altura, havia tomado um rumo sem volta.

– Não me reencontrei com aquela pessoa que eu era antes. Vi que não era lá que queria ficar.

Nessa época, ela usava com frequência uma expressão que ilustra bem a força de vontade e a capacidade de superação que caracterizam a moça. Dizia que queria, antes de tudo, “ser alguém”.

– Quando eu dizia isso para o meu marido, na época, ele respondia: “Mas você já é alguém”. E eu insistia: “Não sou, nem carteira assinada eu tenho”.

Por certo, ser alguém significava ser dona de seu nariz, de preferência à frente do próprio negócio. A ideia ganhou força quando, certa noite, cercada de amigos no bar Pinguim, na Cidade Baixa, ela fez um comentário irônico ao receber do garçom a conta para lá de salgada:

– É isso que eu quero montar, já vi que dá dinheiro...

 As mesas na calçada, junto às arvores da Rua da República, em frente ao Porto Carioca: ambiente agradável num final de tarde no verão  

As mesas na calçada, junto às arvores da Rua da República, em frente ao Porto Carioca: ambiente agradável num final de tarde no verão  

Pulos na vitrine

Joicy estava dentro da vitrine de uma loja na Avenida Assis Brasil escolhendo o melhor local para expor pentes e escovas quando recebeu o telefonema:

– Tenho uma novidade para você: achei o lugar para abrir o bar!

Era a voz de um amigo que ajudava a encontrar um local para montar o negócio. Naquele instante, quem passava pela calçada da Assis Brasil não podia imaginar por qual motivo aquela garota estava dando pulos de felicidade dentro de uma vitrine!

Mas não pensem que foi tudo rápido e fácil. Antes, bem que ela tentou comprar um ponto, mas não tinha a bagatela de R$ 25 mil que custava. Quando foi aconselhada a adiar o projeto até juntar mais dinheiro, ela reagiu:

– Nem pensar. Não vou esperar 20 anos. Melhor é alugar um espaço para montar o bar.

Assim, o Porto Carioca foi inaugurado em 13 de abril de 2011. Como era de se esperar, o início foi de desafios e aprendizados.

Para começar, Joicy pediu que a mãe viesse de Belfort Roxo para ajudá-la na cozinha – mais tarde, viriam também as irmãs e o irmão Jonatan. Com o dinheiro que tinha guardado, comprou um jogo de quatro mesinhas e 16 cadeiras. A geladeira, ela trouxe de casa.

Sem experiência no setor, precisava começar da estaca zero. Não é de admirar que houvesse alguma atrapalhação nos primeiros dias. Como ainda não sabia preparar os drinques, recorria à internet para dar conta do recado.

– Uma caipirinha, por favor, gritava o cliente.

– É pra já, respondia ela, correndo até a frente do computador para olhar a receita de uma das bebidas mais populares do Brasil – hoje, o Porto Carioca oferece mais de 22 modalidades de caipirinhas, incluindo opções com groselha, abacaxi com gengibre, maracujá e cravo com pimenta rosa.

Há também diversas marcas de cervejas convencionais e artesanais, além de cerveja sem álcool, ice e energéticos. Piña colada, gin tônica e martini também são boas pedidas, sem falar em vinho e espumantes.

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O cardápio de comidas foi elaborado com o gosto de carinho de mãe. Explica-se: as receitas de Tânia Maria já faziam sucesso entre pessoas próximas quando ela vinha visitar a filha em Porto Alegre. Joicy ouviu, então, a sugestão de amigos:

– Tem que servir as panquecas de tua mãe no Porto Carioca!

Até hoje, é um dos pratos mais solicitados no bar. A razão do sucesso é segredo de família, mas – cá entre nós – se deve à massa bem fininha e ao recheio que pode ser de frango, carne moída ou de panela, 5 queijos, vegetais, strogonoff e camarão, sempre salpicado de molho vermelho e orégano.

– De vez em quando, inventamos novos sabores para surpreender, avisa Joicy.

O certo é que o sotaque do Rio de Janeiro é inconfundível na gastronomia do Porto Carioca, que se transformou num dos principais atrativos da casa.

A maior parte dos pratos recebe nomes que remetem à malemolência carioca. É o caso de Garota Sangue Bom (iscas de carne ao molho barbecue com pedacinhos de cebola e temperado com alecrim) e Bezerra da Silva (linguiça calabresa flambada na cachaça com cebola).

Um conselho: não deixe de provar a Especiaria Suburbana (pasteis de vários recheios com molho especial da casa) e o Namoro Firme, que nada mais é do que o tradicionalíssimo sanduíche aberto com mussarela, salame, ovo de codorna, azeitona, alface, tomate cereja e manjericão.

Para contrabalançar, um dos pratos ganhou o nome de Quero-Quero, ave conhecida como Sentinela dos Pampas – coxinhas da asa temperadas na cerveja e pedacinhos de alho. Uma opção intermediária é o Cariúchas (carne seca refogada na cebola e cheiro verde com aipim). Bateu a fome?

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Abadá rosa-choque

Aos domingos, um dos dias mais movimentados da Cidade Baixa, o Porto Carioca promove feijoadas e eventos especiais, como as festas 50 Sons de Brasil e Sambo do Jeito que Dá, além do Bailinho Latino-Americano, com DJs e músicos convidados. A confraternização se estende no máximo até as 22h, em respeito ao sossego da vizinhança.

Por sua vez, Dona Flô é uma festa alternativa que o bar promove externamente em locais como Vila Flores e Casa de Teatro, com a participação de bandas de vários estilos musicais. A ideia é que se transforme num grande festival já a partir de março de 2018.

Desde já, a galera está convidada a participar do bloco carnavalesco Amigos do Porto, que ficará concentrado em frente ao barzinho da Rua da República no dia 17 de fevereiro (sábado, data do tradicional enterro dos ossos) antes de partir em direção ao Largo Zumbi, colorindo as ruas da Cidade Baixa. Para participar da folia, basta doar brinquedos que serão destinados a crianças carentes.

Já para desfilar com o abadá cor de rosa-choque estampado com a marca do Porto Carioca, o folião deverá contribuir com a campanha de financiamento coletivo da plataforma Catarse, que servirá para angariar recursos para trazer uma atração nacional (surpresa!) que irá abrilhantar o bloco.

– Já havíamos feito uma experiência maravilhosa há dois anos, mas desta vez o bloco virá ainda mais animado, promete Joicy.

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Para fidelizar ainda mais os clientes, o Porto Carioca disponibiliza um cartão pré-pago que dispensa a utilização de comandas. É simples e prático de usar: a pessoa antecipa determinado valor e vai gastando conforme o consumo de cada noite.

Se, por um acaso, esquecer o cartão em casa, não tem problema – pelo número de CPF, é possível identificar o cadastro e descontar a despesa. Outra forma de fidelizar o público é sortear brindes e ingressos para espetáculos que integram a agenda musical da cidade, como os de Alceu Valença e Seu Jorge.

Superando preconceitos

A formação de uma clientela fiel ao estabelecimento não se deu da noite para o dia.

O começo da década de 2010 coincidiu com o período em que o público LGBTT começou a assumir sua identidade com mais força e veemência na Cidade Baixa. E, quando o Porto Carioca abriu suas portas, a Rua da República foi palco dessa ocupação de território.

– Hoje, é comum vermos meninos de mãos dadas ou meninas se beijando publicamente, mas naquele momento era algo ainda incipiente, recorda Joicy.

Na calçada oposta, estavam posicionados o Capadócia e o Hangar Pub, bares que ajudaram a construir um cenário de liberdade e diversidade de gênero na Cidade Baixa. Quando ambos encerraram atividades, o pessoal atravessou a rua e adotou o Porto Carioca como ponto de encontro.

Ainda assim, a dona do bar sempre fez questão de deixar as portas abertas para os mais variados tipos de público.

A princípio, algumas pessoas custaram a compreender essa postura. Certa vez, um cliente acompanhado da namorada pediu que avisassem dois rapazes postados na mesa ao lado que não poderiam se beijar no recinto.

– Se você quiser beijar a moça, não precisa de permissão, não é? Então, deixa os meninos em paz, respondeu Joicy.

Em contrapartida, também havia reclamações quando casais heterossexuais ocupavam o espaço.

– Mas o Porto Carioca não é um ponto gay?, questionou outro cliente.

– Ah, então, quer dizer que por eu ser negra vou ter que frequentar única e exclusivamente lugares onde só vai negão?, rebatia ela, provocando o rapaz.

Joicy gosta de dizer que o Porto Carioca não é um bar com perfil homossexual ou heterossexual.

– É um bar brasileiro, sintetiza, lembrando das influências que recolheu ao longo da caminhada que fez para chegar até aqui.

Seja como for, ela tem uma teoria sobre o preconceito, que construiu por experiência própria e observação do que acontece ao seu redor.

– As outras pessoas podem ser preconceituosas, mas cabe a você aceitar isso ou não. Se o preconceito não está dentro de você, ele não tem nenhum poder.

Assim é Joicy Gama, uma empreendedora que está fazendo a sua parte para que possamos viver num mundo mais tolerante e prazeroso, sem rótulos que venham a segregar as pessoas.

– Se for o caso de me rotular, então coloque aí: sim, Joicy é uma mulher que saiu de Belfort Roxo com pouco dinheiro e montou um bar de sucesso. Precisa dizer mais?

Precisa, sim, guria. Há dois anos, Joicy abriu uma nova frente de batalha, com Marcelo Neves, com quem está casada – o bar Benedito Santo Chopp, especializado em cerveja artesanal e hambúrguer, que funciona de terça a sábado na Rua Garibaldi, nº 868, no bairro Independência. Mas essa é uma outra história, que vamos contar depois.

Por ora, vamos frisar que, em nenhum momento, Joicy aparenta ser a proprietária do Porto Carioca. Ela chega a escutar:

– Puxa, como você atende bem. Vou falar para aumentarem seu salário...

Tal confusão não a magoa, pelo contrário. Ela tem certeza de que nasceu para atender aos seus clientes da melhor forma possível.

– Amo o que faço.

Bom, isso todo mundo nota. Afinal de contas, esse pedacinho da Cidade Baixa está marcado pela graça e a alegria dessa cariúcha da gema! 

Paulo César Teixeira