Bendita Esquina

novo restaurante homenageia gueto boêmio histórico de Porto Alegre

 Fachada do espaço aberto no começo de dezembro reflete o prédio da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, na calçada oposta (Fotos Rua da Margem)

Fachada do espaço aberto no começo de dezembro reflete o prédio da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, na calçada oposta (Fotos Rua da Margem)

A esquina da Avenida Osvaldo Aranha com a Rua Sarmento Leite já foi um dos pontos mais agitados da noite de Porto Alegre. Nas décadas de 1960 e 1970, ficou conhecida como a Esquina Maldita, reduto da rebeldia e do inconformismo da juventude da época.

Entre um chope e outro, ativistas planejavam greves e passeatas para derrubar a ditadura militar. A agitação política era impulsionada pela proximidade do campus central da UFRGS, principalmente dos cursos das áreas de humanas, que ainda não haviam se transferido para o bairro Agronomia, perto de Viamão. Pelas calçadas da Esquina Maldita também circulavam hippies, punks, feministas e homossexuais assumidos, que desafiavam os rígidos padrões de comportamento em vigor.

Não é que o mais novo restaurante do Bom Fim, aberto na terça-feira, dia 5 de dezembro, homenageia o antigo reduto boêmio?

No dia de inauguração, estava tomado de estudantes e professores, principalmente da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, que fica ali perto, na Sarmento Leite. Não foi por acaso. A proprietária Maria Helena Ravasio administrou durante duas décadas a cantina da escola até perder a concorrência para renovar a concessão alguns meses atrás.  

– Os alunos e professores disseram que iam ficar com saudade. Por isso, resolvi atravessar a avenida e vir para cá, diz ela, com um sorriso aberto, num momento de descontração, antes de retomar o olhar sério e compenetrado para comandar o atendimento ao público.

 A proprietária Maria Helena recebe o público no primeiro dia de funcionamento do Bendita Esquina  

A proprietária Maria Helena recebe o público no primeiro dia de funcionamento do Bendita Esquina  

Maria Helena não sabia da existência da lendária Esquina Maldita até pouco tempo atrás. Responsável pela reforma que incluiu interiores, mobiliário e decoração, a arquiteta Adriana Coradini, por sua vez, só soube que aquele era um local destacado na memória cultural de Porto Alegre ao assistir, em casa, num momento de lazer, ao documentário Filme Sobre o Bom Fim, de Boca Migotto. Quando comentou o assunto no escritório, a estagiária Júlia Bolzan saltou da cadeira:

– Claro que eu conheço essa história! Eu li o livro Esquina Maldita, disse a estudante de Arquitetura, referindo-se à obra do escritor e jornalista Paulo César Teixeira, publicada pela Libretos Editora, em 2012. Ela havia conhecido o livro por indicação do professor Carlos Reinaldo Lersch, da disciplina Literatura e Redação, quando estudava no Colégio Marista Assunção.

A descoberta alterou os planos até ali esboçados. A princípio, a proprietária pretendia dar o nome de Villandry (referência a um dos últimos palácios construídos durante o Renascimento às margens do rio Loire, na França) ao restaurante, mas a ideia foi deixada de lado quando se chegou ao consenso de que era preciso homenagear o gueto boêmio dos anos 1960 e 1970.

Formada pela UFRGS em 2007, Adriana faz questão de combinar presente e passado em seus trabalhos. Essa preocupação é um dos motivos que a levaram a cursar atualmente o mestrado em História da Arquitetura.

– Quero que as pessoas saibam o que foi esse lugar e o que ele representou para a cidade, diz Adriana.

A escolha da nova marca obedeceu a um critério democrático, bem ao gosto do legado da Esquina Maldita: Júlia consultou o grupo de colegas da Faculdade de Arquitetura da UFRGS no WhatsApp, de onde veio a sugestão de Esquina Bendita, que ilustra a transformação da paisagem local com graça e ironia. Então, bastou inverter a ordem das palavras para bater o martelo – ficou Bendita Esquina.

 Jogo americano traz informações sobre o lendário gueto boêmio 

Jogo americano traz informações sobre o lendário gueto boêmio 

A homenagem à Esquina Maldita se estendeu à decoração temática.  Um jogo americano disposto sobre as mesas mostra um breve texto explicativo acerca do lugar, além de poemas do jornalista Juarez Porto e do iluminador de espetáculos Maurício Rosa Marques, o Mau Mau, inspirados no ponto de boemia. Os poemas foram extraídos do livro de Paulo César e originalmente publicados na Pedra Mágica, revista underground que circulou na capital gaúcha nos anos 1970.

– Imaginei o cliente tomando uma cerveja sozinho, quando, de repente, começa a ler sobre a Esquina Maldita e se inspira para continuar pensando na vida, conta a arquiteta.

Até as 21h, além de buffet de almoço, o estabelecimento oferece ala minuta, omeletes, porção de fritas e lanches como torradas e xis, acompanhados de café, sucos, refrigerantes ou cervejas. O logo da marca é da Pleno Design, ao passo que as paredes externas foram pintadas pelos grafiteiros Stefan von der Heyde Fernandes e Daniel Romanenco, do Projeto VHR.

República libertária etílica

 Uma imagem rara do interior do bar Alaska na década de 1960 (Arquivo Familiar/Reprodução Tânia Meinerz)

Uma imagem rara do interior do bar Alaska na década de 1960 (Arquivo Familiar/Reprodução Tânia Meinerz)

Existiam duas galeras que batiam ponto na Esquina Maldita: a dos que pretendiam transformar o mundo e a dos que propunham revolucionar a própria vida. 

Na República Libertária Etílica, como definiu certa vez o jornalista Emílio Chagas, os mais politizados frequentavam o bar Estudantil, no andar térreo do edifício Minerva, na Rua Sarmento Leite. Já os bichos grilos e os artistas em geral preferiam o Alaska, na Osvaldo Aranha, na parte térrea do edifício Riviera. O Bendita Esquina instalou-se no local originalmente ocupado pelo Copa 70, bem na confluência da Avenida Osvaldo Aranha com a Sarmento Leite. Era o predileto da Nega Lu, bailarino homossexual que subia no balcão para cantar com seu vozeirão o clássico do jazz Summertime, de George Gershwin, arrebatando uma plateia de amigos e admiradores. Já o Mariu's, junto ao acesso para o Túnel da Conceição, é o único que se mantém em atividade até hoje. O proprietário, Mário Fernandes, português que completará 96 anos em janeiro de 2018, pode ser visto diariamente, sentado à mesa, junto à porta da frente, observando o movimento do bar.

Dos encontros e discussões regados a cerveja e cachaça na Esquina Maldita surgiram ideias e projetos que marcaram a vida cultural da cidade, como Bailei na Curva, de Júlio Conte, um dos maiores sucessos de público do teatro gaúcho, em cartaz desde 1983. Deu Pra Ti, Anos 70, longa-metragem em super 8 filmado em 1981 por Giba Assis Brasil e Nelson Nadotti, que abriu espaço para a produção cinematográfica com sotaque porto-alegrense, teve cenas rodadas dentro do Alaska. Além disso, compositores da música popular cantaram o gueto da boemia em prosa e verso, como Wanderlei Falkenberg e Giba Giba, que compuseram a canção denominada Esquina Maldita. Em Nem Por Força, Nei Lisboa e King Jim (Ricardo Cordeiro, da banda Garotos da Rua) também citam as calçadas da Esquina: Nem por força do diabo/Eu volto a vegetar/Nessas malditas esquinas/Na pressa de te encontrar.

Reza a lenda que a expressão “esquina maldita” teria sido usada pela primeira vez pelo cineasta e escritor Licínio Azevedo (radicado desde 1975 em Moçambique) no começo da década de 1970, quando trabalhava como repórter do jornal Folha da Manhã. Na mesa do bar Alaska, estavam presentes ainda Emílio Chagas e o também jornalista Caco Barcelos, hoje na Tv Globo, no Rio de Janeiro, além do professor de Física da UFRGS Joacir Medeiros, o cientista social João Alberto Silva Figueiró (que viria a ser diretor do Colégio Estadual Júlio de Castilhos na década de 2000) e o historiador Tagôre Rodrigues. Três anos após o lançamento do livro Esquina Maldita, Licínio confirmou a história num e-mail enviado ao autor:

– Recebi hoje, aqui em Maputo {capital de Moçambique} o teu livro. (...) Realmente, como dizes na página 201, a "maldição" da nossa bendita esquina foi algo que eu disse, acho que inspirado por algum poema de Flores do Mal, de Baudelaire, que na época era um dos nossos ícones literários e continua sendo. Benditas sejam as flores do mal!

Paulo César Teixeira