Enfim, um boteco sem frescura

Bar do Alexandre, no Menino Deus, preserva as raízes dos autênticos botequins 

 O roqueiro Júlio Reny, ao fundo, se apresentando em frente ao bar (Foto Arquivo Pessoal/José Antonio Lamb)

O roqueiro Júlio Reny, ao fundo, se apresentando em frente ao bar (Foto Arquivo Pessoal/José Antonio Lamb)

Reza a lenda que boteco é um diminutivo de botequim, vocábulo que tem sua origem na palavra botica, que nada mais é do que o antigo armazém em que as pessoas faziam compras e aproveitavam a ocasião para colocar descontraidamente os assuntos em dia.

Lá pelas tantas, o dono do armazém passou a servir bebidas com o intuito de prolongar a conversa e criar um clima de intimidade, até que as boticas se transformaram em animados locais de prosa & cantoria, mesmo quando os clientes já não precisavam abastecer suas despensas. Pronto: estava criado o primeiro botequim da história universal. 

Em pleno século 21, alguns estabelecimentos buscam honrar as raízes dos autênticos botecos. Querem um exemplo? O Bar do Alexandre, localizado na esquina das Ruas Saldanha Marinho e Gonçalves Dias, no Menino Deus.

A casa segue a receita tradicional do botequim: cardápio com o trivial em termos de comida e bebida oferecido a preços populares e, o mais importante, frequentadores que desfrutam de intimidade entre si e com o dono do bar, neste caso, Alexandre Kohls, o Alemão.

Esse perfil não foi alterado nem mesmo depois que o bar ganhou fama ao virar notícia no blog de Sara Bodowsky, em Zero Hora, o que atraiu um público vindo de outros bairros e obrigou Alexandre a ampliar a área interna para atender à nova demanda. 

– Nunca fiz propaganda, não achei que tinha necessidade, diz Alexandre. Com as mãos estendidas em direção às mesas nas calçadas, ele completa:  – Aqui, se criou uma turma e todo mundo se chama pelo nome.

Uma parte da turma é constituída de empregados do comércio da região, que frequentam o bar na hora do almoço. Aliás, a refeição servida ao meio dia é feita para caber no bolso do trabalhador, já que o preço coincide com o valor médio do ticket-refeição pago nas redondezas. O prato com salada, carne, arroz com feijão e macarrão ou batata frita – a gosto do freguês –, mais uma Coca-Cola, sai por algo em torno de R$ 18,00 (preço é de janeiro de 2018).

A partir do entardecer, começa a chegar a galera boêmia, formada principalmente por profissionais das áreas de cultura e comunicação. Alexandre ressalta que os dois públicos se misturam tanto de dia quanto à noite – em tempo, o bar funciona das onze horas da manhã até a meia noite. 

 Alexandre Kohls, o Alemão: "Um bar precisa ter o dono sempre por perto. Caso contrário, se descaracteriza" (Foto/Rua da Margem)

Alexandre Kohls, o Alemão: "Um bar precisa ter o dono sempre por perto. Caso contrário, se descaracteriza" (Foto/Rua da Margem)

Alexandre coloca os pontos nos is ao estabelecer o que há em comum entre os públicos diurno e noturno do botequim:

– O bar é frequentado por pessoas que apreciam os valores mais legais da vida, como autenticidade e simplicidade. Basicamente, é para quem curte um bar sem frescura.

A princípio, o que atraía o pessoal era a paixão pelo futebol, até em função da proximidade com o estádio Olímpico, antigo reduto do Grêmio – Alexandre é torcedor do tricolor gaúcho.

Música na calçada

Com o tempo, a música ao vivo se transformou no principal fator de atração do público, especialmente depois que foi lançado o projeto Música na Calçada, que reúne um público animado em frente ao bar todas as sextas-feiras, entre sete e dez horas da noite.

As atrações passeiam por entre gêneros variados, como MPB, rock, blues e jazz. Entre tantos nomes, já se apresentaram ali roqueiros como Júlio Reny e Márcio Petracco, figuras da cena do blues a exemplo de Gaspo Harmônica e Oly Jr., além de Santiago Neto, criador da banda Sombrero Luminoso. Sem esquecer a JazzGig, com standards do jazz e clássicos da música instrumental brasileira.

 Gaspo Harmônica no projeto  Música na Calçada  (Foto Maria Lima/Divulgação)

Gaspo Harmônica no projeto Música na Calçada (Foto Maria Lima/Divulgação)

Tudo isso não faria sentido algum se Alexandre não estivesse presente o tempo todo, prestando um atendimento personalizado aos clientes.

– Um bar precisa ter o dono sempre por perto. Caso contrário, se descaracteriza, recomenda.

Ele fala com conhecimento de causa. Afinal, está no ramo há bastante tempo.

Alexandre nasceu numa região que, originalmente, pertencia a Porto Alegre e hoje faz parte de Alvorada. Com a separação dos pais, se mudou com a mãe para Cachoeira do Sul, onde ficou até os 20 anos, quando se transferiu para Porto Alegre.

Até aí, a profissão do rapaz era a de mecânico de motocicletas. Não por muito tempo.

Na capital do Estado, passou a ajudar o pai, seu Otomar, que com o dinheiro de uma indenização trabalhista abriu um barzinho no Centro – o Siroco, na Rua Riachuelo, entre Doutor Flores e Vigário José Inácio, que está de portas abertas até hoje, agora nas mãos de outro proprietário.

Alexandre começou servindo as mesas do Siroco e, depois disso, nunca mais deixou de trabalhar em bares e restaurantes.

Há 14 anos, largou o avental de garçom para abrir o próprio negócio no Menino Deus. O nome do boteco surgiu espontaneamente. As pessoas convidavam umas às outras:

– Vamos tomar uma cerveja no bar do Alexandre?

Pegou, não teve jeito. Uma empresa de marketing consultada a respeito do assunto botou pilha para assumir logo o nome que, aquela altura, estava na boca do povo. Alexandre aceitou, a contragosto, afinal, não demonstra qualquer inclinação narcisista.

Telhados de Paris

Um dos clientes mais assíduos é o jornalista Nico Noronha, que também é compadre do dono da bodega – é padrinho de Antônia, filha de Alexandre com Mariana Silva Carlos, que foi vice-prefeita, secretária municipal e vereadora de Cachoeira do Sul.

Semanalmente, Nico escreve uma crônica sobre o bar do amigo, que posta na página do boteco no Facebook. Faz isso por prazer, sem compromisso ou obrigação.

Morador do Menino Deus desde a década de 1980, Nico lamenta que o bairro à noite tenha se transformado num “raio de silêncio”:

 Em 1957, a esquina alojava um armazém (Foto cedida por Cláudio Espolaoro, descendente dos proprietários, para o jornalista Nico Noronha)

Em 1957, a esquina alojava um armazém (Foto cedida por Cláudio Espolaoro, descendente dos proprietários, para o jornalista Nico Noronha)

– A vida noturna não existe mais aqui. O Bar do Alexandre é exceção. Graças a Deus, fica perto da minha casa.

Nico recorda que, nos anos 1970 e 1980, era possível varar a madrugada nas baladas do Menino Deus, em locais como a Looking Glass. Inaugurada em 1978 na Rua Marcílio Dias, a discoteca trazia novidades para a aldeia, como fumaça de gelo e luz estroboscópica na pista, sob a influência da novela Dancin' Days, de Gilberto Braga, que passava na Rede Globo. 

Para os adeptos da música nativista, existia o Recanto do Tio Flor como alternativa, com suas atrações gauchescas. 

O bairro também contava com churrascarias de renome, como a Itabira, na Getúlio Vargas, uma das raras casas a oferecer refeições até o amanhecer em Porto Alegre naquele tempo, como lembrou o jornalista Paulo de Tarso Riccordi, em artigo publicado no portal Coletiva.Net:

"Minha faculdade de jornalismo foi cursada de madrugada na Itabira, a churrascaria do sogro do Kenny Braga. (...) Cinco noites por semana, comíamos picanha com feijão mexido, regados com vinhos da Granja União, e contavam-se muitos causos, falava-se da vida e da política. Dezenas e dezenas de pautas foram produzidas ali, quando se fazia jornalismo com repórteres na rua e na estrada".

Um pouco depois, surgiu a Moenda, churrascaria frequentada por Nei Lisboa na época em que o cantor e compositor morava no bairro. Aliás, para quem não sabe, Nei compôs Telhados de Paris, uma de suas canções mais conhecidas, neste período, bem antes de efetivamente colocar os pés na capital francesa, o que só faria perto dos anos 2000.

– Eu morava num apartamentinho no Menino Deus que me parecia tão romântico quanto Paris. E da janela, eu via um casario com telhas francesas, então eram os telhados de Paris, contou ele, certa vez.

Território da Nega Lu

 Nega Lu, personagem célebre do bairro e da cidade (Foto/Acervo familiar com reprodução de Tânia Meinerz)

Nega Lu, personagem célebre do bairro e da cidade (Foto/Acervo familiar com reprodução de Tânia Meinerz)

Sem dúvida, a região onde se localiza o Bar do Alexandre é rica em histórias de um passado recente. Uma quadra e meia em direção à Avenida José de Alencar, está localizado o terreno em que nasceu a Nega Lu, célebre personagem da cena cultural e boêmia de Porto Alegre, que morou a vida toda na Rua Almirante Gonçalves – atualmente, a casa cedeu lugar a um prédio de apartamentos.

Bailarino e cantor dos corais da UFRGS e da OSPA, além de boêmio contumaz, Luiz Airton Farias Bastos (1950/2005), como estava escrito na certidão de nascimento, foi um homossexual negro que ganhou notoriedade como personagem irreverente e inovadora, capaz de antecipar em duas ou três décadas algumas das conquistas sociais e comportamentais que só viriam a se consolidar de verdade no começo do século XXI.

A Nega Lu foi, por sinal, madrinha e porta-estandarte da Banda da Saldanha, bloco carnavalesco que partiu, pela primeira vez, do Bar São Jorge, na Saldanha Marinho, para ocupar as ruas do bairro no dia 1º de janeiro de 1979. Hoje em dia, a banda é uma instituição consagrada do carnaval de Porto Alegre, dando nome a uma casa de espetáculos na Padre Cacique, próxima ao estádio Beira-Rio.  

Não dá para esquecer que, nas proximidades do Bar do Alexandre, mais precisamente na esquina da Getúlio Vargas com a José de Alencar, outro marco cultural da cidade se fez presente durante quatro décadas: o imponente Marrocos, um dos mais tradicionais cinemas da capital gaúcha.

Com 1.300 lugares, foi inaugurado em setembro de 1953 com a presença do então prefeito Ildo Meneguetti. Entre outros requintes, chamava atenção pela cobertura em formato de abóbada. No forro, pequenos pontos de luz simulavam um céu estrelado, criando um clima de fantasia nos minutos que antecediam a abertura dos filmes. Sinal dos tempos, o Marrocos fechou suas portas em 1994 para dar espaço a uma agência bancária.

Por essas e outras, botecos como o Bar do Alexandre são tão necessários. Eles preservam a magia e o encantamento da convivência entre os moradores do bairro. Sem frescura, diga-se de passagem.

Paulo César Teixeira