CB de bar em bar

Eternizadas na memória afetiva de Porto Alegre, as festas da Zazauera e do Atelier 5 marcaram a origem da boemia contemporânea da Cidade Baixa

Aglomeração em frente ao Atelier 5, em 2003: de vida efêmera, endereço do circuito underground deixou saudades na cena boêmia da capital gaúcha (Fotos/Arquivos Pessoais)

Aglomeração em frente ao Atelier 5, em 2003: de vida efêmera, endereço do circuito underground deixou saudades na cena boêmia da capital gaúcha (Fotos/Arquivos Pessoais)

Faz tempo que os bairros boêmios encantam – e incomodam.

No século IV a. C., o Cerâmico abrigava bares, oficinas de arte e casas de prostituição (feminina e masculina) na região localizada junto às muralhas de Atenas.

Frequentada por músicos, pintores, poetas e forasteiros, a área ficou marcada como um espaço privilegiado para a festa, a arte e os sonhos na Grécia Antiga. Ao mesmo tempo, também era palco de algazarras e desordens, que importunavam os atenienses da parte alta da cidade-estado.

Desde o Cerâmico, os bairros boêmios incomodam – e encantam.

No caso da Cidade Baixa, segundo bairro mais antigo de Porto Alegre (depois do Centro Histórico), desde o século passado a região abriga uma tradição boêmia representada por notívagos ilustres como Lupicinio Rodrigues. “Eu não sou músico, não sou compositor, não sou cantor, não sou nada. Eu sou boêmio”, declarou o maior expoente da música popular gaúcha ao jornal O Pasquim, em outubro de 1973.

A partir da virada do século XX para o XXI, com o refluxo da vida noturna no Bom Fim, a CB passou a ocupar o posto de bairro cult da capital gaúcha, território ocupado por tribos urbanas de diferentes matizes, fértil para a experimentação de novos comportamentos e atitudes.

Essa mudança está simbolizada numa cena anônima, desconhecida do grande público, mas decisiva para o novo cenário que se abria.

Ainda que seja difícil imaginar nos dias de hoje, a Rua João Alfredo acomodava apenas três bares – Oficina Etílica, Mercatto D’Arte e Ossip – nos primeiros anos da década passada. Pouca gente apostaria que, algum tempo depois, a antiga Rua da Margem seria um dos pontos de maior aglomeração durante a madrugada em Porto Alegre.

A situação começou a mudar quase por acaso. No verão de 2004, ao caminhar pelo bairro, o estudante de física da UFRGS Frederico Alabarse, o Fred Cabelo, observou os preparativos para a abertura de uma pizzaria na João Alfredo. O estabelecimento tinha um nome estranho: Nega Frida.

Fred Cabelo andava em busca de um lugar para promover eventos com um grupo de DJs com o qual tinha amizade. Resolveu entrar e propor ao proprietário que transformasse o local em casa noturna, com a realização de festas aos fins de semana. Adolfo Marina Filho, dono do Nega Frida, consentiu em dar um prazo de três meses – caso as festas não atraíssem público, retomaria o negócio da pizzaria.

As festas bombaram. E assim teve início a balada na Rua João Alfredo.

História em quadrinhos em material de divulgação de festa da produtora Artimanha de Bamba na primeira década do século XXI

História em quadrinhos em material de divulgação de festa da produtora Artimanha de Bamba na primeira década do século XXI

Em pouco tempo, novos bares se espalharam pelas casinhas (boa parte construída na primeira metade do século XX) da João Alfredo, com um atributo peculiar – ao invés do rock and roll, como no Bom Fim, os palcos e as pistas de dança celebravam a música popular do Brasil.

Um episódio curioso ilustra essa alteração da trilha sonora. No começo da década de 2000, quando um grupo de jovens DJs (agrupados no coletivo Zazauera) promoveu uma festa de música brasileira no Ocidente, ícone da boemia do Bom Fim há 40 anos, os rapazes ouviram o comentário sincero do proprietário Fiapo Barth:

— Adoro esse tipo de música, escuto sempre em casa, mas não é música de boate.

Apesar da desconfiança de Fiapo, em meados dos anos 2010 esse perfil de evento ganharia espaço na agenda do Ocidente com festas como Made in Brazil, dos DJs Manoel Canepa e Damon Meyer, e Tieta, da DJ Nanni Rios.

Além disso, uma das pistas mais animadas da festa Goodbye LENIN (outro ponto forte da programação do Ocidente), pilotada pelos DJs Joelma Terto e Lucas Pitta, também é de música nacional.

Fica a pergunta: como a capital mais roqueira do Brasil se transformou em reduto da MPB, pelo menos nos limites geográficos de seu bairro mais boêmio, a Cidade Baixa, na virada do século?

Festa no pátio de casa

A rigor, essa retomada da MPB nos anos 2000 tem como fonte de inspiração DJs como Kafu S., codinome de Jorge Luiz Silva Braga, que jamais abandonou o repertório de Jorge Ben Jor, Gilberto Gil e Tim Maia ao trabalhar nos bares Escaler e Cabaré Voltaire, nas décadas de 1980 e 1990. Igualmente, ele preservou a cadência do samba na Festa dos Signos, evento mensal que produziu de 1989 a 1996, e que chegou a reunir 1.500 pessoas numa só noite no clube Força e Luz, no bairro Santa Cecília.

Parte da mudança também havia sido anunciada, na saideira dos anos 1990, nas festas do Casarão da Biologia, perto do Viaduto Imperatriz Leopoldina (Avenida João Pessoa), no campus central da UFRGS. Nelas, os DJs dedicavam atenção especial à animação contagiante do forró e de outros ritmos nordestinos.

No início do ano 2000, uma parcela do público universitário migrou para as festas produzidas numa residência particular da Rua José de Alencar, no bairro Azenha. Ali havia se instalado uma comunidade formada pelo casal de bonequeiros Alberto Vermelho e Denis Moreira; o artista gráfico Luciano Laner, o Montanha; a pedagoga Janaína Silva dos Santos, a Jana; e a jornalista Kátia Marko, com a filha Manon, na época com cinco anos de idade.

Alguns dos residentes haviam participado da SOMA, uma terapia de grupo criada pelo psiquiatra e escritor Roberto Freire a partir das teorias de Wilhelm Reich. Freire propunha a formação de comunidades de autogestão, nas quais as pessoas pudessem desenvolver modelos libertários de convivência a partir das interações sociais do cotidiano.

Roda de capoeira na comunidade da Rua José de Alencar, que virou ponto cultural no ano 2000

Roda de capoeira na comunidade da Rua José de Alencar, que virou ponto cultural no ano 2000

A galera decidiu levar a sugestão ao pé da letra. Para isso, alugou a casa atrás do estádio Olímpico, antigo campo do Grêmio – em dias de jogos, o pátio virava estacionamento para ajudar a pagar o aluguel.

No quintal, também foram abertas oficinas de arte e de corte e costura, além de um escritório de jornalismo, já que um dos princípios da comunidade anarquista abarcava a produção coletiva.

— Hoje usam um nome bonito em inglês (coworking) para descrever o que fazíamos de modo espontâneo, prazerosamente, há quase 20 anos — diz Alberto Vermelho.

Um contratempo no dia da mudança fez com que uma nova fonte de renda fosse acrescentada – no trajeto, a geladeira quebrou.

A saída foi promover uma festa para pagar a geladeira nova. Para batizar o escarcéu, alguém lembrou do título de uma velha canção dos Mutantes – Meu refrigerador não funciona. A brincadeira deu o mote para nomear muitas festas que vieram depois, sempre usando músicas do agrado da comunidade, como A tribo toda em dia de festa (Nei Lisboa) e Música para ouvir, música para escutar, música para dançar (Arnaldo Antunes).

Eram festas fechadas, com entrada liberada só para amigos e amigos de amigos.

— Como a casa era nossa, só entrava quem a gente deixava, independente de pagar ingresso ou não — conta Vermelho.

Mesmo assim, chegavam a juntar até 150 pessoas, a maioria artistas e estudantes da UFRGS. Na pista improvisada no pátio, embaixo da parreira, a rapaziada sacolejava o esqueleto com Chico César, Lenine, Zeca Baleiro e Mestre Ambrósio, entre outros representantes da canção nordestina escolhidos a dedo pelos DJs convidados.

— Uma cultura do forró se espalhou pela cidade — anota Kátia.

Com o tempo, abriu-se espaço para shows ao vivo de bandas como Serrote Preto, que, por sinal, estreou no jardim da casa da José de Alencar. Havia também rodas de capoeira e cartomantes lendo o futuro nas mãos dos convivas, além de intervenções de teatro de rua – como durante a festa junina inspirada no romance A pedra do reino, de Ariano Suassuna, protagonizada por Heinz Limaverde, Rogério Lauda e Fernando Barbosa, o Kike, que incluía a encenação de um casamento na roça.

Assim, no alvorecer do novo século, a casa da José de Alencar virou um espaço cultural alternativo, além de “albergue” de mestres de capoeira, bandas e grupos de teatro de fora do Estado, que lá se acomodavam quando vinham para Porto Alegre. Nas edições do Fórum Social Mundial na cidade, as barracas tomavam conta do quintal para abrigar os hóspedes estrangeiros.

— A gente não seguia nenhuma teoria, só queria viver de maneira libertária e autêntica, com tesão e criatividade — explica Vermelho.

Zazauera, zazauera

Não é coincidência que algumas das figuras-chave da gênese da boemia contemporânea da Cidade Baixa tenham frequentado a casa da Rua José de Alencar. Em pouco tempo, estariam promovendo suas próprias festas no coletivo Zazauera (toque ou clique nas imagens acima para ver cenas das festas).

Uma delas é o DJ Fred Lima, paulistano que morou em diferentes cantos do Brasil, incluindo Porto Alegre, Foz do Iguaçu e Serra dos Carajás, por conta da profissão do pai, barrageiro em obras do governo.

Em São Paulo, fez parte do elenco de peças de teatro do dramaturgo e diretor Zeno Wilde, além de trabalhar no projeto Atitudes Musicais, da Secretaria de Cultura do Estado de SP, que promovia shows da vanguarda paulistana no circuito universitário.

— Colava cartazes dos espetáculos. Aí fui convidado a participar da produção de Itamar Assunção, Jards Macalé, Jorge Mautner, Chico César. De repente, estava frequentando as casas dessas pessoas.

Autógrafo de Jards Macalé para a galera da Zazauera

Autógrafo de Jards Macalé para a galera da Zazauera

Ele iniciou as atividades de DJ em 1999, aos 23 anos, quando retornou à capital gaúcha, com a festa Baseado na MPB, no Espaço Cultural Axé Bahia, na Rua José Bonifácio. Nesta época, também estava de volta à cidade o ator Plínio Marcos Rodrigues, porto-alegrense que havia se criado em São Paulo, onde conheceu Fred.

— Andávamos em SP com um pessoal intelectualizado, gente do meio teatral e da USP, que valorizava a MPB. Quando voltamos, achamos que a galera aqui só chacoalhava a cabeça. Faltava mexer os quadris — diz Plínio Marcos.

Nas baladas da Osvaldo Aranha, no Bom Fim, encontraram Manoel Canepa e Damon Meyer, que tinham em comum as “peladas” na cancha de areia da Praça Estado de Israel, no Menino Deus, e o hábito de gravar sequências musicais em fita K7 para animar as festas de garagem.

Damon trazia na bagagem uma formação roqueira, influenciado por uma caixa na qual o padrasto guardava vinis em casa. Eram discos de rock progressivo, como Black Sabbath e Deep Purple, mas havia também álbuns de Beatles e Rolling Stones. Quando passou a andar com Fred Lima e Plínio Marcos, trocou o rock pela MPB.

— Já me incomodava a postura ortodoxa do gueto do rock. A amizade com Fred era o que faltava para que mergulhasse na música brasileira — admite Damon.

A essa turma se agregou Frederico Cabelo, que convivia com Manu desde a adolescência nas redondezas do bairro Santana. Formou-se, então, um bando ansioso por novidades na cena boêmia e cultural de Porto Alegre.

— A gente tinha 20 e poucos anos e queria fazer coisas novas. A inspiração vinha da MPB do final dos anos 1960, principalmente do tropicalismo, não só musicalmente, mas também pela atitude — conta Fred Cabelo.

DJs como Damon Meyer compensavam com criatividade a precariedade técnica dos equipamentos

DJs como Damon Meyer compensavam com criatividade a precariedade técnica dos equipamentos

Foi quando passaram a promover festas no apartamento em que Plínio morava com o meio-irmão Rodrigo Lages, estudante de Psicologia da Unisinos, no edifício ao lado do bar Cotiporã, na Rua Lima e Silva. Nas noites mais animadas, meia centena de pessoas se espremiam no apartamento.

Invariavelmente, essas festas contavam com uma mistura inusitada de frequentadores.

Uma parte se sentia atraída pelo gingado do samba de Jorge Ben Jor & Cia, outra era formada por universitários das áreas de ciências humanas, particularmente psicologia, que adoravam debater as teorias do filósofo francês Gilles Deleuze.

O coletivo foi batizado de Zazauera, nome adaptado do título de uma canção de Ben Jor (Zazueira), por sugestão da atriz e cantora paulista Paula Pretta, que estava de visita ao apartamento do amigo Plínio Marcos.

Talvez a expressão que mais bem defina o ideário do grupo seja esquizosambarock, a qual sugere um improvável encontro de Ben Jor e Deleuze na Cidade Baixa. A palavra, que não consta no dicionário, remete tanto ao samba-rock, gênero musical brasileiro que se destacou nos anos 1960 e 1970, quanto à esquizoanálise, terapia explicitada por Deleuze e o psicanalista Félix Guattari no livro O Anti-Édipo – capitalismo e esquizofrenia, publicado em 1972.

A esse comitê bipolar formado por 17 pessoas, responsável pela organização das festas, somavam-se artistas de teatro, cinema, música e poesia.

— Eram pessoas vindas de distintas áreas, com abertura para diferentes linguagens, que se propunham a viver juntas uma utopia ativa — anota a terapeuta e professora de teatro Mariane Sobrosa.

— Havia uma libido criativa, propulsora, que ativava desejos — acrescenta a psicóloga Fabiane Borges, a Antenna Rush, nome que adotou após aprofundar a investigação sobre a relação entre arte e ciência espacial.

— Quando eu conheci o povo da Zazauera, o que mais me impressionou foram as razões pelas quais se faziam as festas: todos! Tudo era motivo para comemorar e, se não tivesse, inventava-se um qualquer — relembra Patrícia Duarte, servidora do Poder Judiciário.

Registro da manhã seguinte à festa na Mansão das Artes

Registro da manhã seguinte à festa na Mansão das Artes

Segundo a psicóloga Juli Farina, a Zazauera refletia também o momento especial de Porto Alegre no começo do século XXI. A circulação de pessoas de várias nacionalidades por ruas e bares, em função do Fórum Social Mundial, concedia à paisagem urbana um clima cosmopolita e inspirava novas ideias e comportamentos.

— Era como se a cidade quisesse olhar a si própria de outra maneira — diz Juli.

Ela conheceu Fred, Plínio e Rodrigo no bar Copão (em frente ao Cotiporã) e com eles estabeleceu imediata cumplicidade. Natural de Veranópolis, sentia-se uma “ET” na cidade-natal ao escutar artistas de vanguarda da MPB devido à falta de companhia.

Já ao se mudar para Porto Alegre, confessa que se entediava com o som ambiente de The Cure e outras bandas “sombrias” nos bares do Bom Fim.

— Sou uma guria do interior, descendente de italianos, que nunca me conformei em não ser brasileira — brinca, ao mesmo tempo falando sério.

No momento em que o apartamento da Lima e Silva começou a transbordar, incomodando os vizinhos, a Zazauera achou que era hora de fazer festa na rua. A primeira delas aconteceu no Namastê, centro de meditação e bioenergética da Rua da República. Era uma sexta-feira, dia 8 de dezembro de 2000.

— Ninguém esperava, mas lotou. Chegou a faltar cerveja. Aquilo deu impulso para as festas que vieram depois — relata Laírton Roleto Bitencourt, o Tom, que estudava engenharia mecânica na UFRGS.

Inventor de engenhocas que davam suporte técnico ao trabalho dos DJs ainda amadores, Tom é outro personagem-chave dessa história. A partir de aparelhos portáteis de CDs (discmans), agregados a componentes adquiridos em lojas de eletroeletrônicos da Rua Alberto Bins, ele criou um mixer caseiro para afinar a sequência de playlists, com direito a fader para aumentar ou diminuir com sutileza o volume de som.

— A traquitana tinha um palmo de tamanho, mas funcionava perfeitamente para a ocasião — conta Tom, que também atuava como DJ.

A festa da Zazauera que atraiu maior público foi realizada na Mansão das Artes, nas proximidades dos cemitérios do bairro Azenha, durante o I Fórum Social Mundial, em janeiro de 2001.

Zazauera em desconjunto, festa no Centro Cenotécnico: luminárias de Naco Guimarães, feitas de papel manteiga, com poemas de Telma Scherer

Zazauera em desconjunto, festa no Centro Cenotécnico: luminárias de Naco Guimarães, feitas de papel manteiga, com poemas de Telma Scherer

O nome – Não existe pecado ao sul do Equador (título de uma canção de Chico Buarque e Rui Guerra) – já era um convite aos gringos, mas o pessoal ainda caprichou na divulgação para atrair os participantes do Fórum.

Para começar, o material de propaganda era bilíngue (português e inglês) e continha um mapa com a indicação das paradas de ônibus que conduziam à Mansão das Artes.

Além da tradicional distribuição de flyers pelas calçadas da CB, foi feito um mutirão para divulgar o evento no Acampamento da Juventude. Não faltou participação dos promotores em programas da Ipanema FM.

O esforço não se deu em vão – 700 pessoas subiram a lomba dos cemitérios. 

Inesquecível também foi a Zazauera em desconjunto, festa de lançamento do livro de estreia da poeta Telma Scherer, em setembro de 2002 no Centro Cenotécnico do Estado – espaço de ensaio e formação artística demolido em meados da década de 2010 para a duplicação da Avenida Voluntários da Pátria.

Volta e meia, a música era interrompida para performances teatrais e malabares de fogo, ao ritmo da banda M16, que contava com o baterista (e futuro DJ) Manoel Canepa, ou para a entrada triunfante da bateria do grupo Afro-Sul Ọdọmodê.

Habituada a saraus com público restrito, em bares acanhados, Telma comemorou a acolhida da poesia num “cenário dionisíaco”:

— Aquele ambiente fugia ao lugar-comum do poeta solitário, não integrado ao elemento coletivo. Encontrei uma galera que entendia a minha língua.

O artista plástico Paulo Chimendes (de chapéu) na festa da Zazauera na Terreira da Tribo

O artista plástico Paulo Chimendes (de chapéu) na festa da Zazauera na Terreira da Tribo

Com o sol a pleno no céu, Patrícia Duarte (que fazia parte do staff da produção) guardou o dinheiro da bilheteria dentro de um estojo de lápis, antes de embarcar no carro de volta para casa.

Estavam todos felizes e satisfeitos com o sucesso do evento, de modo que quase não escutaram uma voz vinda do automóvel ao lado, no primeiro semáforo:

— Pessoal, tem alguma coisa em cima do capô.

Era o estojo de lápis. Patrícia rapidamente esticou o braço para fora da janela do carro e resgatou a grana da noite.

A Zazauera fez perto de uma dezena de festas em locais como Terreira da Tribo (antiga sede, no bairro Navegantes), Estaleiro Só (à beira do Guaíba) e Associação dos Funcionários do Serpro de Porto Alegre (na Avenida Augusto de Carvalho, ao lado do Galpão do IBGE). O prestígio da turma chegou ao auge ao ser convidada para animar a confraternização de despedida do governo de Olívio Dutra, nos jardins do Palácio Piratini, em dezembro de 2002.

Embora o movimento festivo fosse a coroação da convivência coletiva, a Zazauera também se reunia para grupos de estudo sobre filósofos como Deleuze (obviamente), Michel Foucault e Nietzsche, ou para debater a obra teatral de Chico Buarque e Oswald de Andrade.

O afã de colocar tudo em discussão – debatia-se, inclusive, se os improvisos tecnológicos de Tom deveriam ou não ser considerados obras de arte – gerou conflitos até chegar a hora inevitável em que Ben Jor e Deleuze brigaram. A essa altura, as divergências envolviam desde o papel das mulheres na organização coletiva até formas de remuneração aos artistas que participavam das festas, conforme Mariane Sobrosa e Antenna Rush.

— Ninguém era tosco intelectualmente, por isso, havia opiniões fortes. Como éramos jovens, sem um ponto de confluência ou uma liderança que manejasse os conflitos com sabedoria, o coletivo se desfez. Pessoalmente, fiquei com o sentimento de que a Zazauera poderia ter alcançado um patamar ainda mais elevado como manifestação cultural, se os conflitos tivessem sido mais bem administrados — diz Tom.

Atelier 5, uma lenda urbana

Casa da José do Patrocínio reunia “iniciados” de uma espécie de culto à festa

Casa da José do Patrocínio reunia “iniciados” de uma espécie de culto à festa

Dizem que, no passado, a casa da José do Patrocínio, nº 1056, defronte à Praça Garibaldi, havia sido uma pensão de gente pobre às bordas da Ilhota (conjunto de favelas que se espalhava na região até ser removido ao final da década de 1960).

— Era uma casa de quatro ou cinco cômodos, um atrás do outro, com corredor estreito e comprido. Aparentemente, não tinha qualquer condição de rolar uma festa ali dentro — diz Fred Lima.

Em que pesem as evidências, no começo do século XXI o Atelier 5 ganhou fama no boca-a-boca como espaço de festas e atividades culturais na Cidade Baixa. É verdade que teve uma aparição efêmera e fulgurante – com agenda fixa de eventos, durou de fevereiro a outubro de 2003, tempo suficiente para virar uma dessas lendas urbanas que, de quando em vez, se formam no imaginário de uma cidade.

Naco (de colete) no Atelier 5: “motivos do coração”

Naco (de colete) no Atelier 5: “motivos do coração”

— É um lugar do qual muito se fala, mas poucos conheceram de fato. Esses passaram para a história como sortudos e felizes iniciados de uma espécie de culto à festa — complementa Fred.

A bem da verdade, o Atelier 5 passou por duas fases.

Na primeira, serviu de moradia para Naco Guimarães e Jovi, como é conhecido o DJ Orley Barretos Medeiros. Por coincidência, ambos nasceram no Rio de Janeiro, embora só tenham se conhecido no Sul do Brasil. Por isso, botaram uma placa na porta – Consulado Carioca.

Só que a casa da José do Patrocínio ficou conhecida como Atelier 5 por ser o quinto espaço de produção artística aberto por Naco na cidade. Ele havia largado a faculdade de engenharia em 1987, quando se mudou para Porto Alegre, onde desenvolveu o talento para as artes visuais com Rodolfo Zupo (artista mineiro também radicado na capital gaúcha).

De sua parte, nascido no bairro de Marechal Hermes, um dos mais antigos do Rio, Jovi – o apelido é referência ao personagem Juvêncio, da novela Pantanal – está envolvido com música popular desde a infância.

A família morava em casas contíguas no subúrbio da zona norte carioca. Ali, Tia Shirley e Tio Pretinho brigavam quase todo o tempo. E a maneira que tinham de incomodar um ao outro era tocar na vitrola músicas em alto volume com algum desaforo ou provocação na letra. Ecoavam de uma casa para outra versos como Você com revólver na mão é um bicho feroz/Sem ele anda rebolando, de Bicho Feroz, de Bezerra da Silva.

Para Jovi, exceto a parte da hostilidade, a tarefa do DJ guarda semelhança com aquela situação familiar.

Fred Cabelo, produtor das festas da Zazauera, participou da primeira fase do Atelier 5

Fred Cabelo, produtor das festas da Zazauera, participou da primeira fase do Atelier 5

— Basicamente, animar uma festa é uma forma de comunicação. Gosto que as canções possam trazer alguma mensagem. Aquela coisa de ouvir uma música e sentir passar um filme na memória. Assim, espero contribuir com a história de cada um que está ali se divertindo na pista — esclarece ele.

Na época do Atelier 5, Jovi era servidor concursado do Dmae. Um tempo depois, abriu mão do emprego público para viver como DJ. O primeiro passo para isso foi dado na data de aniversário de Naco.

— Ele perguntou se eu estava a fim de cuidar do som da festa, já que passava o dia cantarolando e escutando música em casa. Respondi que nunca tinha feito isso, mas ele insistiu, garantindo que seria uma reuniãozinha restrita aos amigos. Só que vieram mais de 100 pessoas.

Diante do sucesso, os moradores do Atelier 5 passaram a fazer festas esporádicas, que ajudavam a pagar o aluguel. Além de cobrar ingressos, Naco aproveitava a ocasião para vender pinturas e desenhos a fim de engrossar o orçamento. Algumas vezes, depois de divulgar o festerê pela Cidade Baixa, desistiam momentos antes de abrir as portas. Então, apagavam as luzes e fingiam que não havia ninguém em casa.

— Certa vez, o Naco estava triste depois de terminar um namoro. Então, colocamos uma fita preta e amarela, dessas usadas para cercar o local do crime, e pusemos um aviso: “Interditado. Motivos do coração” — conta Jovi.

Nesta época, as festas do Atelier 5 contavam com a valiosa colaboração da turma da Zazauera, que Naco havia conhecido num encontro fortuito em algum bar da CB, numa terça-feira à noite.

— A Fabi (Antenna Rush) levou umas dez pessoas lá para casa. Eu me apaixonei na hora por aquela gente bonita — conta Naco.

Até que Naco e Jovi deram um tempo de Porto Alegre para morar em Alto Paraíso, em Goiás, perto da Chapada dos Veadeiros. É uma região de paisagens deslumbrantes, com belas cachoeiras e também cheia de comunidades alternativas adeptas de experiências esotéricas. A ideia da dupla era montar um bar lá, mas não deu certo. Quando voltaram ao Sul, Naco resumiu a decepção com a promessa de paraíso:

— Se cercar, é hospício. Se cobrir, vira circo.

Homem-aranha

Apesar de já figurar no roteiro de um círculo restrito de jovens, o Atelier 5 ganhou status de casa noturna num segundo momento, quando virou um local de festas e atividades culturais em definitivo. A programação de eventos foi assumida pelo DJ Fred Lima, Patrícia Duarte (que cuidava da administração e também vendia bebidas no balcão do bar) e Plínio Marcos, o mestre de cerimônias, que recebia as pessoas na porta.

O único morador era Naco, que – de volta do Centro-Oeste – jogou um colchão e as tralhas no sótão da residência.

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Às quartas-feiras, aconteciam saraus sobre temas da MPB. A comédia Eu sou vida, eu não sou morte, de Qorpo Santo, montada por Plínio Marcos, Clarice Nejar e Luís Fernando Xavier, ficou dois meses em cartaz num dos aposentos da casa.

Mas, sem dúvida, a principal atração do Atelier 5 eram as festas aos sábados. No cardápio, cachaça com mel (trazida do bar Tuim, na Ladeira) e caipirinha servidas em copos de plástico, além de cerveja, muita cerveja em lata.

Antes de cada noite de embalo, Plínio consultava um pai de santo “pros lados da Agronomia” para pedir proteção, afinal de contas, iriam trabalhar com bebida e dinheiro. Como se não bastasse, junto com Fred, ele depositava uma garrafa de cachaça com bolinho de carne moída para agradar o Exu na esquina da José do Patrocínio com a Olavo Bilac, diante do assombro da vizinhança.

Por volta das 9 da noite, Fred abria o set list com uma reza de batuque, recolhida de uma série de gravações de folclore religioso brasileiro editada pelo Instituto Itaú Cultural, o que fazia com que os primeiros fregueses imaginassem ter adentrado a festa errada. O culto aos orixás parece ter surtido efeito, tanto que não há registro de brigas ou confusões no Atelier 5, exceto aquelas escaramuças contidas pela turma do “deixa disso”.

Aliás, havia um policial civil entre os frequentadores habituais, que fazia questão de passar desapercebido. Na chegada, entregava o revólver para que Patrícia guardasse na gaveta da mesa do caixa, enquanto ele se divertia ao som de Cordel do Fogo Encantado, Comadre Florzinha, Chico Science, Baden Powell, Luiz Gonzaga e outros artistas do cancioneiro popular brasileiro. Ao final da festa, recolhia a arma e ia embora sem dar bandeira.    

Corredor do Atelier 5 no começo da balada

Corredor do Atelier 5 no começo da balada

No auge da noite, o corredor que se estendia de ponta a ponta da casa se tornava praticamente intransitável. As pessoas se acotovelavam para andar a passos lentos até a peça dos fundos, onde ficava a pista de dança.

Por sinal, uma das paredes do último cômodo foi posta abaixo a marteladas para ampliar o espaço dos dançarinos. As intervenções de arquitetura e design não pararam aí.

Naco criou um “banheiro alternativo e ecológico” na areazinha externa da casa. Em vez do vaso sanitário, havia uma cadeira sem assento, com um balde embaixo. Um caninho de plástico direcionava a urina até o ralo. No lugar da porta, uma canga azul transparente – sobra da montagem de Qorpo Santo – isolava o ambiente do resto da casa.

Era praticamente uma instalação de arte contemporânea. O melhor é que cumpria a finalidade de diminuir a fila do banheiro “oficial” da casa, destinado exclusivamente ao público feminino.

Quando a lotação ultrapassava 100 pessoas, a recomendação era a de fechar a porta. Mas o que fazer quando apareciam os amigos nessa hora?

Plínio os deixava entrar, junto com os clientes que já estavam na fila, para não causar rebelião popular. Pelo menos uma noite registrou a presença de mais de 200 frequentadores dentro da antiga pensão da Cidade Baixa.

A diversão só terminava às 6h, quando o DJ tocava uma sinfonia de Beethoven ou O trenzinho caipira, de Heitor Villa-Lobos. Era a senha, nem sempre cumprida, para que todos tomassem o rumo de casa. Patrícia recorda da cena bizarra de um sujeito que, para não ir embora, ancorava braços e pernas nas paredes do corredor, como se fosse o Homem-Aranha. Era preciso chamar o segurança para colocá-lo na calçada.

Ambiente caseiro: pista de dança ficava na peça dos fundos

Ambiente caseiro: pista de dança ficava na peça dos fundos

A festa acabou de vez quando, após três interdições da prefeitura devido a reclamações de vizinhos, o Atelier 5 fechou as portas. Saiu da cena boêmia para entrar na história do imaginário da noite porto-alegrense.

— O Atelier 5 foi a contravenção mais alegre do início do milênio — resume Juli Farina.

Depois disso, Fred Lima fincou âncora no Pé Palito, pub instalado num antigo brique de móveis, com cadeirinhas e luminárias penduradas no teto, que dominou a balada da João Alfredo na segunda metade da década de 2000.

Fred Cabelo, Naco, Jovi e Damon (mais tarde, com a adesão de Manoel Canepa e Plínio Marcos) fundaram a produtora Artimanha de Bamba, que chegou a produzir cinco baladas por semana em meados dos anos 2000, em bares da CB como Escambo (Rua Luís Afonso), A Toca (Lima e Silva), Mr. Dam (José do Patrocínio) e Abstratus (Octávio Corrêa).

No Nega Frida, onde começou a balada da João Alfredo, Naco tinha o costume de montar um andaime para improvisar um atelier nas alturas – passava a festa desenhando nas paredes. Havia também projeção de filmes (até Império dos Sentidos, clássico erótico japonês com cenas de sexo explícito, para desespero do dono do bar), dando continuidade à ideia de juntar arte e diversão num só espaço, herança dos tempos da Zazauera.

Assim, após a dissolução da Zazauera e o fechamento do Atelier 5, a atmosfera de sonho e encantamento do princípio do século na CB se disseminou por todo o bairro, transformado com todas as honras no ponto boêmio contemporâneo de Porto Alegre.

Trincheira do rock

Engana-se quem pensa que, nos primeiros acordes do século XXI, os roqueiros tenham se submetido de modo inapelável ao suingue da MPB na Cidade Baixa. Havia trincheiras escavadas em bares pequenos e aconchegantes, habitados especialmente pela galera do rock indie ou eletro rock.

Uma delas era o Psicoarte, que apareceu em cena em 2001 ocupando uma casinha da Rua Lima e Silva. A proposta era ecoar a “poluição sonora do rock”. a qual andava desaparecida na Cidade Baixa, conforme Tom Gaston, responsável pelo bar com os sócios Robson Soletti e Isabel Tombini,

— Os espaços estavam dominados pela MPB. Era como se quem gostasse de rock tivesse de pedir licença para entrar — comenta Tom.

Ponto alternativo da CB em 2001

Ponto alternativo da CB em 2001

Não demorou para o Psicoarte virar ponto alternativo de artistas que trabalhavam com música, artes plásticas, fotografia, cinema, teatro e malabarismo circense.

Além de bar, operava também como estúdio de moda, fotografia e corte de cabelo. O próprio Tom trabalhava como cabelereiro durante o dia e, quando o sol se punha, ia servir bebidas atrás do balcão.

Como a maior parte dos bares do roteiro underground, o melhor sempre ficava para depois da meia-noite. Um dos clientes que batia ponto nas altas horas da madrugada era o cineasta de animação Otto Guerra.

— Foi um daqueles bares de brilho intenso e rápido, um flash na minha vida. Eu estava no auge das noites viradas e ele estava ali, o bar certo na hora certa — conta Otto.

Uma madrugada em especial ficou marcada entre as evanescentes lembranças de Otto.

Como de hábito, ele estacionou o Celta preto em frente ao Psicoarte, já depois das 2 horas. Passado um tempo, o burburinho das conversas entrecortadas por risadas foi abruptamente interrompido por um estrondo vindo do lado de fora do bar.

Otto correu até a janela e viu uma bola de fogo ardendo na esquina da Lima e Silva com a Rua Lopo Gonçalves, poucos metros adiante. Algum maluco em alta velocidade havia dado uma bordoada na traseira do Celtinha. O que sobrou do carro se espalhava pela pista. envolto em fumaça. Menos mal que a placa ficou intacta, o que facilitou o trabalho da seguradora.

— Vão-se os carros, ficam as bebedeiras — consola-se Otto.

onde andam

Fora do Brasil desde 2009, Fred Cabelo concluiu doutorado na Universidade de Montpellier, na França, e hoje reside em Trieste, na Itália, onde trabalha num acelerador de partículas subatômicas. Para matar a saudade de casa, toca saxofone num projeto de chorinho, bossa-nova e samba.

Tom (Laírton) e Antenna Rush (Fabi Borges)

Tom (Laírton) e Antenna Rush (Fabi Borges)

De volta à terra natal desde 2012, Fred Lima se transformou em DJ atuante na cena paulistana com festas como Realce e Marimbondo Sound System. Em tempos de pandemia, cozinha deliciosas lasanhas com a companheira Patrícia Cestari da Costa no projeto Cozinha PF.

Plínio Marcos se mudou para o Rio de Janeiro. É professor de Teatro e Arte da Fala da Escola Waldorf Michaelis.

Antenna Rush reside em São Paulo e é responsável pela SACI, plataforma de pesquisa em arte e cultura espacial do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Mariane Sobrosa e Tom (Laírton Bitencourt) foram casados durante duas décadas e tiveram uma filha, Antônia, hoje com 4 anos. Atualmente, vivem em Indaiatuba (SP). Ela é terapeuta de bioenergética (linha reichiana) e ele atua numa empresa que produz equipamentos industriais.

Manu Canepa, Fred Lima e Naco Guimarães

Manu Canepa, Fred Lima e Naco Guimarães

Radicada em Florianópolis, Patrícia Duarte é funcionária do Poder Judiciário. Telma Scherer é outra que vive na capital de Santa Catarina. Ela dá aulas de Literatura Brasileira na UFSC. Já a psicóloga Juli Farina tem consultório em Porto Alegre.

Tom Gaston ficou um tempo em SP, onde participou da ocupação urbana Ouvidor 63. Hoje, trabalha com moda e cabelo em Florianópolis.

Manoel Canepa é DJ da festa Brazuca na noite porto-alegrense, junto com Damon Meyer, que também organiza feiras de vinis para colecionadores.

Jovi passou em concurso do Instituto do Meio Ambiente de SC e mora em Florianópolis. Para não perder o hábito, continua exercendo o ofício de DJ na ilha, em locais como Serafim, Casa do Sambaqui e Mangue Elétrico (antiga Casa de Noca).

Há 12 anos, Naco Guimarães vive em Ibiraquera, no litoral catarinense, onde trabalha com arte em madeira e cuida do jardim de três casinhas de sua propriedade, que aluga no verão.

— Hoje mesmo passei o dia identificando as orquídeas que vão florir pela primeira vez na primavera deste ano. Estou faceiríssimo — conclui ele.

(*) reportagem produzida com apoio do EDITAL Nº 01/2020 - UNIVERSIDADE FEEVALE/SEDAC RS FINANCIAMENTO DE PROJETOS CULTURAIS DIGITAIs-FAC DIGITAL RS

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Paulo César Teixeira