Hotel de arte e história

Restauração de Casarão quase centenário na Praça da Matriz mostra como reaproveitar o patrimônio histórico sem trair a beleza do passado

 A escadaria da casa construída nos anos 1920: reforma preservou atributos originais do prédio (Fotos de Vera Carlotto/Divulgação Hotel Praça da Matriz)

A escadaria da casa construída nos anos 1920: reforma preservou atributos originais do prédio (Fotos de Vera Carlotto/Divulgação Hotel Praça da Matriz)

Uma surpresa aguarda o visitante que sobe a escada lapidada em mármore do palacete quase centenário do Hotel Praça da Matriz. No espelho fixado no alto da escadaria, saltam aos olhos, imponentes, o Palácio da Justiça e o Theatro São Pedro, tal como se mostravam à vista de quem os observasse da calçada em frente ao edifício, no longínquo ano de 1928, data de inauguração do casarão.  

Não é ilusão de ótica. O espelho apenas reflete a imagem dos prédios antigos revividos pela artista plástica Vera Carlotto com a técnica de fotopainting em tela fixada na parede oposta.  Reaberto em julho de 2016, após obra de restauração que demorou cinco anos, o hotel é um exemplo perfeito de como é possível preservar o patrimônio histórico da cidade e dar-lhe novas aplicações sem trair a beleza do passado.

A casa localizada no Largo João Amorim de Albuquerque, junto à Praça da Matriz, foi construída pelo engenheiro alemão Alfred Haesler a pedido de Luiz Alves de Castro, primeiro morador, um dos personagens mais controversos da capital gaúcha no começo do século passado. Capitão Lulu, como ficou conhecido, havia se transformado num cidadão endinheirado como proprietário do Club dos Caçadores, um misto de cabaré e cassino que funcionava a poucos metros de sua residência, mais precisamente na Rua Andrade Neves, ao lado do Beco do Leite (ou Beco do Mijo), um corredor fétido que descia em direção à Rua da Praia.

Apesar da grana no bolso, Lulu não era bem aceito entre as elites não só por conta de suas atividades profissionais como “explorador de jogo”, mas também devido à origem humilde – consta que teria começado como promotor de jogo do osso, na Cidade Baixa, onde se criou. Para demonstrar status à alta sociedade porto-alegrense, ergueu um castelo suntuoso no epicentro político, jurídico e religioso do RS com materiais importados – o sistema de aquecimento de água, só para dar um exemplo, veio da França, sem falar em mármores e vitrais.

 

Ministério do Carvão

Em 1949, o prédio foi adquirido pelo português Antonio Fernandes Patrício, sogro da atual proprietária Ilita da Rocha Patricio, que administra o hotel com as filhas Cristine e Cláudia. O marido, Marco Antônio Patrício, faleceu três meses antes da conclusão da reforma.

– Quando comprou o imóvel, a ideia de meu sogro era derrubar para erguer um prédio de apartamentos, mas em seguida ele adoeceu e veio a falecer. O tempo foi passando e a família não teve coragem de demolir. Por detalhes dessa vida, a casa foi ficando e a gente se apegando a ela.

Por mais de meio século, a família alugou o casarão para angariar renda. Pela proximidade com o coração político da cidade, abrigou repartições públicas como polícia civil, Ministério Público e até um tal de Ministério do Carvão. Em 1976, nas mãos de um inquilino particular, o desenho arquitetônico foi alterado para que se transformasse em hotel, onde se hospedavam desde prefeitos e vereadores que vinham à capital do Estado para reuniões no Palácio Piratini ou na Assembleia Legislativa (como, aliás, acontece até hoje) até figuras populares a exemplo de Terezinha Morango, torcedora-símbolo do Internacional, uma moça desinibida que assistia aos jogos no Beira-Rio com batom espalhafatoso e uma faixa de miss no peito. O blogueiro José Luiz Prévidi recorda as aparições de Terezinha “numa pequena sacada, abanando para os amigos e fãs” na década de 1980.

Em 2011, Ilita decidiu retomar o imóvel incentivada por Cristine, filha mais velha, que estava de volta à cidade depois de estudar hotelaria na Alemanha. A reforma saiu graças ao financiamento de R$ 1,4 milhão, concedido com juros subsidiados pelo BNDES para obras que ajudassem a promover a Copa do Mundo de 2014. Foram cinco anos de poeira, burocracia e desânimo…

– Às vezes, pensava em botar tudo abaixo e abrir logo um estacionamento.

 Parte do acervo que estava em condições adequadas pôde ser reaproveitada. Em outros casos, foi preciso pedir ajuda de especialistas para restaurar as peças.

Parte do acervo que estava em condições adequadas pôde ser reaproveitada. Em outros casos, foi preciso pedir ajuda de especialistas para restaurar as peças.

Mãos de anjo

A persistência superou os obstáculos. Por milagre, parte do acervo estava praticamente intacta. “As peças de metal, por exemplo, se encontravam em ótimo estado, tanto que bastou pintá-las”, comenta Ilita. Portas e lustres em condições adequadas também puderam ser reaproveitados, bem como os tijolos de vidro no piso do andar térreo, que permitem a passagem de luz para iluminar o subsolo.

Em outros casos, foi preciso pedir ajuda de especialistas como César Führ, restaurador de Morro Reuter, que deu vida nova às peças de madeira avariadas. “Ele tem mãos de anjo”, elogia a proprietária do hotel. César restaurou, inclusive, uma mesa centenária trazida de um antiquário para fazer o papel do tradicional balcão da recepção, instalada na antiga garagem. A sugestão partiu de um amigo de Ilita, o pintor Vitório Gheno, de 93 anos, com a intenção de dar uma atmosfera mais aconchegante ao espaço.

Aliás, um verdadeiro mutirão de personalidades ligadas às artes plásticas contribuiu para o projeto de restauração do hotel. Outro exemplo? Um dos vitrais do segundo andar reproduz a figura de um pavão – pena que um dos inquilinos havia arrancado a metade inferior da peça para implantar uma janela basculante. Que sacrilégio! Com a colaboração de José Luiz do Amaral, crítico e professor de arte, ex-curador do MARGS/Museu de Arte do RS, Ilita encontrou um desenho que se encaixou com perfeição na parte danificada do vitral.

– Cada vez que eu olho, percebo que não é o vidro original. Mas quem é leigo nem se dá conta, diz Ilita, bem-humorada.

Já o corrimão da escada que leva ao último andar exibe sem cerimônia as partes que foram restauradas numa cor mais branda. A intenção é justamente destacar o que não é original – uma questão de transparência e honestidade. O hotel é um achado também para quem aprecia a história do design, como provam as duas cadeiras Wassily, modelo de poltrona premiado na Alemanha em 1927, acomodadas no grande salão.

Como enfeite, uma central telefônica dos anos 1940 ocupa lugar próximo a uma lareira decorativa original da casa – não acende com fogo, apenas se ilumina com lâmpadas. Já a mesa de estilo contemporâneo, coberta com catálogos de exposições de arte em cartaz na cidade (sugestões de passeios aos hóspedes), está ali como contraponto para estabelecer um diálogo entre presente e passado.

 Piso de parquet restaurado, cadeiras Wassily (modelo premiado na Alemanha em 1927) e mesa de design contemporâneo no salão principal

Piso de parquet restaurado, cadeiras Wassily (modelo premiado na Alemanha em 1927) e mesa de design contemporâneo no salão principal

Aquarelas e grafites

Essa familiaridade com artistas e a história da arte não é casual. Assistente social que trabalhou durante 25 anos no Hospital Psiquiátrico São Pedro, Ilita é presidente da Associação de Amigos do MARGS, cargo que ocupará até junho de 2018. Aposentada, divide o tempo entre duas paixões – pela manhã, trabalha no hotel e, à tarde, dá expediente no museu.

Não é de surpreender também que tenha aberto espaço para cerca de 30 obras de artistas gaúchos, que se espalham por todos os cantos do charmoso hotel, até nas portas dos banheiros, que – ao invés de vetores de gênero –, mostram desenhos em nanquim de Alexandre Carvalho, com figuras masculinas e femininas trajadas de acordo com a moda da década de 1920.

Num dos jardins internos, o grafite de Lucas Anão embeleza uma prosaica caixa d’água ali instalada. E, nos quartos, há aquarelas de Flávio José Prenna, pinturas em tinta acrílica sobre tela de Ilda Anders Appel e xilogravuras de Luiz Carlos Moura, entre tantas outras obras. As peças estão expostas não só para hóspedes, mas também para visitantes por meio de agendamento prévio. As visitações podem ser agendadas pelo telefone (51) 32248872.

Atualmente, o Hotel Praça da Matriz conta com um perfil de hóspedes composto em sua maior parte por políticos, comerciantes e turistas estrangeiros. “Visitantes do Exterior preferem hotéis de menor porte em função do atendimento personalizado”, explica Ilita. Outra classe assídua de clientes é a dos artistas que se apresentam no Theatro São Pedro. Não é raro esbarrar em atores globais como Marcos Caruso, Eriberto Leão, Carmo Dalla Vecchia, Alexandre Nero e Leticia Spiller pelos corredores. Não bastasse o conforto de hospedá-los a poucos metros do palco em que deverão atuar, as produtoras ganham descontos nas diárias em troca da divulgação da marca do hotel.

Em meio ao movimento de hóspedes, passado e presente convivem diante espelhos, vitrais, sacadas, escadarias e obras de arte, como um exemplo de respeito à história de Porto Alegre, que deveria ser copiado e difundido por todos os cantos da cidade.

Jogo do Osso – O osso de garrão de boi é arremessado sobre uma cancha plana e, dependendo da forma como cair, são contabilizados pontos positivos ou negativos. O jogo tem origem asiática e chegou à Bacia do Prata pelas mãos dos espanhóis antes de ser introduzido no RS.

 Espaço para o café da manhã no andar térreo

Espaço para o café da manhã no andar térreo

Luisa Rosa