Salve o viaduto

Rede Minha Porto Alegre se mobiliza para transformar arcos e escadarias da borges num espaço de convivência mais seguro e acessível para todos

 Viaduto Otávio Rocha, no Centro Histórico: desafio de recuperar cartão-postal da capital gaúcha, que hoje reflete a violência e a desigualdade social (Foto Alexandre Kupac)

Viaduto Otávio Rocha, no Centro Histórico: desafio de recuperar cartão-postal da capital gaúcha, que hoje reflete a violência e a desigualdade social (Foto Alexandre Kupac)

Quase todo mundo conhece como Viaduto da Borges, mas o nome oficial é Viaduto Otávio Rocha.

Tombado pelo patrimônio histórico em 1988, ainda é um dos cartões-postais de Porto Alegre, apesar de sofrer com o descaso do poder público e se constituir num retrato da violência e da desigualdade social dos tempos atuais.

Tanto que a Minha Porto Alegre – rede apartidária e independente, que atua pela construção de uma cidade mais inclusiva e sustentável – está chamando a população para conversar sobre as formas de viabilizar melhorias neste logradouro histórico.

A primeira reunião pública, aberta a todos os interessados, aconteceu na segunda-feira, dia 16/7, no bar e restaurante Justo, nas escadarias do viaduto. A ideia é que tenha sido o primeiro de uma sequência de encontros, dando início a uma campanha de mobilização para transformar a área num espaço de convivência animado, seguro e acessível a todos os porto-alegrenses. 

– Não temos respostas prontas, mas entendemos que é preciso agir com urgência para melhorar um local que é símbolo da capital dos gaúchos, diz Carolina Soares, a Sosô, psicoterapeuta que fundou a Minha Porto Alegre há dois anos com o economista Bruno Paim.

No dia 1º de agosto, uma ação realizada pela Brigada Militar e o DMLU Departamento de Mobilidade e Limpeza Urbana) dispersou cerca de 40 pessoas que estavam morando embaixo do viaduto, retirando colchões, barracas e demais objetos pertencentes aos moradores de rua. Sobre essa ação, a Minha Porto Alegre divulgou o seguinte comunicado:

"Para onde foram essas pessoas? Quais as necessidades delas foram atendidas? Quais estratégias para que a qualidade de vida delas melhore foram aplicadas? Problemas complexos envolvem uma série de providências, não só uma retirada brusca pela BM. 40 pessoas moravam ali. Seres humanos. Adoraríamos que a escadaria fosse um local seguro e limpo, mas sem o custo de invisibilizar pessoas que precisam de ajuda. Aplaudiriamos a ação, se com transparência tivessem posto os próximos passos para acolher essas pessoas que também são Porto Alegre".

 Viaduto da Borges recém inaugurado, na década de 1930 (Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo/Autor desconhecido)

Viaduto da Borges recém inaugurado, na década de 1930 (Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo/Autor desconhecido)

Becos íngremes e escuros

Essa parte do Centro Histórico está intimamente ligada à memória da cidade.

A Avenida Borges de Medeiros começou a ser projetada na década de 1920, mas estava prevista já no primeiro Plano Diretor de Porto Alegre, datado de 1914, para ligar a área central às regiões leste e sul da municipalidade.

Para construí-la, havia que se ultrapassar a barreira do “morrinho” em cujo ápice se esticava a Rua Duque de Caxias. O desafio de superar o obstáculo natural fez surgir o primeiro viaduto da capital do RS.

No mapa do Centro, a Borges de Medeiros tinha como antecedente a Rua General Paranhos, “estreito beco que subia desde a Rua Andrade Neves até a Rua Duque de Caxias e dali descia em outra fortíssima ladeira até a Rua Coronel Genuíno”, como assinala o Guia Histórico de Porto Alegre, de Sérgio da Costa Franco.

Cá entre nós, a General Paranhos não guardava boa fama.

Além de “mortalmente prejudicada pela topografia”, tinha outros atributos pouco recomendáveis – “nos últimos tempos de vida, se transformara em foco de crimes e prostituição”, anota Costa Franco.

Assim, a construção da Borges de Medeiros fazia parte de um plano de remodelação urbana que converteria a região central num canteiro de obras, abrindo espaço para que vias largas de tráfego – denominadas boulevards – tomassem o lugar de becos escuros e íngremes.

O artífice dessa mudança cirúrgica foi o intendente Otávio Rocha, que governou a cidade – na época com cerca de 200 mil habitantes – de 1924 a 1928. Não à toa, é quem empresta o nome para a denominação oficial do viaduto.

Segundo o Guia Histórico de Porto Alegre, num relatório de 1925, Otávio Rocha citou a intenção de construir um “viaduto de cimento armado, em arco batido, por onde se fará a passagem da Rua Duque de Caxias”.

O documento previa também que, pela avenida de 21 metros de largura e 1.050 de comprimento, circularia “uma linha dupla de bondes, em comunicação com a Avenida do Porto (atual Avenida Mauá)”.

– É uma obra de grande relevo, que vai encurtar o trajeto para todas as linhas de comunicação dos arrabaldes Menino Deus, Glória, Teresópolis e Partenon, prometeu o intendente.

O Viaduto Otávio Rocha ficou pronto em 1932, já na gestão de Alberto Bins na intendência municipal. A obra foi executada pela empresa alemã Dyckerhoff & Widmann, de acordo com o projeto dos engenheiros Manoel Barbosa Itaqui e Duílio Bernardi, com elementos ornamentais do escultor Alfredo Adloff.

A Borges de Medeiros demorou um pouquinho mais – até 1935 – para ser entregue à população, entre outras coisas, devido a uma discórdia acerca do valor da desapropriação de um imóvel situado na esquina da Rua Jerônimo Coelho.

Abaixo, veja fotografias da construção da Borges de Medeiros e, a seguir, imagens da avenida em suas primeiras décadas de existência (Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo/Autores desconhecidos)

Caminho do Bem

Ao longo do tempo, o viaduto passou a abrigar bares, lanchonetes, barbearias, agências lotéricas, relojoarias e lojas de artesanato, além de casas para a venda de discos e fitas, artigos religiosos e até produtos para mágicos.

Atualmente, conta com cerca de 30 pontos de comércio. Além do Teatro de Arena, reduto histórico da arte de protesto no RS (fundado em 1967), a programação cultural de bares e restaurantes como Tutti Giorni, Armazém Porto Alegre e Justo contribui para incentivar a circulação de pessoas. 

– As ações culturais ajudam a dar vida e segurança às escadarias. As pessoas se sentem estimuladas a se apropriar de um espaço que, a bem da verdade, sempre foi delas, salienta a fundadora da Minha Porto Alegre.

Desde janeiro, o escritório da rede funciona numa pequena sala cedida pelo Justo. Essa proximidade motiva ainda mais a ONG a melhorar as condições das escadarias. 

Como se isso não bastasse, há também um componente autobiográfico: Carolina morou boa parte da infância na Rua Duque de Caxias. Aliás, o ímpeto de solucionar demandas coletivas é de família. A avó Nair foi quem se mobilizou para que a prefeitura implantasse três faixas de segurança para pedestres na Duque de Caxias, nas imediações do viaduto.

– Ela telefonou diariamente para a EPTC até conseguir, revela Carolina, orgulhosa.

Na folha de serviços prestados à cidade, a Minha Porto Alegre contabiliza 15 mobilizações que atingiram seus objetivos, nas quais estiveram envolvidas perto de 10 mil pessoas.

Um exemplo é a escadaria da Rua João Manoel, também no Centro Histórico, que há dois anos se encontrava em situação de completo abandono. Lá, a Minha Porto Alegre chamou moradores, além de responsáveis por hortas comunitárias e artistas que vivem no local, para promover um movimento de reocupação da área.

– Quem passar ali hoje vai ver crianças brincando e velhinhas tomando chimarrão, inclusive à noite. Por que não pode acontecer algo semelhante no Viaduto da Borges?, indaga Carolina, com otimismo.

Outra mobilização bem sucedida foi a campanha para a instalação de um semáforo na esquina da Rua Miguel Couto com a Dona Augusta, no Menino Deus, onde havia frequentes acidentes de trânsito. A ação foi realizada em 2015, em parceria com a ONG Vida Urgente e a associação de moradores do bairro.

De lá para cá, ninguém mais perdeu a vida naquele cantinho do Menino Deus.

– Quando me sinto desanimada por algum motivo e preciso me reerguer, abro as estatísticas para confirmar que, naquela esquina, não houve mortes desde a mobilização. Isso me dá uma tremenda alegria, diz Carolina, que é bastante sensível ao tema devido à morte por atropelamento do irmão Rafael em outra região da cidade, em tempos passados.

 Carolina Soares, a Sosô, fundadora da Minha Porto Alegre: ativismo apartidário em favor de uma cidade mais inclusiva e sustentável

Carolina Soares, a Sosô, fundadora da Minha Porto Alegre: ativismo apartidário em favor de uma cidade mais inclusiva e sustentável

Em 2018, graças a uma campanha liderada pela Minha Porto Alegre, o termo “feminicídio” passou a ser incluído nos registros policiais no RS.  A tipificação do crime foi adotada com o objetivo de dar maior visibilidade aos casos de assassinatos de mulheres.

A Rede criou ainda uma plataforma colaborativa para oferecer apoio psicológico sem custos para mulheres vítimas de violência sexual, com a ajuda de aproximadamente 450 terapeutas voluntários de dez cidades brasileiras.

Em paralelo, instituiu o Caminho do Bem, roteiro de iniciativas voltadas para os moradores de rua de Porto Alegre, com serviços de alimentação, albergues, abrigos, centros de atendimento social e programas culturais.

Entre outros benefícios, a iniciativa possibilitou equilibrar geograficamente a oferta de atendimento – em alguns bairros, havia superposição de grupos de apoio em ação, ao passo que, em outras regiões da cidade, existia pouca ajuda à população sem teto. 

No caso do Viaduto da Borges, uma das dificuldades mais graves é a falta de acessibilidade, especialmente levando em conta a quantidade de idosos que mora nas redondezas. Outra preocupação é a segurança, especialmente à noite, sem contar a condição de vida de aproximadamente 40 moradores de rua que estão instalados sob os arcos do viaduto. 

– Todas as questões são bastante complexas. Eu aqui sentada no escritório não vou conseguir resolver nenhuma delas. Por isso, a proposta é chamar as pessoas e escutar as demandas para que, juntos, possamos encontrar as melhores soluções, conclui Carolina.