Carteiras (quase) de papel

linha de produção com material sintético inovador desafia padrões da indústria da moda

 Com estampas criadas por artistas e designers independentes, os produtos são feitos com fibra sintética que combina propriedades de leveza, resistência e durabilidade (Fotos/Divulgação)

Com estampas criadas por artistas e designers independentes, os produtos são feitos com fibra sintética que combina propriedades de leveza, resistência e durabilidade (Fotos/Divulgação)

As carteirinhas são leves e finas, como se fossem de papel. Só que não!

– Se pegar na mão, vai dizer que é papel, mas é bem mais que isso, esclarece Guilherme Messena, um dos sócios da Dobra, empresa com sede em Montenegro.

Não só carteiras, mas também portas-passaporte, tênis e camisetas que saem da linha de produção da Dobra são feitos com um material muito parecido com papel tanto na aparência quanto na espessura. Na realidade, a matéria-prima é uma fibra sintética – denominada Tyvek – fabricada desde a década de 1950 pela DuPont, gigante do setor químico, com aplicação em diferentes setores da economia.

Na construção civil, por exemplo, é usada para impermeabilizar telhados e coberturas. Já na indústria química, compõe os modelos de roupas utilizadas em ambientes tóxicos. Até no espaço sideral está presente desde que a NASA passou a empregá-la como embalagem de alimentos e medicamentos destinados aos astronautas.

Na indústria da moda, é bem verdade, só entrou em cena há cerca de 15 anos, graças a qualidades intrínsecas do material. Apesar da leveza e finura, a fibra produzida a partir de polietileno de alta densidade não rasga com facilidade e tampouco estraga em contato com a água.

 Guilherme (à esq.) e Eduardo, primos e sócios da Dobra, que nasceu num projeto em sala de aula e deverá faturar R$ 3,5 milhões em 2018

Guilherme (à esq.) e Eduardo, primos e sócios da Dobra, que nasceu num projeto em sala de aula e deverá faturar R$ 3,5 milhões em 2018

Pioneira na aplicação da Tyvek para a produção em larga escala de artigos de moda no Brasil, a Dobra é uma concepção dos irmãos Guilherme, de 24 anos, e Augusto Messena, de 20, em combinação com o primo Eduardo Hommerding, de 27, todos nascidos e criados em Montenegro.

Guilherme se formou em Gestão Para Inovação e Liderança, na Unisinos, em 2015, mesmo curso que Augusto agora frequenta. Já Eduardo é formado em Administração de Empresas, também na Unisinos.

A ideia do negócio surgiu, aliás, em sala de aula. Em 2013, Guilherme e seus colegas de curso foram desafiados pelos professores a criar um produto sustentável e lucrativo.

– Quando o Eduardo soube do projeto, não sossegou enquanto não convenceu a gente a tocar o empreendimento.

A iniciativa é inovadora já na modelagem do negócio, na qual “o produto é o de menos”, de acordo com Guilherme:

– Não vendemos carteiras, e sim experiências de vida. Na verdade, cuidamos de cada detalhe do negócio para fazer da compra um acontecimento inesquecível, acrescenta o empreendedor.

 Batman, o "diretor de atendimento" da Dobra

Batman, o "diretor de atendimento" da Dobra

A busca de aproximação com o cliente, "como se ele fosse um amigo de bar", se dá mediante a fixação de uma comunicação fácil e direta pelo site – único canal de vendas, já que a Dobra não possui loja física.

A conexão com o público é intermediada por um agente de contato especial, o Batman, nome do cãozinho da raça pug de Eduardo. Já nas primeiras reuniões da Dobra, o mascote estava sempre em volta dos fundadores. Não à toa, Batman virou personagem do site ao ser promovido a “diretor de atendimento”.

– É ele que recebe os clientes e encaminha as compras em nosso portal, relata Guilherme.

A inovação se estende também ao planejamento da produção – a Dobra não trabalha com estoque. Como só produz a partir da solicitação de compra, atua 100% sob demanda.

– Queremos desafiar os padrões da indústria da moda, como o hiperconsumismo, a produção em massa e a redução de custos a qualquer preço.

Já as estampas são criadas em processo colaborativo por mais de 400 artistas e designers de todo o País. Cada um recebe percentual de 5% do valor da venda dos produtos. 

A preocupação com o meio ambiente é outra marca da empresa. A Dobra incentiva os clientes a devolverem as carteiras antigas para que, em vez de serem jogadas fora, possam ser recicladas. Assim, quem manda de volta o artigo usado ganha desconto na compra de uma carteira novinha em folha.

Por outro lado, as embalagens também recebem novas aplicações. No caso do tênis, viram tapetes de boas vindas para se colocar na porta de casa. As das camisetas se transformam em copos e a das carteiras, em cofrinhos. Já as embalagens de portas-passaporte são reutilizadas como pochetes de viagem.

Por fim, para demonstrar em definitivo que a mercadoria não é o diferencial do empreendimento, a Dobra disponibiliza gratuitamente na internet os moldes usados no processo de produção. Basta informar nome e e-mail para que o arquivo em PDF seja enviado. Até agora, mais de 30 mil usuários já fizeram download dos moldes.

– Com isso, além de entregar valor para a sociedade, recebemos sugestões sobre como melhorar o produto, diz Guilherme.

Por sinal, essa atitude de desapego permite que a metodologia seja usada em projetos sociais, gerando receitas para populações de baixa renda. Independente disso, R$ 1 de cada item comercializado pela Dobra é dirigido para ações de impacto social, em parceria com organizações como a Smile Flame.

Clique nas fotos abaixo para ver uma sequência de imagens dos produtos da Dobra.

As carteiras são oferecidas em três modelos. A menorzinha comporta praticamente só a CNH (Carteira Nacional de Motorista), alguns cartões de banco e notas de dinheiro dobradas. O padrão intermediário agrega o RG e o documento de propriedade do veículo. Já o modelo maior – denominado Old is Cool – inspira-se no layout das carteiras tradicionais, com espaço de sobra.

No porta-passaporte, cabe o documento oficial de viagem fornecido pela Polícia Federal, acompanhado de cartão de embarque, carteirinha de vacinação e dinheiro.

A princípio, é difícil imaginar que um tênis fabricado com matéria-prima que se assemelha a papel seja tão durável quanto um calçado tradicional. Mas a Dobra garante que o produto é forte o bastante para resistir aos trancos do dia-a-dia.

As camisetas são feitas de algodão com bolsos de Tyvek colados numa faixa de velcro na altura do peito, à esquerda. Na compra, o consumidor recebe dois bolsos trocáveis e, se quiser, pode adquirir quantos mais quiser para adicionar depois.

Segundo Guilherme, a Dobra se inspira em conceitos como economia colaborativa, capitalismo consciente, movimento maker e cultura open source, os quais sugerem que a parceria é mais importante do que a competição entre os agentes econômicos. 

A julgar pelo desempenho da companhia desde que apareceu no mercado, em março de 2016, as ideias inovadoras estão sendo bem acolhidas. Já no primeiro ano de operação, o crescimento foi rápido e vertiginoso – mais de 1000%. Com 20 funcionários, a expectativa é de que o faturamento atinja R$ 3,5 milhões em 2018.

– Aqui na Dobra trabalhamos para que o mundo possa ser um lugar mais aberto, irreverente e do bem, diz Guilherme. Em seguida, ele conclui: – Alguém pode pensar que atuamos na contramão, mas não estamos sós. Muitas empresas já se deram conta de que a nova economia chegou para ficar.