Chapéu Acústico

Ideia simples e criativa fez nascer um dos projetos mais bem sucedidos da agenda musical de Porto Alegre

 

 O trompetista Luiz Fernando Rocha é um dos artistas que participa do projeto (Fotos Marcos Monteiro/Divulgação)

O trompetista Luiz Fernando Rocha é um dos artistas que participa do projeto (Fotos Marcos Monteiro/Divulgação)

Foi embaixo do chuveiro que o fotógrafo e designer gráfico Marcos Monteiro teve a ideia de criar o Chapéu Acústico, um dos eventos mais bem-sucedidos da agenda cultural de Porto Alegre. Uma ideia simples e criativa. 

Admirador e estudioso de jazz e música instrumental brasileira, com grande quantidade de artistas em seu círculo de amizades, Marcos já vinha pensando há tempos em produzir uma série de concertos para movimentar a cena musical da cidade, mas esbarrava sempre na falta de verbas.

De outra parte, ele sentia-se maravilhado com o piano 1/2 cauda do Salão Mourisco da Biblioteca Pública do Estado do RS, desde que, num passado longínquo, o filho Pedro, ainda criança, tinha se apresentado no local. Por coincidência, poucos dias antes de idealizar o projeto inovador, Marcos havia se encontrado com a diretora da Biblioteca, Morganah Marcon, na abertura de uma exposição de artes visuais.

Todos esses elementos se fundiram num jato de água embaixo do chuveiro para que Marcos tivesse o insight:

– Quando saí do banho, tinha o nome e o formato definidos, conta ele.

Faltava desenhar o logotipo – que providenciou em seguida – e sugerir a ideia à Morganah, que aceitou de bate pronto.

De um lado, a Biblioteca oferece a infraestrutura (espaço físico, piano, assessoria de imprensa e atendimento ao público), ao passo que Marcos assume a produção e a direção artística, valendo-se do conhecimento que acumula a respeito da música instrumental e de seus expoentes.

 O violonista Dinho Oliveira se apresenta diante de uma plateia fiel que frequenta o Salão Mourisco, com excelente acústica e arquitetura inspiradora

O violonista Dinho Oliveira se apresenta diante de uma plateia fiel que frequenta o Salão Mourisco, com excelente acústica e arquitetura inspiradora

Nascia, assim, o Chapéu Acústico, um projeto independente que, sem recursos públicos ou privados, conta com a parceria de artistas dispostos a levar seu trabalho até uma plateia ávida por música de boa qualidade. O cenário para as audições é o Salão Mourisco da Biblioteca, localizada na esquina das Ruas Riachuelo e General Câmara, no Centro Histórico da capital gáucha. Não há cobrança de ingressos, mas um chapéu passeia por entre as cadeiras em que se acomodam os espectadores como forma de estimular a sua contribuição espontânea. Detalhe: todo o valor arrecadado é entregue aos músicos que se apresentam.

– É um lugar ideal para tocar e ouvir boa música, enaltece a pianista Dionara Fuentes Schneider, que participou da estreia do Chapéu Acústico, no dia 29 de setembro de 2016, ao lado da cantora Lila Borges.

De lá para cá, foram realizados 76 espetáculos para mais de 4 mil espectadores, com a participação de cerca de uma centena de músicos, sempre às terças-feiras, às 19h – excepcionalmente, há apresentações também às quintas-feiras, por isso, não custa conferir a programação na página da Biblioteca ou do evento no Facebook. A agenda está lotada até agosto de 2018, o que demonstra o enorme interesse dos artistas em participar da iniciativa.

– O projeto é abrangente e democrático, por isso, atrai grande quantidade de músicos. Como se não bastasse, o público é diferenciado, sempre muito atento, complementa Dionara.

A capacidade do Salão Mourisco é de 60 espectadores sentados, mas cabem outros 40 de pé. Algumas atrações, como a big band The Brothers Orchestra, o cantor e compositor Sérgio Rojas e a The Darma Lóvers, banda de rock com influência budista, registraram público de 200 pessoas, com a ocupação também da Sala Guilhermino César, contígua ao Salão.

 Sérgio Rojas se apresentou em setembro na Biblioteca

Sérgio Rojas se apresentou em setembro na Biblioteca

– Nessas ocasiões, a gente brinca que vai montar um telão para ninguém perder o show, diz Rosane Lopes, bibliotecária do setor de administração da instituição estadual, que também contribui na elaboração da agenda de apresentações.

Foi Rosane quem sugeriu a Marcos montar um evento especialmente dedicado ao público infantil – o Chapeuzinho Acústico – num domingo à tarde, em outubro deste ano, com o espetáculo musical Pitocando, da Casa Elétrica, grupo que resgata canções, lendas e ditos tradicionais brasileiros. Novas edições do Chapeuzinho estão previstas para 2018.

Para frequentadores assíduos, como Semiramis Gorini, professora de Biologia aposentada do Colégio Aplicação, além da facilidade de acesso, o horário – “entre o trabalho e o jantar” – é mais um fator de estímulo para se deslocar até a Biblioteca. Ela elogia a acústica do Salão Mourisco, que conhece por experiência própria, quando ali se apresentou na época em que era aluna do Conservatório Léo Schneider, do Colégio Americano. Alguns anos mais tarde, voltou a cantar na Biblioteca junto com a banda de jazz Contrast Combo.

– Como se não bastasse, a arquitetura é muito acolhedora, diz Semiramis.

De fato, tudo respira história e arte no casarão de três andares, projetado pelo arquiteto Alphonse Herbert no começo do século passado. Em particular, a decoração do Salão Mourisco é inspirada no Palácio de Alhambra, de Granada, na região da Andaluzia, na Espanha.

Nela, ganham destaque a pintura dourada e o mobiliário e as luminárias em estilo gótico florentino. Bustos de Camões, Shakespeare, Dante e Homero, postados em colunas de mármore, observam compenetrados os artistas que se apresentam no Chapéu Acústico, enquanto uma tortuosa serpente espia o palco pendurada num pedestal em mármore azul com colunas duplas. O espaço abriga ainda bustos de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, os políticos gaúchos mais representativos da escola positivista. Por fim, a escultura de uma esfinge completa a decoração.

Os artistas se sentem à vontade neste ambiente sofisticado e repleto de simbologias. Já virou tradição para os músicos a pose para uma fotografia antes do início do show, no sofá do Salão Egípcio, que funciona como camarim, casos do Gil Jazz Trio (Gilberto Oliveira, Dionísio Souza e Lucas Fê), de Paulo Dorfman e Franciele Pereira e do Melina Jazz Quarteto (Melina Vaz, Ras Vicente, Rodrigo Arnold e Martin Estevaz), clicados na sequência abaixo:

Por outro lado, o sucesso do Chapéu Acústico proporcionou, sem dúvida, ainda mais visibilidade para a Biblioteca na cena cultural de Porto Alegre, permitindo que o público atraído pelo projeto pudesse ser convidado a participar de outras atividades culturais e literárias ali promovidas, bem como se associar ao setor de empréstimo de livros e participar de Associação de Amigos da instituição.

– O Chapéu Acústico trouxe uma nova vida para a Biblioteca, que já era bastante conhecida por seus recitais de música erudita, aos finais de semana, com um público fiel. O projeto trouxe outras pessoas para este espaço, além de dar um excelente retorno midiático para as nossas ações, assinala a diretora Morganah Marcon.

O último show de 2017 está agendado para o dia 19 de dezembro, com a banda Tonda y Combo, que combina clássicos de salsa e latin jazz com temas originais. A próxima temporada será aberta em março, com uma programação inteiramente reservada para vozes femininas, com espetáculos de Anaadi, Valéria Houston, Elisa Meneghetti, Lila Borges e Danny Calixto, em comemoração ao Dia da Mulher (8 de março). 

Para 2018, a ideia é buscar patrocinadores para pagar cachês aos músicos e adquirir equipamentos, como amplificador, mesas de som e microfones, que serão incorporados ao patrimônio da Biblioteca Pública, além de obter recursos para produção de programas dos concertos e material de divulgação.

Paulo César Teixeira