É uma brasa, mora?

Baile Brasa do lendário DJ Kafu S. completa seis anos de casa lotada nas noites de domingo do Espaço Cultural 512

 Os DJs que comandam o  Baile Brasa : Kafu S. (à dir.), Fausto Barbosa (ao centro) e Vagner Medeiros: elegância e malemolência (Fotos/Lucas Martins de Mello)

Os DJs que comandam o Baile Brasa: Kafu S. (à dir.), Fausto Barbosa (ao centro) e Vagner Medeiros: elegância e malemolência (Fotos/Lucas Martins de Mello)

O domingo é de festa na Cidade Baixa.

À noite, a galera sai de casa para gastar a sola de sandálias e tênis ao som de brasilidades, grooves y otras cositas más no Baile Brasa, que está comemorando seis anos de elegância e malemolência na pista do Espaço Cultural 512.

O Baile Brasa é o ponto alto da carreira de Jorge Luiz Silva Braga, DJ conhecido como Kafu S., apelido herdado de Kafuringa, célebre ponta direita do Fluminense na década de 1970.

Em atividade há mais de 30 anos, Kafu é hoje uma referência na produção de festas que realçam raízes brasileiras, ao mesmo tempo que dialogam com a música entoada em todos os cantos do planeta, de preferência de origem africana. No 512, ele divide as pick ups com Fausto Barbosa e Vagner Medeiros, nomes que emergiram na cena noturna da cidade na primeira década do século 21,

O caldeirão de ritmos fervilha na cabeça de Kafu desde a infância, quando escutava a mãe cantarolar clássicos de Aracy de Almeida, Nélson Gonçalves e Ataulfo Alves ao esfregar as roupas no tanque. Moravam na Chácara das Pedras, num tempo em que não havia centros comerciais requintados nem edifícios suntuosos na região.

Na época, a diversão da gurizada do bairro era pescar cascudo num córrego que corria no terreno onde hoje está localizado o Shopping Iguatemi.

A formação do futuro DJ ganhou novos ritmos no horário de recreio do colégio São Manoel, quando ouvia no alto-falante I Want to Go Back to Bahia, de Paulo Diniz, ou Cabeção, com os Golden Boys, hits sacolejantes que também ecoavam no rádio de pilha naquele começo dos anos 1970.

 Jorge Luiz Silva Braga, o Kafu: referência na produção de festas que misturam raízes brasileiras com a música pop, de preferência de origem africana

Jorge Luiz Silva Braga, o Kafu: referência na produção de festas que misturam raízes brasileiras com a música pop, de preferência de origem africana

Dançando embaixo de jacarandás

A salada musical de Kafu já estava bastante temperada quando ele iniciou as atividades de discotecagem em 1975, numa pequena equipe de som formada por amigos de bairro, a New Power. A turma promovia bailinhos na escola estadual Monsenhor Leopoldo Hoff, além de animar casamentos e aniversários com um repertório baseado em funk e disco music.

Na década seguinte, o DJ ampliou o público ao embalar as festas do circuito universitário (bares e diretórios acadêmicos da UFRGS) e de partidos políticos como PT, PCB e PC do B. Neste período, ficou famosa a Festa dos Signos, que ele criou, com edições mensais que atraiam até 1,5 mil pessoas. Em ambos os casos, as caixas de som vibravam com a ala requebrante da MPB formada por Gilberto Gil, Jorge Benjor,Tim Maia & Cia.

Eclético, entre 1983 e 1985, Kafu assumiu pela primeira vez a residência de uma casa, a Metal Graffite, na subida da Protásio Alves, tocando rock e new wave.

As domingueiras tiveram início na trajetória de Kafu na abertura dos anos 1990 no Escaler, bar com mesas e cadeiras espalhadas sob jacarandás na extremidade do Mercadinho do Bom Fim, junto ao Parque da Redenção.

Além de local privilegiado de boemia, o Escaler dava espaço na década de 1980 para manifestações de arte e cultura, especialmente shows musicais. Mas, àquela altura, o bar andava um pouco desanimado a ponto de Kafu sugerir ao Toninho do Escaler (apelido de Antônio Calheiros, o dono do boteco) agitar as noites de domingo com um set list que trazia de tudo um pouco – desde samba e MPB até reggae e rock’roll.

– O formato de shows com banda tinha ficado impraticável por ser muito caro, recorda o DJ.

Em pouco tempo, a festa de domingo no Escaler virou um baile a céu aberto jamais visto até então em Porto Alegre. Nas noites mais movimentadas, chegava a juntar cinco mil pessoas embaixo das árvores.

Em 1995, Kafu foi alçado ao posto de DJ residente do Cabaret Voltaire, na Avenida Independência. Lá, deu continuidade aos rebuliços dominicais com a festa Domingão Racional, compartilhando o comando musical com Malásia (percussionista da banda Ultramen) e Porã, radialista que atuava na Ipanema FM.

O título da festa homenageava o disco Tim Maia Racional, gravado pelo cantor nos anos 1970 numa fase em que se envolvera com a seita Cultura Racional. Fracasso comercial no lançamento, hoje em dia é um dos trabalhos mais cultuados da música brasileira, combinando letras ingenuamente edificantes com uma sonoridade cheia de suingue, que corresponde a expoentes do soul e do funk como Marvin Gaye e Barry White.

– Uma particularidade dessa época é que o samba-rock ainda era chamado de sambalanço, comenta Kafu.

Na virada do século, Kafu desceu a colina, saltando do Cabaré para o Zelig, na Cidade Baixa, onde inventou a festa Zelig Dum aos domingos com samba-rock, funk e outros ritmos ligados à black music. Na empreitada, além de contar com o velho parceiro Malásia, teve a ajuda de Paulo Scott, advogado que logo em seguida iria se consagrar como escritor com romances como Ainda Orangotangos e Habitante Irreal.

Antes de criar o Baile Brasa, Kafu ainda sacudiu a CB com outro projeto dominical, Crioulina, inicialmente no bar 8 e Meio, na Rua Sarmento Leite, e depois no Gê Power’s Black Music Bar, na José do Patrocínio.

Abaixo, veja o material de divulgação de algumas das festas de Kafu.

Ato de resistência

A ideia de batizar a festança como Baile Brasa veio ao assistir na televisão a uma entrevista de atletas brasileiros de esportes radicais, como surf e skate, que estavam radicados no Exterior. Notou que a garotada usava a expressão “brasa” para se referir de forma carinhosa ao Brasil.

– Sempre que encontravam alguém recém-chegado do Brasil, eles perguntavam: “E ai, como está o Brasa?”.

A palavra remete ainda ao personagem de história em quadrinhos Brasinha (Hot Stuff, the Little Devil), da Harvey Comics, um pequeno diabo que vive aprontando estripulias.

Não custa lembrar que brasa é também uma gíria dos anos 1960 popularizada por Roberto Carlos no auge da Jovem Guarda com o significado de “legal”, “incrível”, “fantástico”, algo como maneiro nos dias atuais.

– É uma brasa, mora?, dizia Roberto.

Em tempo: mora é igual a “entende”, “saca” ou algo que o valha.

A primeira edição do Baile Brasa aconteceu, quem diria, não no domingo, mas numa quinta-feira no Sótão Club, bar que não existe mais.

Decepção total: não mais do que 30 ou 40 viventes subiram a escadaria para curtir a festa no segundo andar do antigo casarão da Rua João Alfredo, quase na esquina com a República. Menos mal que Kafu atravessou a rua e, após caminhar alguns metros, escutou o convite de promover o baile aos domingos, no Espaço Cultural 512.

Fausto Barbosa tinha já conhecimento da “lenda” que cerca a figura de Kafu muito antes de conhecê-lo pessoalmente.

A primeira vez que trabalharam juntos foi no Mr. Dam, casa noturna que aglutinava o público alternativo na década de 2000, verdadeiro templo do underground na CB. Depois disso, ambos discotecaram como convidados de Fred Lima, DJ residente do Pé Palito, outra referência da cena noturna da capital gaúcha nos anos 2000.

O início das atividades de Fausto como DJ se deu em 2001, no Druida Bistrô, na Rua Sebastião Leão. Passou ainda pelo Avôhai, na Lima e Silva, e o Gedamil, na José do Patrocínio, além do dance florentino Blob, em meio a uma temporada na Itália. Fora isso, seguindo as pegadas do mestre, trabalhou em dezenas de bailes do circuito acadêmico no tempo em que morava na Casa de Estudante da UFRGS.

Pouca gente sabe que Fausto, além de graduado em Física, tem mestrado e doutorado em Astrofísica. Atualmente, em paralelo à carreira de DJ, ganha a vida também como professor. Se alguém perguntar a ele qual é a semelhança entre as duas atividades, a resposta está na ponta da língua:

– Ambas provocam reação imediata da audiência. Na docência como na discotecagem, o grau de satisfação de quem te escuta está diretamente relacionado ao nível de tua atenção durante o trabalho, pondera.

No começo da década de 2010, uma onda de repressão desencadeada pela prefeitura fechou as portas de uma boa leva de danceterias da Cidade Baixa. O impacto na vida dos profissionais que trabalhavam à noite não tardou a chegar. Desanimado, Fausto decidiu abandonar a vida de DJ para se dedicar exclusivamente ao ofício de professor. Fez até festa de despedida no Mr. Dam.

Um ano depois, encontrou por acaso Kafu num domingo à noite no Espaço Odomodê.

– Fausto, preciso falar contigo, chamou o amigo. Em seguida, à queima-roupa, acrescentou: – Estou planejando um golpe e, para isso, conto contigo.

O golpe era o Baile Brasa.

Clique nas imagens abaixo para sentir o clima da festa.

Aceita a proposta, pensaram em convidar um parceiro para completar o time. Fausto sugeriu o nome de Vagner Medeiros, com quem havia se revezado na discotecagem das noites do Mr. Dam alguns anos antes.

– É verdade, trabalhamos juntos na última fase do Mr. Dam. Fechamos aquela encrenca, diverte-se Vagner.

É de se registrar que, antes de se integrar à equipe do Baile Brasa, Vagner também perambulou pelo circuito universitário com o projeto Casa de Resistência Cultural, que abrangia eventos em casas de estudantes do Centro Histórico, da Cidade Baixa e da Bom Jesus. Outra coincidência é que, a exemplo de Kafu, ele também trabalhou como DJ no bar Escaler.

– Com o tempo, foram escasseando os locais alternativos e a cidade ficou mais careta. Para nós, o Baile Brasa é um ato de resistência, diz Vagner.

Espera só o pessoal chegar

Afinal, o que mudou da época em que Kafu iniciou a trajetória de DJ até o momento atual?

– A geração dos anos 1980 era mais sonhadora, queria mudar o mundo. A atual é mais ligeira, nervosa. Isso se reflete no jeito de a festa acontecer. Dá para perceber com nitidez, diz o DJ, que assistiu às transformações de comportamento e estilos musicais de uma perspectiva privilegiada – pilotando as pick ups e as controladoras digitais.

Sob alguns aspectos, a realidade se tornou mais rude e menos encantadora:

– Todo mundo quer aproveitar ao máximo o momento de alegria e, se possível, beijar na boca – isso não muda. Mas antigamente o ritual de azarar na pista era mais tranquilo, acrescenta ele.

Outra observação é que, há 30 anos, a galera tinha mais gosto de formar rodinhas na pista e inventar coreografias para se divertir. Não faltavam passinhos sincronizados que eram ensaiados com antecedência, o que hoje se vê bem menos.

Ademais, em matéria de gêneros musicais, os guetos não se misturavam nos anos 1980. Rock era rock, samba era samba e não tinha conversa. Atualmente, os diferentes estilos convivem pacificamente na pista. Ainda bem.

– No Baile Brasa, a galera aceita desde Chico Buarque até BaianaSystem, sem deixar de curtir Daniela Mercury e pagode anos 90, como Raça Negra, Negritude Jr., Molejo. Se duvidar, aceita até o MC Kevinho (estrela do funk carioca). O pessoal responde ao que a gente propõe e isso estimula a caprichar cada vez mais na escolha do repertório. Tudo é uma questão de saber dosar, ensina Kafu.

O Baile Brasa costuma reunir um público geralmente classificado como “alternativo”, formado por artistas, estudantes e profissionais liberais, que acompanha o evento há mais tempo. Em paralelo, atrai uma plateia jovem que descobriu a festa há pouco tempo.

Cerca de 80% dos frequentadores estão na faixa entre 24 e 40 anos, como mostram as pesquisas de público aferidas na página do Baile Brasa no Facebook. Acima de 40 anos, 20% e, abaixo de 24 anos, algo como 0,02%, ou quase nada.

Kafu observa que o público de domingo é um tanto mais sossegado em relação aos frequentadores de bares e pubs na sexta e no sábado. Brinca que a noite dominical é uma verdadeira UTI – só que, em vez de indicar Unidade de Tratamento Intensivo hospitalar, a sigla neste caso representa a “Última Tentativa do Indivíduo” no afã de se dar bem no final de semana.

– Falando sério, como regra, a noite de domingo é excepcional para se trabalhar. Eu adoro, diz Kafu. Em seguida, ele complementa: – Estou bem feliz, é um grande barato fazer esse baile e acredito que isso fica evidente para quem está curtindo na pista. Por outro lado, continua a existir o tesão de preparar o repertório e ainda sinto o friozinho na barriga quando a festa está para começar.

Este é o Kafu, profissional de talento e figura humana sem igual, cuja trajetória inspirou Nei Lisboa a compor uma das faixas do álbum Translucidação, lançado em 2006. Eis um trecho da canção:

Bola no centro cem por cento mané
Ossip Gum Zelig Dum Cabaret
Só funk soul balanço samba no pé
Do eminente comandante Kafu S.
Século vinte diz presente no ar
Espera só o pessoal chegar

Ouça a faixa Festa do Kafu S. na íntegra no link abaixo.