À sombra do tempo

Casarão do século 19 preserva a memória cultural da cidade

 Solar Lopo Gonçalves, construído entre 1845 e 1855, abriga hoje o Museu de Porto Alegre José Joaquim Felizardo (Imagem/Divulgação)

Solar Lopo Gonçalves, construído entre 1845 e 1855, abriga hoje o Museu de Porto Alegre José Joaquim Felizardo (Imagem/Divulgação)

A aparência de chácara interiorana não é por acaso. O solar com janelas enfeitadas pelas sombras de árvores centenárias foi construído para ser uma casa de veraneio. Em 1855, quando ficou pronto, acomodava nos períodos de lazer a família de Lopo Gonçalves, um dos comerciantes mais prósperos e influentes da cidade no século 19 – tanto que fundou a Associação Comercial e se elegeu vereador duas vezes. Com o passar do tempo, aquele cenário campestre que marcava a Cidade Baixa se viu engolido pelo avanço da área urbana e se concentrou no espaço de 5,5 mil metros que restou da propriedade, desde 1982 ocupada pelo Museu de Porto Alegre Joaquim José Felizardo. Ali está guardada uma parte preciosa da história da capital dos gaúchos. 

É bem provável que o maior destaque do acervo seja o próprio casarão, considerando “o potencial que possui de reavivar a memória e redesenhar a Cidade Baixa e sua relação com Porto Alegre”, como ressalta Alexandre Teles, diretor do Museu. De fato, visitar o solar – a palavra se refere justamente aos prédios construídos com muitas janelas para que a luz do sol iluminasse com abundância o ambiente interno – localizado na Rua João Alfredo nº 582 já é por si só uma experiência rica e prazerosa. 

diálogo com o presente

Mas há muito mais para ver. O roteiro pode iniciar com um mergulho nas imagens de uma cidade que já não existe mais diante de nossos olhos, capturadas por fotógrafos como Virgilio Calegari, Lunara, Barbeiros & Irmãos, Sioma Breitman e Irmãos Ferrari. No total, o espaço possui 9 mil fotografias dos séculos 19 e 20, além de 400 antigos cartões postais. O acervo do Museu conta ainda com 1,3 mil itens recolhidos de casas prestes a ser inventariadas, a exemplo de objetos de decoração, instrumentos musicais, móveis e vestimentas. Já a coleção arqueológica abrange 200 mil registros da ocupação indígena anterior à colonização portuguesa, como peças de louça, cerâmica, vidro, metal, couro e pedra.

Anualmente, o casarão recebe mais de 20 mil visitantes, boa parcela representada por estudantes que realizam visitas guiadas. Além de preservar o passado, o Museu dialoga com o presente quando abre o portão de ferro para atividades como as Rodas de Samba do Instituto Brasilidades e os Piqueniques Culturais, que incluem exposições fotográficas, apresentações musicais e oferta de gastronomia. A data de 18 de maio, mundialmente consagrada como Noite dos Museus, também prevê a cada ano uma programação cultural e gastronômica para acolher o público. Fora isso, já está planejada para março de 2018, durante a Semana de Porto Alegre, a realização de evento com palestras e exibição de filmes acerca da memória da música da capital do Estado. Desse modo, o Museu busca aliar a missão principal de proteger e conservar o acervo histórico e a memória cultural de Porto Alegre com a vocação boêmia da Cidade Baixa dos dias de hoje.

Essas atividades seguem uma tendência global de integração dos museus à paisagem contemporânea – um exemplo próximo é dado pelo Museu Iberê Camargo, que tem promovido até festivais de música eletrônica para atrair o público jovem –, embora sofram críticas dos museólogos conservadores, para quem ações de entretenimento desvirtuam a função primordial das instituições.

– No melhor dos mundos possíveis, as pessoas viriam só para fruir o acervo histórico, mas é inegável que essas ações divulgam o Museu e trazem mais gente para conhecer o espaço, o que é positivo, pondera Alexandre Teles.

plano de futuro

A meta para o futuro é construir um prédio anexo nos fundos do terreno para ampliação do acervo, com áreas de exposições, escritórios e laboratórios de arqueologia, conservação e fotografia. No pátio, junto a uma cafeteria, serão instalados palco e recanto para recreação infantil, além de um bonde da Carris. Assim, a área construída chegaria a 1.520 metros quadrados, quase 50% a mais. A promessa é preservar ao máximo a natureza, com a garantia de que nenhuma árvore será deslocada ou retirada do local.

 Projeto para a construção de anexo nos fundos do terreno (Imagem/Divulgação)

Projeto para a construção de anexo nos fundos do terreno (Imagem/Divulgação)

Desde 2009, repousa nas gavetas da burocracia municipal o projeto de construção do anexo, elaborado pelos arquitetos Júlio Collares e Dalton Bernardes, com orçamento de R$ 3,7 milhões. Atualizados, os gastos atingiriam R$ 6 milhões – a ideia é utilizar as leis de incentivo fiscal para tirar o projeto do papel. "Além de aumentar o acervo de modo significativo, será possível reverter a tendência que se consolidou ao longo da trajetória do Museu, com a predominância de objetos que retratam a história das elites porto-alegrenses. Com o novo prédio, teremos lugar para o acolhimento de objetos que registram também a vida das classes populares”, conclui Alexandre Teles.

Paulo César Teixeira