Santo Benedito

 tradição da cerveja artesanal dos antigos mosteiros é cultuada no bar benedito santo chopp 

 Bar situado na Rua Garibaldi é um dos principais templos da cultura cervejeira em Porto Alegre (Fotos/Divulgação)

Bar situado na Rua Garibaldi é um dos principais templos da cultura cervejeira em Porto Alegre (Fotos/Divulgação)

De olhos fechados e com o rosto levemente inclinado, o monge exibe uma expressão de puro êxtase no quadro pendurado na parede do Benedito Santo Chopp, bar localizado num casarão da Rua Garibaldi, entre as Avenidas Independência e Cristóvão Colombo.

A imagem retratada por Eduard von Grützner – pintor nascido na antiga Prússia, que viveu entre 1846 e 1925 – estimula a curiosidade: afinal, o que determina o estado de encantamento e satisfação expresso no rosto do religioso? Teria ele recém concluído um período de jejum (neste caso, a fatia de queijo sobre a mesa estaria a indicar o encerramento do estágio de privação de comida)?

Nos tempos de jejum, de acordo com a tradição de antigos mosteiros católicos, as cervejas encorpadas e altamente nutritivas se constituíam numa das poucas fontes de alimentação dos monges.

– Imagino que passar o dia se alimentando apenas de cervejas que atingem até 10% de taxa alcoólica faça com que a pessoa fique muito próxima da percepção do divino, observa com bom humor Marcelo Neves, que comanda o Benedito Santo Chopp ao lado da mulher, Joicy Gama.

 Monge cervejeiro no quadro pendurado na parede do Benedito Santo Chopp

Monge cervejeiro no quadro pendurado na parede do Benedito Santo Chopp

O bar inaugurado em maio de 2015 é a realização de um sonho de Marcelo. Antes, sua experiência do lado de lá do balcão se resumia ao tempo escasso que tinha vivido em Londres com o intuito de aprender inglês e, quem sabe, se estabelecer na terra da Rainha. Nesta época, chegou a trabalhar como garçom e auxiliar de cozinha. 

A rápida passagem pelos pubs ingleses propiciou a descoberta do universo das cervejas artesanais, paixão que Marcelo trouxe na bagagem quando a situação financeira apertou e ele se viu obrigado a retornar para o Brasil.

Quando decidiu abrir o bar com oito modalidades diferentes de cervejas especiais, Marcelo notou que a maior parte dos empreendimentos similares em Porto Alegre buscava reconstituir as origens germânicas e nórdicas da cultura cervejeira.

Para não repetir a fórmula, ele preferiu se voltar para a influência dos monges belgas da Ordem dos Beneditinos, fundada por São Bento (em latim, Benedictus) no ano de 529 – por sinal, a logomarca do bar inspira-se numa medalhinha do santo católico.

– Muito do que se conhece hoje a respeito da tecnologia de cerveja artesanal se deve à tradição belga, justifica ele.

Outro ingrediente que identifica o Benedito Santo Chopp é uma das expressões típicas da cultura dos Estados Unidos, que chegou à América na segunda metade do século 19, trazida por marinheiros alemães embarcados no porto de Hamburgo – por isso, ganhou o nome de hamburg steak (ou bife de Hamburgo). 

Não à toa, a placa junto à porta de entrada do bar da Rua Garibaldi expõe as duas especialidades da casa: beer & burger.

Atualmente, o cardápio conta com 13 modalidades de hambúrgueres – um de frango, dois vegetarianos e dez com carne de gado. Em comum, os pratos têm nomes relacionados a divindades ou entidades folclóricas, como Odin, Baco, Boitatá, Tupã, Gaya e Krishna, entre outras.

A composição do blend (mistura de carnes) é um segredo trancado a sete chaves:

– Pesquisei até chegar ao sabor, à textura e à quantidade de gordura que considero as ideais, diz Marcelo, enigmático.

 Marcelo Neves no comando das oito torneiras de chopp artesanal do Benedito 

Marcelo Neves no comando das oito torneiras de chopp artesanal do Benedito 

Aliás, mistérios cercam também as alterações que em breve serão promovidas no cardápio, em sintonia com as pesquisas de neurolinguística efetuadas por Marcelo.

Uma coisa já dá para dizer: as opções de hambúrgueres serão reduzidas para sete, número considerado apropriado para não confundir a cabeça do cliente na hora em que ele escolhe a comida.

Os estudos revelaram ainda a posição privilegiada na qual devem estar os pratos mais importantes – área superior direita do cardápio, para onde os olhos do consumidor tendem a se dirigir em primeiro lugar.

– Ali precisa ficar o filé mignon da Carta, sugere Marcelo.

Só não é segredo o conjunto de especiarias que acompanha os hambúrgueres do Benedito Santo Chopp, a exemplo do chutney, um condimento indiano que, por definição, precisa reunir simultaneamente três paladares – ácido, picante e agridoce.

Os molhos se constituem numa atração à parte, com três opções que harmonizam o sabor dos demais componentes do lanche: o Benê, molho da casa em forma de barbecue (acompanhamento clássico do churrasco norte-americano, feito à base de tomate defumado), a pasta de alho e a geleia de pimenta.

Há também petiscos como tábua de frios, salsicha bock alemã e batata rústica com cheddar, provolone gratinado, cubinhos de bacon e um toque de alecrim.

– É uma alternativa de prato coletivo ou para quem deseja apenas beliscar, salienta Marcelo.

Música e política

Até se transformar em dono de bar, Marcelo trilhou caminhos bem distintos. 

O menino que viveu boa parte da adolescência numa casinha de madeira pintada de verde na Rua Pedro Pereira de Souza, no Partenon, perto do Campo da Tuca, herdou da mãe dois dos principais eixos de sua vida: a música e a política.

Embora não tenha se profissionalizado, Andrea sempre gostou de tocar violão e foi ela quem ensinou os primeiros acordes para o filho. Fora isso, os discos de Mutantes, Secos & Molhados, Led Zeppelin e Janis Joplin, que ela escutava em casa, ajudaram a formatar o gosto musical do garoto.

– A música permeou a minha vida em paralelo a outras influências, anota Marcelo, que adotou como instrumento a princípio o contrabaixo elétrico e depois o baixo acústico, apresentando-se em bares lendários da Cidade Baixa, como Dr. Jekyll, Nega Frida e Pé Palito.

 A banda Molho, que Marcelo formou com Tiago Scott na guitarra e Lucas Pedroso, o Oggo, na bateria, mistura jazz, soul, rock e blues

A banda Molho, que Marcelo formou com Tiago Scott na guitarra e Lucas Pedroso, o Oggo, na bateria, mistura jazz, soul, rock e blues

De outra parte, como professora do Estado, Andrea construiu uma trajetória aguerrida de militante do CEPERS, o que igualmente influenciou a cabeça de Marcelo, principalmente nos tempos de estudante em colégios públicos como Padre Rambo e Ernesto Dornelles ou no Marista Champagnat, da rede particular.

Outra vertente de atuação é a informática – Marcelo se formou no curso técnico de Administração de Redes na UFRGS e, até 2014, trabalhou no ramo.

É inegável, porém, que a música se sobrepôs às demais fontes de inspiração.

Não bastasse a influência da mãe, Marcelo se criou num ambiente de múltiplas referências sonoras – o Partenon é um caldeirão de ritmos, desde o samba-rock de Luiz Wagner até o hip hop do grupo Da Guedes (referência à Travessa Guedes da Luz, que desemboca na Avenida Bento Gonçalves).

Aos 17 anos, começou a tocar com amigos do bairro, como o guitarrista Flávio Peres (hoje no Bloco da Laje) e o baterista Rafael Martins Vieira.

– A gente se encontrava quase todos os dias, na casa de um ou de outro, recorda Marcelo.

Mais tarde, ele fez parte do Bourbon Blues, com Eduardo Gambona (voz e violão) e Ale Ravanello (gaita de boca). trio que chegou a lançar um DVD gravado ao vivo no Teatro do SESC de Lajeado. 

Como não se prende a dogmas musicais, participou também do New Bossa, grupo formado com Ciro Menezes (vocal), Paulinho Ayres (guitarra) e Nelson Beck (bateria), que alternava canções autorais com releituras de clássicos da Bossa Nova.

O projeto mais recente, com a participação de Tiago Scott na guitarra e Lucas Pedroso. o Oggo, na bateria, não por acaso intitulado Molho, mistura as múltiplas influências de jazz, soul, rock e blues.

Dia dos Namorados

A ideia de abrir o Benedito Santo Chopp surgiu a partir do casamento de Marcelo com Joicy Gama, dona do Porto Carioca, boteco da Rua da República, na Cidade Baixa. Ele lembra com exatidão a data em que, pela primeira vez, colocou os pés no bar da futura mulher – era domingo, dia 9 de junho de 2014.

– Fiquei completamente encantado, diz ele. A seguir, acrescenta: – Foi amor à primeira vista, mas naquele dia trocamos olhares e ficou nisso.

Três dias depois – por coincidência ou não, Dia dos Namorados –, após uma ou duas garrafas de vinho engolfadas na companhia de amigos, Marcelo convenceu os parceiros a irem até o Porto Carioca, “já com terceiras ou quartas intenções” em relação à proprietária do botequim.

– De lá para cá, não me desgrudei mais dela.

A certeza de que possuía vocação para trabalhar diretamente com o público veio um tempo depois, quando o rapaz se integrou à equipe de atendimento do Porto Carioca.

– A experiência em Londres tinha sido conturbada diante da circunstância de estar sem visto de trabalho. No Porto Carioca, descobri que servir os clientes de um bar é algo que faço bem e que não gera stress em minha rotina, afirma.

Em novembro de 2014, Marcelo e Joicy alugaram a casa da Rua Garibaldi em frente à Casa de Teatro, que antes abrigava uma videolocadora em suas peças de frente e uma sauna gay na parte dos fundos.

Como havia pouco capital para investir, o casal arregaçou as mangas e providenciou praticamente sozinho a reforma do prédio, o que incluiu pintura e derrubada de paredes.

– Suamos e sangramos ao demolir blocos de 40 centímetros de espessura com uma marretinha de um quilo e meio, recorda Marcelo.

Por consequência, o bar que emergiu da poeira e do rumor das marretadas tem a cara de seus fundadores e está impregnado de sua energia.

– Isso faz com que tenhamos muita gana de trabalhar aqui, assegura ele.

Detalhes como a  iluminação, a decoração de interiores e a elaboração do cardápio também foram concebidos pelos donos do bar. 

Assim, os ingredientes do Benedito Santo Chopp compõem uma receita de sucesso, que conta, inclusive, com a aprovação do monge beneditino de expressão amável e encantadora, pendurado no quadro na parede.

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Benedito Santo Chopp

Rua Garibaldi, 868 – Bairro Independência

De terça a sábado, das 18h à meia noite

Paulo César Teixeira