A maioridade do Venezianos

Bar completa 18 anos como a casa do público LGBT em Porto Alegre

 O bar surgiu em 2000, junto à Travessa dos Venezianos, recanto histórico da Cidade Baixa, para dar dignidade à cena LGBT (Foto Maryane Moura/Divulgação)

O bar surgiu em 2000, junto à Travessa dos Venezianos, recanto histórico da Cidade Baixa, para dar dignidade à cena LGBT (Foto Maryane Moura/Divulgação)

Em janeiro de 2000, o Venezianos Pub Café abriu suas portas na Rua Joaquim Nabuco, esquina da Travessa dos Venezianos, um dos recantos históricos da Cidade Baixa, com o propósito deliberado de remover da obscuridade a cena cultural e boêmia LGBT de Porto Alegre. De lá para cá, o bar se converteu na principal referência das várias tribos que compõem o público LGBT na capital gaúcha, ele próprio se transformando numa bandeira de luta em favor da liberdade sexual e do respeito à diversidade de gênero. 

Nesta entrevista, Alessandra Mendonça, que dirige a casa em sociedade com Clarice Decker desde 2008, reconstitui a trajetória do Venezianos e relata as conquistas de cidadania das quais o bar foi ao mesmo tempo testemunha e protagonista, além de advertir para os riscos de retrocesso que se desenham na linha do horizonte.

Rua da Margem – O que representa a maioridade para o Venezianos? Qual é o sentimento que predomina?

Alessandra Mendonça – Antes de tudo, um sentimento de vitória. Muitas forças diziam que o bar não continuaria, e o Venezianos continuou. Lá no início, as fundadoras – a Vera Ardais e a Carmen Santos –, a equipe de trabalho e os clientes, todos nós desejávamos que o Venê fosse o mais longe possível, mas honestamente ninguém imaginava que isso fosse acontecer, por motivos socioeconômicos, políticos, religiosos. É, de fato, uma vitória constatar que um bar que nasceu com o intuito de dar dignidade à cena LGBT tenha persistido até hoje.

 Casa lotada em noite de final de semana: território de liberdade e respeito à diversidade sexual (Foto/Divulgação) 

Casa lotada em noite de final de semana: território de liberdade e respeito à diversidade sexual (Foto/Divulgação) 

Como era a cena LGBT quando o Venezianos começou?

Ouso dizer que, naquele momento, experimentávamos uma transição sociológica. As pessoas haviam se familiarizado com ferramentas da internet como chats, ICQs, emails etc. Você pode não acreditar, mas as salas de conversação da web foram libertadoras para gays e lésbicas. Salvo melhor juízo, Porto Alegre estava carente de lugares LGBTs na virada do século. Quase não havia locais onde se encontrar e os poucos que existiam não eram declarados ou assumidos. Os que tinham aparecido numa fase anterior, como o Doce Vício, na Rua Vieira de Castro, e o Fly, que funcionou nesta mesma casa que o Venezianos veio a ocupar mais tarde, tinham encerrado atividades provavelmente por razões econômicas. O Vitrô, que ainda persiste e é um ícone da noite LGBT, configurava uma situação diferente por ter uma estrutura maior, de casa de shows, não de café, pub ou bar.

“A proposta é sair da penumbra. Por que se esconder?”
 O bailarino Andrew Tassinari na calçada em frente ao Venezianos (Foto/Divulgação)

O bailarino Andrew Tassinari na calçada em frente ao Venezianos (Foto/Divulgação)

Como não existia um lugar que as acolhesse, as pessoas começaram a buscar umas às outras nos chats.

Exatamente, mas é claro que isso não apagava o desejo de sair e se encontrar pessoalmente. Aí entra o Venezianos. Na verdade, a Vera e a Carmen fundaram o Venê com a finalidade de abrigar o público LGBT, mas num horário diferente do habitual. Os LGBTs sempre gostaram de sair tarde de casa, até porque, durante muito tempo, foi problemático para eles demonstrar afeto para o companheiro ou a companheira num café às cinco da tarde.

À luz do dia era proibido...

Precisava ser na penumbra, ou até mesmo no escuro. O Venezianos Pub Café abriu com o objetivo de proporcionar aos LGBTs a oportunidade de tomar um café e comer uma torta deliciosos à luz do dia, tanto que o bar leva a palavra “café” no nome-fantasia até hoje. Uma das características do Venê é ser um bar claro (refere-se ao ambiente interno com bastante luz). A proposta é sair da penumbra. “Por que tão claro?”, às vezes os clientes perguntam. E a gente responde: “Por que se esconder?”.

Pelo que você diz, muito além da questão sexual, o preconceito buscava proibir a própria expressão do afeto, o que, afinal de contas, consiste numa interdição ainda mais cruel e perversa.

É decapitar um sentimento genuíno e cotidiano, que é o amor, e isso é uma violência sem tamanho. Em contrapartida, permitir que esse afeto exista com naturalidade é uma imensa vitória. Perceba que o Venê abriu a possibilidade de o público LGBT jantar à noite, e jantar muito bem, sem receio de ser hostilizado. Naquele tempo, era muito difícil para um restaurante aceitar a presença de um casal homossexual, por exemplo, no Dia dos Namorados. Isso acabava com a reputação do restaurante. O clima romântico deixava de existir, ou porque os casais heterossexuais faziam daquele casal homossexual o assunto da noite, ou porque os proprietários despreparados se sentiam constrangidos ou porque os garçons também não sabiam como lidar com a situação. Quem não viveu esse tempo não tem ideia do que isso representa... Neste cenário, o que os casais homossexuais poderiam fazer no Dia dos Namorados? Esconder-se. É quando o Venê aparece na cena com uma carta de alto padrão para dizer aos homossexuais: “Vocês também podem jantar num local público, num ambiente tranquilo, ao lado de seus namorados e suas namoradas”. Aí começa a lenda do Venê, e falo isso com orgulho. Pessoas que frequentam a casa dizem: “Vocês já perceberam que o Venê só não é tratado como uma lenda porque ainda existe?”.

É uma lenda viva...

Podemos dizer, assim, que o Venezianos participou diretamente de uma mudança comportamental, que aconteceu em Porto Alegre no começo da década passada. As pessoas já não aguentavam mais passar o Dia dos Namorados escondidas em casa. Elas queriam celebrar, isso era uma necessidade, tanto que, no Dia dos Namorados de 2000, primeiro ano de funcionamento da casa, o bar ficou lotado, como acontece até hoje nesta data. 

 O músico e DJ Madblush, uma das atrações da casa (Foto/Divulgação)

O músico e DJ Madblush, uma das atrações da casa (Foto/Divulgação)

No início, a proposta era de um café/restaurante, não de uma casa noturna?

O Venezianos abriu com um objeto social amplo – bar, lancheria e café. Além disso, tinha desde o começo a possibilidade de música ao vivo sem limite de horário, porque se investiu muito em acústica, mas não se imaginava que essa demanda, de fato, existiria. Até que, em certo momento, as pessoas que vinham tomar café no final da tarde passaram a ficar para jantar, já que havia essa possibilidade, e aquelas que ficavam para jantar começaram a demonstrar uma vontade de esticar a noite até mais tarde para escutar uma boa música.

Como o ambiente era bom, elas iam ficando...

E assim a casa foi se transformando, sem perder as características iniciais. Outro ponto importante é que, dentro do público LGBT, temos vários naipes, tanto que a sigla remete a segmentos distintos – lésbicas, gays, bissexuais e transexuais. Como fazer para que essas várias tribos possam comungar no mesmo lugar? Esta era a questão do Venezianos. E ela foi resolvida naturalmente, porque as pessoas espontaneamente foram fazendo suas escolhas e ocupando seus espaços.

Você está falando da agenda da semana?

Na terça-feira, por exemplo, temos o videokê, que se mantém há 17 anos (Nota: atualmente, o Venezianos funciona de terça a sábado). É uma noite mais tranquila, que pede uma cantoriazinha informal... Nas quartas-feiras, num certo período promovíamos shows de drag queens como a Dandara Rangel (pseudônimo do ator transformista Antonio Jair Moraes, que morreu em 2015) e a Laurita Leão (personagem criado pelo ator Lauro Ramalho). Em outra fase, tínhamos o evento Noite do Anjo.

O nome é sugestivo... Como funcionava?

As pessoas trocavam bilhetes umas com as outras dentro do bar por meio de um anjo ou uma anja, que eram mensageiros contratados especialmente para isso. Os anjos vinham, inclusive, montados, com asas e tudo. De um tempo para cá, a noite de quarta-feira ganhou um formato mais pop. Por outro lado, o público da música eletrônica começou a se sentir bem nas quintas-feiras, e passamos a promover a Festa do Flavinho, produzida pelo Flávio Ramos, um estilista que navega muito bem no meio eletrônico e convida DJs de todos os cantos para vir para cá.

E a sexta-feira, que é geralmente a noite mais animada?

Ao longo da semana, os homens dominam a cena. Isso é também uma característica da noite. O público masculino sai mais que o feminino, mas as mulheres também precisam de uma noite que seja dirigida para elas. No Venezianos, é a noite de sexta-feira, que se consolidou como a preferida do público feminino. Já aos sábados, recebemos uma galera que sai para jantar e acaba ficando mais um pouco para dançar na pista. Dessa forma, foi possível criar uma agenda que abriga as diferentes tribos LGBT dentro de uma única casa, reservando cada dia para um público específico.

 A fundadora Vera Ardais (à esq..) e Clarice Decker, uma das sócias que comanda hoje o Venezianos (Foto/Divulgação)

A fundadora Vera Ardais (à esq..) e Clarice Decker, uma das sócias que comanda hoje o Venezianos (Foto/Divulgação)

Desde quando você e a Clarice estão na direção do Venezianos?

A Vera e a Carmen capitanearam o bar durante oito anos. Em certo momento, optaram por sair porque a noite é exaustiva, impossível dizer o contrário. No começo, encontraram dificuldades de achar quem levaria a bandeira adiante. O Venê não é apenas um negócio, não reconhecer isso é um grande engano. Tiveram, então, a ideia de passar o bastão para as pessoas que já trabalhavam aqui, entre elas, a Clarice, convencidas de que elas manteriam a espinha dorsal do bar. Isso aconteceu no final de 2008. Até ali, eu era uma cliente que tinha um carinho enorme pela casa. A Clarice já estava na direção quando uma das pessoas que fazia parte da sociedade quis sair, aí eu entrei. Mas sempre brinco que continuo sendo a cliente que nunca deixei de ser.

“Existe uma geração LGBT que já nasceu com a possibilidade de andar de mãos dadas e se beijar na rua, mas não lutou por essas conquistas e não está percebendo o risco da perda desses direitos”

Você falou sobre a transição sociológica no começo do século, época em que o Venezianos abriu as portas. Nos últimos anos, você sente uma ameaça de retrocesso das conquistas LGBT? Qual é a avaliação desse novo cenário?

Absolutamente preocupante. Esse retrocesso pode vir de maneira avassaladora. O que mais preocupa é que uma parte do público LGBT compreende a situação e vai lutar contra ela, mas outra parte sequer se apercebe do que está ocorrendo, como se estivesse à margem.

Por que isso acontece?

Existe uma geração que já nasceu com a possibilidade de andar de mãos dadas e se beijar na rua, mas não lutou para alcançar essas conquistas e não está percebendo o risco da perda desses direitos básicos. Hoje, todos nós podemos ser vítimas de violência, mas bem menos do que há 20 ou dez anos. A nova geração LGBT não imagina a luta que foi para se chegar até aqui.

Quais os sinais visíveis do retrocesso?

Você sabe que existe uma associação de magistrados evangélicos no Brasil? Se um deles galgar o posto de ministro do STF, direitos arduamente conquistados estarão prestes a ruir. A maior parte deles surgiu como construções jurisprudenciais, como os direitos ao nome social e à união homoafetiva – inclusive, o RS é um celeiro dessas decisões graças a Maria Berenice Dias, que hoje é uma advogada especializada em Direito de Família. Quando ela era desembargadora, fez jurisprudências em favor do segmento LGBT seguidas por outros magistrados no país inteiro, inclusive no STF, e ela é heterossexual, não levantava uma bandeira pessoal, e sim uma bandeira de cidadania, em favor da equidade, pensando em preservar os mais comezinhos princípios constitucionais. Ora, se os direitos trabalhistas – e aqui estamos falando da CLT de Getúlio Vargas, construída lá na década de 1930 – foram rapidamente alterados, em questão de menos de dois anos, imagina o que pode acontecer com esses direitos básicos do segmento LGBT. Podem ruir (estala os dedos) com a facilidade com que se destrói um castelo de areia.

O bar está localizado na Travessa dos Venezianos, um lugar especialíssimo na Cidade Baixa, um patrimônio histórico da cidade. Como é a relação com a vizinhança?

A relação é de orgulho, tanto que o bar leva o estandarte da travessa no nome Venezianos, e esse nome é poético, não só pela travessa, mas porque também diz respeito a Vênus, portanto, ao amor. Como não respeitar um lugar como este? Fora isso, a travessa com suas casinhas coloridas consta na nossa logomarca, é uma bandeira LGBT sem querer, por si só...

Como são tratadas as questões de barulho de madrugada ou xixi feito por clientes nas portas das casas, fatos corriqueiros na Cidade Baixa?

Temos cartazes educativos alertando para o respeito que devemos ter com os moradores. Além disso, criamos uma brigada para educar, da qual eu mesma faço parte. “Psiu, vamos falar baixo, olha a vizinhança”, estou sempre avisando. Eu digo que os nossos clientes são os melhores do mundo, porque eles sabem que, no momento em que a gente se exceder no volume da conversa ou fizer xixi em que tudo que é canto, estará sabotando a casa. Esta não é uma ameaça tênue, é concreta. Ou respeitamos o equilíbrio urbano ou o Venezianos vai acabar, não existe meio termo. E os nossos clientes não querem que a casa acabe.

Como você vê a atual cena LGBT em Porto Alegre?

Hoje temos redutos como a Rua da República, com bares como o Porto Carioca e o Bahamas, aliás, somos frequentadoras desses lugares. Mas a proposta aí é diferente: a pessoa senta-se à mesa na calçada e toma uma cervejinha, fuma um cigarro, tem aquela ideia de bar. Agora, casas fechadas e de maior porte, com música, com a coragem de assumir o público LGBT, praticamente não existem mais. Atualmente, as que abrem não querem levantar bandeira nenhuma. Quando você escolhe um público, está abrindo mão de todos os outros. Além disso, hoje o público LGBT tem a possibilidade de frequentar quaisquer outros lugares, porque as portas se abriram...

Isso é um avanço, não? O Venezianos ajudou a abrir espaço para o público LGBT em restaurantes que não estavam ligados à causa.

Felizmente, hoje em dia a maioria dos restaurantes aceita a presença de casais homossexuais, mas sabe por que eles continuam voltando aqui? Claro, pela qualidade do atendimento e dos produtos, mas principalmente pela troca que se deu entre o bar e o público. É como se dissessem: “Pelo que vocês fizeram pelo público LGBT, não é agora que nós vamos abandonar vocês”. De qualquer modo, é inegável que o cenário mudou bastante nos últimos anos. Antes, as pessoas tinham dinheiro para ir a dois ou três lugares numa só noite – “não está bom aqui, vou ali...”. E os lugares estavam todos cheios, com a noite efervescente. Hoje, elas têm dinheiro para ir a um lugar, chorando muito, a dois, e ainda escolhem o dia da semana, porque não é todo dia que podem sair. Só que as casas precisam pagar aluguel, funcionários, fornecedores, segurança privada e impostos, e aí elas não aguentam...

Dizem que as festas gays são as mais alegres e divertidas. Isso é lenda ou verdade?

O bar LGBT é o que tem menos brigas. As pessoas não vêm para brigar, e sim para conversar, se conhecer, se encontrar, beber, dançar... Se você falar com as equipes de segurança da noite, dirão em uníssono: “Onde tem menos brigas? Nas casas LGBT, lá as pessoas só querem se divertir”.

Paulo César Teixeira