Feminismo sem dogmas

 As múltiplas linhas do pensamento feminista de Joanna Burigo

 Joanna Burigo: "O lugar em que me posiciono é o da preservação da dignidade da vida." (Foto Érik da Silva Pastoris)

Joanna Burigo: "O lugar em que me posiciono é o da preservação da dignidade da vida." (Foto Érik da Silva Pastoris)

Fundadora do blog Casa da Mãe Joanna, experimento feminista de educação e comunicação sobre gênero, Joanna Burigo se destaca pela ousadia, lucidez e rigor entre as vozes do feminismo no Brasil. Ao mesmo tempo em que desconstrói com astúcia e sutileza chavões machistas seculares, ela utiliza o bisturi epistemológico para descompor os dogmas entrincheirados na ortodoxia do movimento feminista.

Além de colunista da revista Carta CapitalJoanna é coordenadora do Emancipa Mulher: Escola de Emancipação Feminista e Resistência Antirracista, que promove cursos e eventos como o Arena Feminista, realizado na terça-feira, dia 13 de março, no palco do Teatro de Arena de Porto Alegre. Nesta entrevista, a pesquisadora expõe os conceitos que a transformaram, em pouco tempo, numa das principais referências do feminismo no Brasil.

RUA DA MARGEM – De onde veio a ideia de criar a Casa da Mãe Joanna?

Joanna Burigo – Quando morei em Londres, de 2006 a 2014, já pensava que, se voltasse ao Brasil, daria esse direcionamento à minha vida. Enquanto fazia o mestrado em Gênero, Mídia e Cultura pela London School of Economics, eu montava no verso dos textos que lia as planilhas iniciais do que viria a ser a Casa da Mãe Joanna. A intenção sempre foi a de fazer um experimento de comunicação e educação sobre gênero, que pudesse talvez vir a se transformar no futuro numa escola. Era o plano que eu tinha idealizado, não significa que tenha se constituído exatamente como eu quis.

RUA DA MARGEM – Por que a denominação Casa da Mãe Joanna?

Joanna – A chance era imperdível – imagina, o meu nome no rótulo... Além disso, naquele momento o feminismo estava organizado dentro de uma rígida divisão de vertentes, hoje já não é mais tanto assim, e eu gosto de pensar que a Casa tem alguma responsabilidade nisso.

RUA DA MARGEM – O blog com o nome de fuzarca, no bom sentido, ajudou a diminuir o sectarismo do movimento.

Joanna – Não sei se efetivamente ajudou, mas gosto de pensar que sim. De outra parte, queria que fosse uma congregação de feministas me dizendo o que elas gostariam que eu fizesse, como uma construção coletiva fora da lógica capitalista de concorrência. E foi mais ou menos o que aconteceu – tudo que fazemos surge de demandas que acontecem dentro do grupo.

RUA DA MARGEM – A linha de pensamento feminista com a qual você trabalha se diferencia de outras vertentes quando dá ênfase às questões de gênero?

Joanna – Não acredito que seja possível separar feminismo das questões de gênero. A maioria de autores e autoras que trabalham com gênero tem uma herança feminista, até porque essa discussão surge dentro do próprio feminismo com uma série de artigos. Não quero ser a voz que determina onde começa a teoria de gênero, seria presunçoso da minha parte, mas O Tráfico de Mulheres: Notas sobre a “Economia Política” do Sexo, artigo de Gayle Rubin, de 1975, é um texto seminal e que muita gente considera como o pé na porta da teoria de gênero. Rubin hoje em dia direcionou sua pesquisa para outras áreas, como sadomasoquismo e lesbianismo, mas neste artigo ela apresenta o conceito de sistema sexo/gênero, no qual faz uma triangulação entre Freud, Levi Strauss e Marx/Engels, mostrando como – e aqui vou utilizar o léxico dela – o sistema utiliza a fêmea como “matéria-prima” para transformá-la no produto mulher. Aqui, ela está falando sobre como o sistema utiliza os corpos para dar valor simbólico a certas coisas.

As redes sociais não dão conta do que está acontecendo. A realidade exige uma sofisticação de pensamento para que se possa aplicar a crítica adequadamente a cada uma das tensões existentes.

RUA DA MARGEM – Atualmente, parece existir um clima de hostilidade entre algumas representantes feministas e segmentos LGBTs, principalmente nas redes sociais, como o Facebook. Você concorda?

Joanna – Existe, sim, e é muito forte. Esta não é uma questão exclusivamente brasileira, acompanhei isso também na Inglaterra. Vejo acontecer menos nos EUA, talvez porque eu não esteja tão imbricada no debate norte-americano quanto no da Inglaterra, em função de ter morado no Reino Unido. Agora, o Facebook já não é mais uma rede social, e sim uma trincheira. Está difícil sobreviver lá dentro.

RUA DA MARGEM – É possível identificar os motivos dessas desavenças?

Joanna – O feminismo mais antigo propõe que existem apenas duas grandes classes – homens e mulheres – e que, dentro desta perspectiva, as mulheres são oprimidas. Mas teóricas como a Judith Butler, que abriu as portas para o estudo de gênero, além de Raewyn Connell e Joan Scott, entre outras, mostraram que o feminismo precisa abranger outras questões referentes à sexualidade e à identidade de gênero, além do binário macho/fêmea.

RUA DA MARGEM – Em outras palavras, o que você diz é que a opressão do macho branco e heterossexual não atinge apenas as mulheres, e sim um conjunto de identidades de gênero.

Joanna – Aí você está invocando os preceitos da interseccionalidade, que surge na teoria crítica do feminismo em trabalhos como os de Kimberle Crenshaw e Patricia Hill Collins, duas teóricas do Direito, que são feministas, negras e norte-americanas. Quando se aplica a ferramenta interseccional à lógica do binário, vemos que existem variantes de raça e classe social que interferem nessa realidade. E, quando se aplica a lente de gênero, percebemos que outras sexualidades, não apenas as mulheres, também são marginalizadas. Por isso, as redes sociais não dão conta do que está acontecendo. A realidade exige uma sofisticação de pensamento para que se possa aplicar a crítica adequadamente a cada uma das tensões existentes.

RUA DA MARGEM – Quais os argumentos para convencer uma feminista à moda antiga de que outras identidades de gênero são relevantes?

 Em Oslo, com Djamila Ribeiro, para encontros com acadêmicos, parlamentares e representantes do governo, a convite da embaixada da Noruega no Brasil

Em Oslo, com Djamila Ribeiro, para encontros com acadêmicos, parlamentares e representantes do governo, a convite da embaixada da Noruega no Brasil

Joanna – A gente mora no país que mais mata transexuais no mundo – em 2017, aconteceram 179 homicídios, o maior número em dez anos. Eticamente, não consigo ignorar essa parte da luta. Não são corpos e vidas de mulheres biológicas, ok, mas são corpos e vidas que importam, sim. Eu parto do pressuposto de que cada pessoa define quem ela é. Se a pessoa se definir como mulher, eu vou respeitá-la. E se ela for assassinada porque se definiu como mulher, como isso não será do interesse do feminismo? Eu entendo os questionamentos e as reservas de correntes feministas, mas o lugar em que me posiciono é o da preservação da dignidade da vida.

RUA DA MARGEM – Você citou as estatísticas a respeito de assassinatos de transexuais no Brasil. Existem outros indicadores que apontam na mesma direção?

Joanna – Os dados de feminicídio, em geral, baixaram depois da lei Maria da Penha. Mas, se fizermos o recorte de raça, gênero e sexualidade, vamos ver que a realidade não é tão positiva como, a princípio, se possa imaginar. Os números caíram 9,8% para mulheres brancas e heterossexuais, entre 2005 e 2015. Mas, para mulheres negras, no mesmo período aumentaram 54%. Já os dados a respeito de lesbocídio mostram que, de 2014 a 2017, a quantidade de mortes passou de 16 para 54, aumento de 150% em quatro anos.

RUA DA MARGEM – Simone de Beauvoir publicou O Segundo Sexo em 1949. Está certo se pensar que o livro é um marco de fundação do pensamento feminista?

Joanna – Simone de Beauvoir é um divisor de águas, mas não significa que antes dela já não existissem mulheres falando da questão de gênero. Existem registros de versos cantados por trovadores medievais na Europa dizendo que gênero é uma construção social. Quer dizer, exatamente o que estamos falando agora. Mas, com sua popularidade, e como filósofa do Ocidente, acadêmica da Sorbonne, que se manifestava num ambiente intelectual marcado pelo existencialismo, estruturalismo e pós-estruturalismo, Simone teve o mérito de colocar um tijolo em cima do discurso que existia antes, e a partir daí ficou impossível não se pensar em questões de gênero de forma específica.

RUA DA MARGEM – Ela se identificava como feminista?

Joanna – Não se identificava, pelo menos até muito tempo depois de lançar O Segundo Sexo, até porque a palavra feminista não tinha se consolidado como um termo que unificasse todas as causas de gênero. Da mesma forma, quando Mary Wollstonecraft escreveu Reivindicação Dos Direitos Das Mulheres, ao final do século 18, tampouco existia a palavra no léxico, mas ela já estava falando dentro de uma perspectiva que hoje reconhecemos como feminista, ainda que a partir de outros pressupostos teóricos.

RUA DA MARGEM – Você concorda com a versão de que o movimento feminista se manifesta em ondas ao longo da História?

Joanna – Nos estudos feministas, há uma crítica à ideia de ondas, porque ela parece significar mais um interesse externo ao feminismo do que uma insurgência de sua produção teórica, que na realidade nunca ficou paralisada. Em alguns momentos, a sociedade se interessa mais pelo que a gente está fazendo, e aí denomina esses períodos de ondas.

RUA DA MARGEM – De qualquer modo, quais seriam as ondas do movimento feminista de acordo com essa interpretação?

Joanna – A primeira onda é a luta pelo sufrágio universal, interrompida por duas grandes guerras. A segunda é marcada pelas manifestações de rua dos anos 1960 e 1970, época do Women’s Lib e do aparecimento em 1972 da revista Ms. Magazine, primeira publicação feminista de que se tem registro. A terceira onda chega no começo da década de 1990, quando começa a vigorar o conceito de pós-estruturalismo na questão de gênero, com o rompimento das grandes narrativas. É quando a concepção do binário homem x mulher se rompe, abrindo espaço para outras identidades de gênero. O livro Problemas de Gênero – Feminismo e Subversão da Identidade, de Judith Butler, é de 1990. Butler hoje nem faz mais isso. Quando esteve no Brasil, no ano passado, veio para falar de democracia e radicalidade {Nota: apesar disso, a filósofa foi alvo de protestos e xingamentos no aeroporto de Congonhas, em SP, quando embarcava de volta para os EUA}. Por fim, a quarta onda é a que estamos vivendo agora, com o advento da internet, que botou o pós-modernismo na cara do mundo.

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Capa do livro Tem Saída? Ensaios Críticos sobre o Brasil, da Editora Zouk, com artigos de 25 mulheres, entre negras, indígenas e trans, além de ativistas, políticas, intelectuais, cientistas e anarquistas: "A indagação está no título. Tem saída a crise no Brasil? O livro jamais teve a pretensão de oferecer saídas. A ideia é trazer para o coração do debate político olhares e vozes que são frequentemente esquecidos e silenciados. A gente sugere que as pessoas formem grupos de estudo, para que se possa fomentar uma discussão e não seja só um livro para se ler", diz Joanna, uma das organizadoras da obra, lançada em dezembro de 2017.

RUA DA MARGEM – Imagino como deva ser difícil a luta de uma feminista, especialmente no Brasil – ao mesmo tempo em que precisa dar conta de uma busca de sofisticação de pensamento para compreender a realidade, precisa responder a ataques grosseiros de homens, muitos deles incensados como intelectuais. Não custa lembrar a frase de Millôr Fernandes “O melhor movimento feminino ainda é o dos quadris”.

Joanna – Nem sabia da frase do Millôr. Bem, essa é a pergunta de 1 milhão de dólares... Penso nisso incessantemente...

RUA DA MARGEM – É o desafio de uma feminista brasileira.

Joanna – Diria de uma feminista ocidental neste momento. Eu, a Winnie Bueno e a Rosana Pinheiro-Machado estamos produzindo muito juntas, porque somos amigas próximas e existe um fio condutor teórico que nos une. Quando enviamos junto com a Esther Solano o briefing para as 25 mulheres que escreveram os artigos do livro Tem Saída? Ensaios Críticos sobre o Brasil, não sabíamos o que iríamos receber de volta. A constatação foi a de que essa democracia pela qual estamos lutando nunca chegou até essas mulheres, entre as quais estão indígenas, negras, trans. Isso nos faz pensar que não estamos vivendo exatamente um retrocesso, no máximo uma interrupção de um progresso que jamais chegou às classes marginalizadas. A Suzane Jardim, grande homenageada do livro, fala na abertura do capitulo dela que essa democracia que as pessoas dizem defender é algo a que ela nunca teve acesso.

RUA DA MARGEM – Algumas pessoas acreditam que o seu trabalho é ligado ao PSOL. É verdade?

Joanna – Não sou filiada a nenhum partido político. Já trabalhei com a Manuela D’Avila, do PC do B, num documentário sobre a história das mulheres no parlamento. No livro Tem Saída?, temos militantes do PT, PSOL, PC do B, anarquistas. Acho importante adotar uma linha feminista que não esteja aparelhada em nenhum partido em particular.

RUA DA MARGEM – Quem sabe, dessa forma, essa linha feminista consiga unir a esquerda, algo que sempre pareceu impossível...

Joanna – Que bom que os homens de esquerda nos ouvissem, seria tão lindo, não é mesmo? Na verdade, eu sou chamada de isentona, e este é um termo típico do ativismo online. Acho engraçado, porque eu sou o oposto, me posiciono sobre tudo o tempo inteiro. Ao mesmo tempo, não me vinculo a partido político. A própria questão de ser esquerda ou não é complexa. Eu devo muito do meu conhecimento ao feminismo negro. E a Sueli Carneiro tem uma frase assim: “Entre esquerda e direita, eu sou preta”. Eu, quando perguntam se sou de esquerda ou direita, digo que sou feminista.

RUA DA MARGEM – É outro parâmetro.

Joanna – Claro, e se você pensar na esquerda clássica tradicional, que se pauta por Marx e Engels, verá que esse conhecimento contempla pouco a situação da mulher, apesar de Engels abordar a noção de trabalho produtivo e reprodutivo, que é muito cara ao feminismo.

RUA DA MARGEM – Como você recebeu a indicação ao prêmio Mulheres Que Inspiram, da revista Donna, de Zero Hora?

Joanna – Com imensa surpresa. Quando soube que era uma das indicadas ao prêmio, quase cai da cadeira. Fiquei maravilhada, essa é a palavra. Nem importa ganhar ou não, só de fazer parte da lista é um baita reconhecimento ao meu trabalho, principalmente levando em conta que bato tanto na mídia hegemônica.

RUA DA MARGEM – Sente algum constrangimento diante da aparente contradição?

Joanna – Absolutamente nenhum. Quando a Camila Saccomori {editora de Donna} me ligou para dar a notícia, ainda comentei com ela: “Mas logo eu, que bato na mídia hegemônica o tempo inteiro”. Ela respondeu que não tinha nada a ver. Para além do reconhecimento, que é importante demais, isso permite dialogar com setores da sociedade que não estão antenados na mídia alternativa. As minhas primas, as tias mais velhas, por exemplo, são pessoas que não estão engajadas na questão feminista como eu. Mas, quando elas leram a notícia no jornal, disseram: “Meu Deus, que maravilha, finalmente reconheceram teu trabalho!”.

Paulo César Teixeira