Um presente para a cidade

Seres efêmeros de amaro abreu revitalizam a paisagem urbana

    As fachadas dos sobrados da Rua Alberto Torres, na Cidade Baixa, pintadas por Amaro Abreu e outros cinco grafiteiros em outubro (Foto/Divugação Coletivo PaxArt)

 

As fachadas dos sobrados da Rua Alberto Torres, na Cidade Baixa, pintadas por Amaro Abreu e outros cinco grafiteiros em outubro (Foto/Divugação Coletivo PaxArt)

A civilização extraterrestre que emerge da fachada do sobrado, no canto direito da foto acima, pouco tem a ver com a ideia consagrada de supremacia da ciência e da tecnologia. Na verdade, os seres alienígenas que brotam da imaginação de Amaro Abreu foram esculpidos numa paisagem de pedra, musgo e rio, cercada de morros e com ilhas no horizonte.

– A evolução que os extraterrestres representam em meu trabalho tem a ver com uma conexão com o ambiente natural, esclarece Amaro, que morou dos cinco aos 25 anos na Volta do Veludo, um cantinho escondido do bairro Belém Novo, na zona sul de Porto Alegre. E acrescenta: – O exercício de criar civilizações de outros planetas é uma maneira de refletir sobre o habitat, a natureza e o humano, que estão cada vez mais dissociados.

Os grafites exibidos na sequência de quatro sobrados da Rua Alberto Torres, na Cidade Baixa, foram criados a 12 mãos – além de Amaro, participaram Celo Pax, Jotapê e Motu (do coletivo PaxArt), Paula Plim e Trampo. A ação denominada ArtPOA, iniciativa do Cabify para comemorar seu primeiro ano de atividades na capital gaúcha, também incluiu a revitalização de um conjunto de prédios na Rua Júlio de Castilhos, na esquina com a Coronel Vicente.

bicho do mato

 Na grua, concentrado na revitalização da sacada (Foto/Divulgação)

Na grua, concentrado na revitalização da sacada (Foto/Divulgação)

Artistas de rua como Amaro Abreu e seus amigos revitalizam e imprimem novos significados à paisagem urbana. Particularmente, ele acredita que o grafite dispensa sentimentos de apego ou posse – não é algo para vender ou guardar para si próprio. É um presente para a cidade. Nem sempre, contudo, a relação entre grafiteiros e sociedade se revelou harmoniosa. Quando começou a colorir muros e fachadas, há onze anos, as pessoas ainda confundiam grafite com vandalismo.

– Existia o risco de aparecer alguém querendo te bater ou chamar a polícia.

Aos poucos, o preconceito e a desinformação cederam espaço. No Brasil, nomes como Os Gêmeos (como ficou conhecida a dupla Gustavo e Otávio Pandolfo), Eduardo Kobra, Crânio (Fábio Oliveira) e Binho Ribeiro, entre outros, ganharam prestígio internacional e deram impulso para que o grafite deixasse de ser visto como uma arte marginal. A mudança já é perceptível nas ruas de Porto Alegre, conforme Amaro:

– As pessoas agora te recebem tri bem. Já aconteceu de passar alguém da fiscalização da prefeitura e até elogiar: “Vocês estão dando uma vida para a cidade!”.

Apesar de bicho do mato, Amaro está sempre de malas prontas para mostrar seu trabalho em qualquer canto do planeta. Em novembro, esteve participando da quarta edição do Concreto – Festival Internacional de Arte Urbana, em Fortaleza, que recebeu mais de uma centena de artistas de várias partes do planeta. As criaturas estratosféricas que criou estão espalhadas por Alemanha (até nas ruínas do Muro de Berlim deram as caras!), França, Espanha, México, Argentina, Paraguai e Uruguai. Em junho deste ano, ele esteve no Meeting of Styles (MOS), maior encontro de grafiteiros do mundo, em Wiesbaden, perto de Frankfurt.

– É um megaevento que atualmente é replicado em países da Europa, Ásia, Oriente Médio e nas Américas. Mas começou naquela cidadezinha alemã e, por isso, aquele lugar tem uma energia muito forte, conta ele.

Em Porto Alegre, além de Belém Novo, onde foram gestados, os monstrinhos podem ser apreciados no Centro Histórico e na Cidade Baixa, mas às vezes é preciso contar com um pouco de sorte para encontrá-los.

– A arte de rua é efêmera. O artista pode gastar um tempão com detalhes da pintura e, no dia seguinte, vem outro grafiteiro e faz um novo desenho ou o dono do prédio joga tinta por cima.

 Grafite na fábrica de cervejas artesanais Solerun, de Nova Prata (Foto de Marco Nedeff)

Grafite na fábrica de cervejas artesanais Solerun, de Nova Prata (Foto de Marco Nedeff)

monstros de olhar manso

Formado pela ULBRA em Artes Visuais, Amaro cresceu num ambiente familiar que estimulou sua vocação artística – é filho da jornalista Rosina Duarte e do repórter fotográfico Luiz Abreu, além de sobrinho de Neltair Rebés Abreu, o Santiago, um dos mais premiados cartunistas do País e dono de um dos sobrados grafitados na Cidade Baixa.

– Mesmo com o apoio da família, na hora de escolher a faculdade eu fiquei inseguro e cheguei a fazer um semestre de Design, que considerava mais próximo do mercado. Depois vi que não tinha a ver comigo.

Menos mal que seguiu o caminho das artes. Em 2016, sua obra foi reunida no livro Habitat, editado pela Libretos e viabilizado pela plataforma de financiamento coletivo Catarse. Além dos grafites, ali estão expostas aquarelas e peças feitas em nanquim e lápis colorido, sem contar rascunhos e fotos de viagens. 

– O livro traz ainda reflexões que ajudam a entender a trajetória e o sentido do trabalho, além de apresentar os personagens.

É uma boa dica para quem deseja saber com mais detalhes as histórias de um mundo onírico, onde plantas orgânicas são irmãs de monstros de olhar manso e de criaturas com cabeças em forma de círculos perfeitos. Um universo paralelo que, de acordo com Amaro, está dentro de cada indivíduo, mas que a urgência cotidiana não deixa fluir. Ainda bem que, pelas mãos do artista, esse universo fascinante ganha vida diante de nossos olhos! 

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 As criaturas oníricas de Amaro Abreu “lembram figuras circenses, menestréis ou arlequins, mas os olhos são reflexivos, sérios”, observa a jornalista Rosina Duarte.

As criaturas oníricas de Amaro Abreu “lembram figuras circenses, menestréis ou arlequins, mas os olhos são reflexivos, sérios”, observa a jornalista Rosina Duarte.

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Paulo César Teixeira