Bye, bye, tristeza

Ponto alto do carnaval de 2018 na capital gaúcha, bloco Amigos do Porto tinge de rosa a orla do Guaíba

 Sandra de Sá comanda a apresentação do bloco organizado pelo bar Porto Carioca, no dia do Enterro dos Ossos (Foto Cassio JP Silva/Divulgação)

Sandra de Sá comanda a apresentação do bloco organizado pelo bar Porto Carioca, no dia do Enterro dos Ossos (Foto Cassio JP Silva/Divulgação)

O sol já tinha se posto poucos minutos antes e uma lua nova avermelhada se deitava na linha do horizonte quando Sandra de Sá subiu até o topo do trio elétrico à beira do Guaíba.

Ninguém aqui é puro, anjo ou demônio...

Com uma taça de espumante nas mãos, a cantora carioca hipnotizou milhares de foliões que se aglutinavam na Avenida Edvaldo Pereira Paiva, junto à pista de skate do Parque Marinha do Brasil, local de concentração do Amigos do Porto, bloco carnavalesco criado e organizado pelo bar Porto Carioca.

Quero ser feliz, bye, bye, tristeza, não precisa voltar...

Ponto alto do carnaval de 2018 em Porto Alegre, o Amigos do Porto tingiu de rosa a orla do Guaíba na tarde/noite de 17 de fevereiro, dia do Enterro dos Ossos.

 O destaque da astrologia no figurino de Paola Francine (Foto Evelin Terres/Divulgação)  

O destaque da astrologia no figurino de Paola Francine (Foto Evelin Terres/Divulgação)  

Na pista da avenida, a multidão acompanhava sem fôlego os hits da artista conhecida pelo balanço e o timbre grave e potente da voz.  “Liberdade, liberdade”, repetia o farmacêutico Rodrigo Gassen, sem outras palavras para descrever o que sentia naquele momento.

Cliente assíduo do Porto Carioca, Rodrigo fez questão de elogiar o ambiente de respeito às diferenças que impera não só no bloco, mas também no dia-a-dia do Porto Carioca. “Em termos de recusa à discriminação, não existe outro recanto em Porto Alegre”, acrescentou o rapaz.

“O bloco é igual ao Porto Carioca, sem qualquer tipo de preconceito”, confirmou a personal trainer Paola Francine, que se destacava entre os foliões com um cartaz pendurado ao corpo: “Chegou a louca dos signos”.

– Todo mundo pergunta sempre qual é o meu signo, porque percebe que sou muito mística. Então, resolvi contar logo de uma vez, explicou a virginiana com a lua em Gêmeos.

“Tudo o que é feito com amor dá certo”, exclamou a estudante de marketing Ana Paula Rodrigues, em meio à animação. "O Amigos do Porto está mostrando organização e, principalmente, muita alegria", completou ela.

Já a enfermeira Zuleica Martins preferiu salientar a diversidade e o ecletismo do público que frequenta o bar e desfila com o bloco. “Isso faz com que tudo fique ainda mais divertido”, disse ela.

Os depoimentos mostram que, apesar dos contratempos, o Amigos do Porto cumpriu as expectativas que havia gerado junto ao público carnavalesco da cidade.

Dois dias antes da apresentação do bloco, representantes da prefeitura e da AMCB (Associação dos Moradores da Cidade Baixa) solicitaram a transferência do local do desfile da Travessa Comendador Batista para a orla do Guaíba, por causa da quantidade de foliões que deveriam ocupar as ruas do bairro boêmio.

– Concordamos com a mudança em respeito aos moradores e pelo zelo que temos em relação à Cidade Baixa, tendo em vista a proporção tomada pelo nosso bloco, que trazia uma atração nacional capaz de mobilizar um grande público, explicou Joicy Gama, proprietária do Porto Carioca (leia entrevista mais abaixo).

A seguir, veja imagens do carnaval do bloco Amigos do Porto (Fotos Cassio JP Silva): 

Antes de Sandra de Sá, Tonho Crocco subiu no trio elétrico para apresentar com sua banda o show Tributo a Tim Maia. Os DJs Joelma Terto, Madruga e Ricktocadisco completaram o elenco de atrações do Amigos do Porto, que contou com apoio da RDM Fitness Academia e Charlie Pub Drinks & CoffeShop.

A hospedagem de Sandra de Sá foi cortesia do Íbis Hotel, ao passo que o Cabify colocou veículo e motorista à disposição da cantora para entrevistas e deslocamento até o local do espetáculo. A produtora Austral, por sua vez, disponibilizou o carro de apoio que vinha depois do trio elétrico, reproduzindo o áudio do show para os que ficavam para trás na multidão. Por fim, a Ambev com a marca Skol patrocinou o trio elétrico do Amigos do Porto.

A equipe de produção contou com Letícia Menegotto na captação de patrocínios, Cláudia Jobim na divulgação e Thiane Ávila na produção de mídias digitais e artes gráficas, além de Duarte Ribeiro, que compôs a marchinha do bloco.

"Falta apoio para a cultura em porto alegre"

 Joicy Gama, dona do Porto Carioca e organizadora do bloco Amigos do Porto (Foto Cassio JP Silva/Divulgação)

Joicy Gama, dona do Porto Carioca e organizadora do bloco Amigos do Porto (Foto Cassio JP Silva/Divulgação)

Rua da Margem – Quando a Sandra de Sá começou a cantar, deu para ver que você estava chorando em cima do trio eletrico. Por quê?

Joicy Gama – Olha, isso é uma coisa que eu só contei para o meu marido, o Marcelo, mas a verdade é que eu achei que ia ter um ataque cardíaco quando cheguei lá na orla. Senti o coração palpitar como nunca na vida, com medo de que o show não ficasse do jeito que eu queria. Liguei para minha mãe e ainda comentei com ela – “Só falta eu ter um ataque do coração, justo agora!”. Então, quando vi a Sandra de Sá subindo no trio elétrico e percebi que tinha conseguido fazer o evento, não do jeito que eu queria, mas tinha conseguido, bom, aí eu chorei horrores. Naquele instante, passou um filme na minha cabeça. Foi uma emoção muito forte ver aquela mulher cantando Olhos Coloridos para uma galera imensa, formada por crianças, jovens, idosos...

RM – Para uma cidade que, neste ano, não conseguiu realizar o desfile das escolas de samba no Porto Seco, a apresentação do bloco Amigos do Porto com Sandra de Sá talvez tenha sido o momento de maior impacto do carnaval de 2018. No entanto, apesar da ousadia e do pioneirismo, a iniciativa enfrentou dificuldades, como a transferência de local às vésperas do desfile. Você se sentiu prejudicada?

Joicy – Não levo para esse lado, afinal, ninguém botou uma arma na minha cabeça e mandou que eu organizasse o Amigos do Porto. Sabia dos riscos e quis fazer mesmo assim. É algo que fiz pensando em melhorar o carnaval da cidade, mas ao mesmo tempo eu tenho que entender que nem todo mundo quer a Sandra de Sá em cima de um trio elétrico perto de casa. Seja como for, a verdade é que não faço o bloco para o Porto Carioca, e sim para Porto Alegre, para a cidade toda, por isso, precisaria de mais apoio da prefeitura e de patrocinadores. Falta apoio para a cultura em Porto Alegre, isso é certo. Em nosso caso, apelamos para o financiamento coletivo e a venda de abadás. Os 300 abadás que encomendamos esgotaram, e as pessoas queriam mais. Apesar das dificuldades, posso dizer que estou muito feliz. É que sou turrona, como boa leonina, e não desisto das coisas facilmente. Vou em frente, apesar dos obstáculos. A batalha foi enorme, mas a vitória ao final de tudo foi maior ainda.

RM – O que a mudança da Cidade Baixa para a orla do Guaíba trouxe de positivo e quais os pontos negativos da transferência?

Joicy – A orla é um lugar mais aberto, e ali é possível fazer o carnaval sem incomodar os vizinhos, ao contrário do que acontece na Cidade Baixa. Mas lá faltou estrutura, como, aliás, também falta no carnaval da Rua da República ou da Lima e Silva. O ideal é que houvesse mais lixeiras e banheiros químicos à disposição do público. Clientes do Porto Carioca reclamaram e é preciso reconhecer que, neste ponto, o evento deixou a desejar. Em boa parte, estas e outras dificuldades foram consequência das alterações de última hora, o que não é uma desculpa.

RM – Como assim?

Joicy – A princípio, o Tonho Crocco faria uma apresentação com sua banda no carro do Nordestão da Skol, mas com as mudanças definidas pela prefeitura o show dele e o da Sandra de Sá se transformaram num só evento. Assim, cedemos o nosso trio elétrico para que ele cantasse antes da Sandra. Foi maravilhoso contarmos com duas bandas no Amigos do Porto, mas juntamos um público maior do que imaginávamos agregar. Além disso, o horário ficou apertado para as demais atrações, como os DJs Joelma, Madruga e Rick. A galera reclamou que a Sandra custou a subir no palco, mas não foi culpa dela. Então, a alteração de local foi positiva principalmente por causa do espaço à beira do Guaíba, o que atrapalhou mais foi o fato de ela ter sido determinada dois dias antes do evento, o que prejudicou o planejamento que tínhamos elaborado com antecedência. Foi uma surpresa para nós, não estávamos realmente esperando por isso, então, neste aspecto, não foi legal.

RM – O que mais poderia melhorar para eventos deste porte no futuro?

Joicy Quando acabou a apresentação do bloco, a avenida foi liberada de imediato para a passagem dos carros, sem que se fizesse a limpeza da área. Os automóveis começaram a passar no meio do lixo deixado pela multidão. A meu ver, o certo é que, assim que o bloco encerrasse o cortejo, viesse o pessoal do DMLU e já iniciasse a limpeza, até porque ela é demorada. Mas isso é algo que não depende do lugar em que o evento é realizado.

RM – Já tem ideia do que vai fazer no carnaval de 2019?

Joicy – Recebi mais elogios do que xingamentos pelo WhatsApp e o Messenger (risos). Falando sério, a galera curtiu muito, mas eu não posso esquecer que o Porto Carioca é um empreendimento pequeno para promover um evento tão grande. Se conseguimos realizar algo tão bonito quase sem apoio de grandes patrocinadores, imagina o que faríamos se tivéssemos esse suporte. No dia seguinte ao desfile do bloco, eu ainda estava tentando respirar um pouco e as pessoas já me perguntavam o que vou produzir no carnaval de 2019. A minha resposta era até engraçada, algo como “Não vou promover nada, mas aceito sugestões...”. Sou uma empreendedora e amo o que faço. Não à toa, o Porto Carioca está aí há sete anos, com bastante sucesso. Não sei dizer o que farei no próximo ano, mas, se tiver apoio e patrocínio, com certeza vou fazer algo, sim.

Luisa Rosa